Orejona: A Mulher que Veio de Vênus

 




Orejona: A Mulher que Veio de Vênus

Parte 3 — Tiahuanaco, Erich von Däniken e a origem de uma das mais controversas lendas venusianas

Introdução — Uma história extraordinária

Existe uma história que há décadas circula em livros sobre antigos astronautas.

Segundo essa narrativa, muito antes da chegada dos europeus à América, uma mulher teria descido de Vênus e chegado à região de Tiahuanaco, junto ao lago Titicaca.

Seu nome seria:

Orejona.

Em outras versões:

Orjana.

Ela teria características físicas incomuns:

  • cabeça alongada;
  • grandes orelhas;
  • quatro dedos;
  • membranas entre os dedos;
  • aparência diferente da população terrestre.

Segundo a narrativa, ela teria vindo para gerar uma nova humanidade.

Seria uma espécie de mãe ancestral.

A história parece exatamente o tipo de mito que poderia ter atravessado milhares de anos.

Mas existe uma pergunta fundamental:

qual é a fonte?


1. A versão de Erich von Däniken

Em 1968, o escritor suíço Erich von Däniken publicou Erinnerungen an die Zukunft, conhecido em espanhol como Recuerdos del futuro.

O livro tornou-se uma das obras mais influentes da literatura sobre antigos astronautas.

Entre suas diversas histórias aparece uma narrativa sobre uma mulher relacionada a Tiahuanaco.

Na edição espanhola, o nome aparece como:

Orjana.

A personagem teria vindo de uma nave dourada.

Sua origem estaria relacionada a Vênus.

Ela teria características físicas incomuns e teria gerado dezenas de descendentes.

A narrativa é apresentada como uma antiga tradição.

Mas aqui surge o primeiro problema documental:

Däniken não é a primeira fonte conhecida dessa história.


2. Robert Charroux — a história já existia em 1963

Cinco anos antes de Däniken, o escritor francês Robert Charroux publicou:

Histoire inconnue des hommes depuis cent mille ans.

O livro apareceu em:

1963.

Nele já encontramos uma personagem chamada:

Orejona.

A narrativa apresenta uma mulher associada a Vênus e descreve características físicas semelhantes às posteriormente popularizadas por Däniken.

A coincidência é muito grande.

Nome.

Origem venusiana.

Tiahuanaco.

Características físicas.

Descendência.

Portanto, quando encontramos a história em Däniken, não estamos diante de uma narrativa que surgiu originalmente com ele.


3. Orejona e as grandes orelhas

O próprio nome é revelador.

Em espanhol:

orejona

é uma forma relacionada a “orejas”, orelhas.

A personagem seria, portanto, literalmente:

a mulher das grandes orelhas.

Esse detalhe nos leva a uma questão histórica.

Existem referências coloniais a povos ou grupos indígenas associados ao uso de grandes adornos auriculares.

Entre os incas, os chamados orejones eram associados à aristocracia e ao uso de grandes ornamentos nas orelhas.

Essa realidade histórica pode ter sido reinterpretada por autores modernos.


4. De “orejones” a “Orejona”

Aqui aparece uma possibilidade particularmente interessante.

Um termo histórico relacionado a indígenas com grandes adornos auriculares poderia ter sido transformado em uma personagem feminina:

Orejona.

Depois essa personagem recebeu características extraordinárias.

Em seguida foi relacionada a Tiahuanaco.

Depois a Vênus.

E finalmente a uma suposta origem extraterrestre.

É preciso deixar claro:

isso é uma reconstrução da trajetória da narrativa, não uma prova definitiva de que essa foi exatamente a intenção original de cada autor.

Mas a coincidência documental merece investigação.


5. Wiktor Stoczkowski e a genealogia dos antigos astronautas

Um dos trabalhos mais importantes para compreender esse problema é o do antropólogo Wiktor Stoczkowski.

Em Des hommes, des dieux et des extraterrestres, publicado pela Flammarion em 1999, Stoczkowski investigou historicamente a formação da crença moderna nos antigos astronautas.

Seu objetivo não era simplesmente perguntar:

“os extraterrestres existiram?”

A pergunta era diferente:

“como surgiu a ideia moderna de que os extraterrestres visitaram nossos antepassados?”

Essa mudança de perspectiva é fundamental.


