A Louca Dança Celeste: Do Firmamento da Bíblia aos Céus do Egito e da Mesopotâmia — a Terra que Nunca Esteve Parada

 





A Louca Dança Celeste: Do Firmamento da Bíblia aos Céus do Egito e da Mesopotâmia — a Terra que Nunca Esteve Parada

A Terra não está parada — nós estamos viajando pelo espaço a velocidades que desafiam a nossa própria percepção

Existe uma experiência cotidiana que talvez seja uma das maiores ilusões produzidas pelos nossos sentidos: a sensação de que estamos parados.

Estamos sentados numa cadeira. Caminhamos pela rua. Dormimos em nossa cama. Observamos uma montanha aparentemente imóvel no horizonte.

Tudo parece estar em repouso.

Mas nada disso corresponde à realidade física.

Enquanto você lê estas palavras, você está girando com a Terra, viajando ao redor do Sol, acompanhando o movimento do Sistema Solar através da Via Láctea e participando, juntamente com toda a nossa galáxia, de uma dinâmica cósmica muito maior.

A Terra é, nesse sentido, uma gigantesca nave espacial natural.

E nós somos passageiros que quase nunca percebemos que estamos viajando.

Graham Hancock explorou essa perspectiva em As Digitais dos Deuses, ao discutir os movimentos da Terra, a precessão dos equinócios, a obliquidade do eixo terrestre e a relação entre esses fenômenos e as antigas concepções humanas do céu.

Aqui, porém, podemos ir além.

Podemos abandonar algumas das conclusões especulativas de Hancock e reconstruir o problema utilizando dados astronômicos modernos, confrontando-os com uma pergunta muito mais antiga:

Como os seres humanos começaram a imaginar o lugar que ocupamos no Universo?


1. A Terra está girando — e você está viajando a mais de 1.600 km/h

A Terra completa aproximadamente uma rotação a cada 24 horas.

No equador, isso significa que um ponto da superfície terrestre percorre aproximadamente 40 mil quilômetros durante uma rotação.

O resultado é uma velocidade de aproximadamente 1.675 km/h no equador.

A NASA utiliza justamente esse valor para explicar o movimento de rotação terrestre.

Portanto, uma pessoa parada na linha do equador não está realmente parada.

Ela está descrevendo uma enorme circunferência no espaço.

No entanto, existe uma diferença importante: quanto mais nos aproximamos dos polos, menor é a velocidade linear associada à rotação.

E mesmo essa velocidade é apenas o primeiro movimento.

Porque a Terra não está simplesmente girando sobre si mesma.

Ela está também viajando ao redor do Sol.


2. A Terra percorre o espaço a aproximadamente 107.000 km/h

A órbita terrestre ao redor do Sol possui uma velocidade média de aproximadamente 29,8 km/s, equivalente a cerca de 107.000 km/h.

A própria NASA apresenta esse valor de aproximadamente 107.000 km/h em materiais educacionais sobre lançamento de foguetes e movimento orbital.

Isso produz uma imagem extraordinária.

Enquanto você lê uma página de um livro, a Terra terá percorrido centenas ou milhares de quilômetros ao longo de sua órbita.

Em aproximadamente um segundo, o planeta avança cerca de 29,8 quilômetros em sua trajetória orbital.

Em um minuto, aproximadamente 1.788 quilômetros.

Em uma hora, aproximadamente 107 mil quilômetros.

Em um dia, mais de 2,5 milhões de quilômetros.

E fazemos isso continuamente.

Sem perceber.


3. Mas o Sol também está em movimento

Aqui começa a ficar realmente difícil imaginar a escala.

A Terra gira.

A Terra orbita o Sol.

Mas o Sol também está viajando.

Nosso Sistema Solar está orbitando o centro da Via Láctea.

Dados da missão Gaia indicam que o baricentro do Sistema Solar se move ao redor do centro galáctico a aproximadamente 220 km/s. Isso corresponde a aproximadamente 792.000 km/h.

Portanto, quando falamos da velocidade da Terra, precisamos perguntar:

Velocidade em relação a quê?

Não existe uma única velocidade absoluta para descrever nossa viagem pelo cosmos.

Há a rotação da Terra.

Há a revolução da Terra em torno do Sol.

Há o movimento do Sol através da Via Láctea.

E há ainda o movimento da própria Via Láctea em escalas cosmológicas maiores.

A imagem mais correta, portanto, não é a de uma Terra viajando sozinha.

É a de uma série de movimentos sobrepostos.

Uma dança dentro de outra dança.

E outra