6. O método de Stoczkowski

Em vez de começar pelas alegações extraordinárias, Stoczkowski procurou rastrear:

quem escreveu primeiro;

quem copiou quem;

quais fontes foram citadas;

quais fontes desapareceram;

como determinadas histórias foram transformadas.

Esse método é especialmente importante no caso de Orejona.

Porque permite distinguir:

mitologia indígena documentada

de

mitologia moderna sobre povos indígenas.


7. A cadeia Charroux → Däniken

A pesquisa histórica indica uma relação importante:

Robert Charroux — 1963

↓

Erich von Däniken — 1968

↓

literatura dos antigos astronautas

↓

livros, revistas e internet

↓

a narrativa moderna de Orejona.

Essa sequência é muito mais verificável do que a afirmação de que a história teria sido transmitida intacta desde uma civilização pré-colombiana.


8. Existe uma fonte inca antiga para Orejona?

Essa é a pergunta central.

Até o momento, não encontramos uma fonte pré-colombiana ou colonial primária confiável que apresente:

Orejona como uma deusa de Vênus

e

mãe da humanidade

e

habitante de Tiahuanaco

e

ser proveniente de Vênus.

Isso é fundamental.

Existem inúmeras tradições andinas sobre:

  • criação;
  • Viracocha;
  • lago Titicaca;
  • ancestrais;
  • estrelas;
  • Sol;
  • Lua;
  • planetas.

Mas isso não significa que qualquer narrativa moderna ambientada nos Andes possa automaticamente ser atribuída aos incas.


9. Tiahuanaco e Viracocha

A região de Tiwanaku/Tiahuanaco possui uma tradição arqueológica extraordinária.

É uma das grandes civilizações pré-colombianas dos Andes.

O local também foi posteriormente incorporado a narrativas sobre Viracocha, figura criadora presente nas tradições andinas documentadas por cronistas.

Viracocha é uma figura muito diferente de Orejona.

Não devemos misturar as tradições.

Uma coisa é:

cosmologia andina documentada.

Outra é:

a narrativa moderna de uma mulher venusiana.


10. O lago Titicaca e a criação

O lago Titicaca possui enorme importância nas tradições andinas.

Narrativas coloniais registram histórias nas quais o lago e a região de Tiwanaku participam das origens de povos e divindades.

Isso provavelmente ajudou a tornar o cenário extremamente atraente para escritores modernos.

Tiahuanaco.

Lago Titicaca.

Civilização antiga.

Templos monumentais.

Mitologia de criação.

Astronomia.

Tudo isso cria um ambiente perfeito para uma narrativa de visitantes celestes.

Mas cenário não é fonte.


11. O problema da palavra “mito”

A palavra “mito” costuma ser utilizada de maneira muito ampla.

Pode significar:

tradição religiosa antiga;

narrativa oral;

história sagrada;

lenda popular;

narrativa literária;

ou simplesmente:

história não comprovada.

Isso produz enorme confusão.

Quando alguém diz:

“Existe um mito andino de Orejona.”

precisamos perguntar:

qual povo?

qual idioma?

qual século?

qual cronista?

qual manuscrito?

qual registro oral?

qual pesquisador documentou?

Sem essas informações, “mito antigo” pode significar simplesmente:

história publicada por um autor moderno.


12. O que podemos afirmar sobre Vênus nos Andes?

Podemos afirmar que Vênus tinha importância astronômica e cosmológica em sociedades andinas.

Podemos citar Chasca Coyllur como manifestação relacionada ao Lucero da Manhã.

Podemos estudar as tradições relacionadas às estrelas e ao calendário.

Podemos investigar o conhecimento astronômico dos incas.

Mas devemos separar isso de:

Orejona.

A personagem pertence a uma cadeia documental muito mais recente.


13. O que Däniken acrescentou?

A literatura de Däniken estabeleceu uma interpretação específica.

Monumentos antigos poderiam representar ou preservar evidências de visitantes extraterrestres.

No caso de Tiahuanaco, elementos arqueológicos foram reinterpretados dentro dessa perspectiva.

O problema não é estudar a hipótese.

O problema seria apresentar a hipótese como se fosse consenso arqueológico.

Não é.

A arqueologia convencional interpreta Tiwanaku dentro da história das sociedades pré-colombianas dos Andes.

A hipótese extraterrestre pertence a uma interpretação especulativa posterior.


14. Isso destrói o mistério?

Não.

E aqui está uma distinção que considero essencial.

Descobrir que uma narrativa é moderna não significa que ela seja inútil.

Pelo contrário.

Podemos estudar:

como o mito foi criado;

por que ganhou força;

quais elementos antigos foram utilizados;

como escritores modernos reinterpretaram culturas indígenas;

por que Vênus foi escolhido;

e por que histórias de visitantes celestes continuam fascinando a humanidade.

O objeto de investigação simplesmente muda.

Deixa de ser:

“Será que os incas realmente receberam uma venusiana?”

e passa a ser:

“Como nasceu a história de que os incas receberam uma venusiana?”

A segunda pergunta possui documentação muito mais acessível.


15. Orejona como mito moderno

Podemos, portanto, tratar Orejona como um mito moderno da paleoastronáutica.

Isso não significa ridicularizar a narrativa.

Significa colocá-la historicamente no lugar correto.

Ela pertence a uma tradição intelectual do século XX que procurou reinterpretar:

  • mitologias antigas;
  • monumentos arqueológicos;
  • textos religiosos;
  • relatos indígenas;
  • astronomia antiga.

Dentro dessa corrente, Vênus tornou-se um dos candidatos naturais para uma suposta origem extraterrestre.


16. Por que Vênus?

A escolha de Vênus é compreensível.

Vênus é:

o planeta mais brilhante do céu depois da Lua;

facilmente observável a olho nu;

visível ao amanhecer e ao entardecer;

aparentemente mutável;

associado a inúmeras divindades antigas.

Se alguém procurasse uma “morada celestial” para um personagem mitológico, Vênus seria um candidato extremamente atraente.

E isso já havia acontecido milhares de anos antes de Däniken.

A diferença é que os antigos chamavam essa entidade de:

deusa, deus ou espírito.

O século XX passou a chamá-la:

extraterrestre.


17. Da divindade ao extraterrestre

Essa transformação merece atenção.

Durante a Antiguidade:

Vênus → divindade.

Na modernidade:

Vênus → planeta.

Na literatura dos antigos astronautas:

Vênus → possível origem de visitantes extraterrestres.

O céu permaneceu.

A linguagem mudou.

Essa talvez seja uma das partes mais interessantes de toda a investigação.


18. A grande comparação

Ao longo das três partes encontramos:

Mesopotâmia

Inanna/Ištar

Vênus como poder feminino, amor, guerra e transformação.

Grécia

Afrodite

Vênus associado ao amor e à beleza.

Roma

Vênus

Deusa do amor, fertilidade e ancestralidade romana.

Irã

Anāhitā

Divindade associada à fertilidade, águas e Vênus.

Índia

Śukra

Vênus como entidade masculina.

China

Taibai

A Grande Estrela Branca.

África

Kileken

O visitante celeste.

Austrália

Barnumbirr

A Estrela da Manhã e ligação com os ancestrais.

Polinésia

Kōpū/Tāwera

A estrela da manhã e da tarde.

Mesoamérica

Tlahuizcalpantecuhtli

Senhor da Aurora.

Mundo maia

Vênus

Objeto de observação matemática e calendárica.

Andes

Chasca Coyllur

O Lucero da Manhã.

Paleoastronáutica moderna

Orejona/Orjana

A suposta mulher que teria vindo de Vênus.

São histórias diferentes.

Mas todas possuem uma mesma protagonista celeste:

Vênus.


19. A verdadeira grande pergunta

Talvez a pergunta mais interessante não seja:

“Vênus trouxe a humanidade?”

Mas:

“Por que tantas civilizações olharam para Vênus e transformaram sua aparição em histórias de seres sobrenaturais?”

Essa pergunta pode ser respondida parcialmente pela astronomia.

Vênus é extraordinariamente brilhante.

Seu comportamento é peculiar.

Seu ciclo é regular.

Ele desaparece e retorna.

E pode parecer uma estrela completamente diferente dependendo do momento em que é observado.

Para sociedades que dependiam do céu para organizar o calendário, a agricultura, a navegação e os rituais, Vênus era impossível de ignorar.


20. A estrela que se tornou espelho da humanidade

Talvez Vênus seja um dos melhores exemplos de como a humanidade transforma natureza em cultura.

O planeta é físico.

A deusa é cultural.

A estrela da manhã é uma observação.

A narrativa é uma interpretação.

O visitante extraterrestre é uma hipótese moderna.

São camadas diferentes.

Misturá-las produz confusão.

Separá-las permite compreender uma história muito mais fascinante.


Reflexão final — O que realmente veio de Vênus?

Durante milhares de anos, a humanidade olhou para Vênus.

Mesopotâmios viram Inanna.

Babilônios viram Ištar.

Gregos viram Afrodite.

Romanos viram Vênus.

Iranianos viram Anāhitā.

Indianos viram Śukra.

Chineses viram Taibai.

Maasai contaram a história de Kileken.

Yolngu celebraram Barnumbirr.

Maias calcularam os ciclos do planeta.

Povos andinos observaram Chasca Coyllur.

E escritores modernos imaginaram Orejona.

Talvez nenhuma dessas histórias seja simplesmente “a verdadeira”.

Cada uma pertence a uma época, cultura e sistema cosmológico.

Mas todas revelam uma característica comum da humanidade:

quando não compreendemos completamente o céu, contamos histórias sobre ele.

Com o nascimento da ciência moderna, algumas dessas histórias foram substituídas por astronomia.

Descobrimos que Vênus é um planeta.

Descobrimos sua órbita.

Sua atmosfera.

Suas temperaturas.

Suas fases.

Sua geologia.

Enviamos sondas.

E descobrimos um mundo extremamente hostil.

Mas o planeta científico não eliminou o planeta mítico.

Porque o segundo não existe apenas no espaço.

Ele existe na memória humana.


Conclusão — A deusa que talvez nunca tenha sido apenas uma deusa

Vênus é muito mais do que a deusa romana que deu nome ao planeta.

É uma das grandes pontes entre:

astronomia e religião;

céu e Terra;

mito e ciência;

observação e imaginação.

Sua história percorre praticamente toda a humanidade.

E a investigação de Orejona acrescenta uma última camada.

A história da mulher que teria vindo de Vênus é fascinante.

Mas sua origem documental aponta para o século XX e para a literatura moderna dos antigos astronautas, particularmente para a obra de Robert Charroux, anterior a Erich von Däniken.

Até que apareça uma fonte indígena antiga independente que documente Orejona, não devemos apresentá-la como uma deusa inca historicamente comprovada.

Mas podemos fazer algo talvez mais interessante:

investigar como nasceu esse mito moderno.

Porque, no final, a própria trajetória de Orejona repete o comportamento de Vênus.

Ela desaparece nas fontes.

Reaparece em outro lugar.

Muda de forma.

E retorna novamente ao céu da imaginação humana.

Talvez seja por isso que Vênus tenha permanecido durante milhares de anos como uma das maiores personagens do firmamento.

A mesma luz.

Mil nomes.

Mil histórias.

E uma humanidade inteira tentando compreender o que existe além dela.


Selected Bibliography & Further Reading


Charroux, Robert. One Hundred Thousand Years of Man's Unknown History (Histoire inconnue des hommes depuis cent mille ans). Translated by R. B. Lowndes. Berkley Medallion Books, 1970 [Originally published 1963].

Cobo, Bernabé. Inca Religion and Customs. Translated and edited by Roland Hamilton. University of Texas Press, 1990 [Originally written 1653].

Garcilaso de la Vega, El Inca. Royal Commentaries of the Incas and General History of Peru. Translated by Harold V. Livermore. University of Texas Press, 1966 [Originally published 1609].

Kolata, Alan L. The Tiwanaku: Portrait of an Andean Civilization. Wiley-Blackwell, 1993.

Stoczkowski, Wiktor. Explaining Alien Contacts: How Theory Creates Its Own Evidence (Des hommes, des dieux et des extraterrestres). Translated by Mary Turton. Cambridge University Press, 2002 [Originally published 1999].

Urton, Gary. At the Crossroads of the Earth and the Sky: An Andean Cosmology. University of Texas Press, 1981.

Von Däniken, Erich. Chariots of the Gods? Unsolved Mysteries of the Past (Erinnerungen an die Zukunft). Translated by Michael Heron. Souvenir Press, 1969 [Originally published 1968].


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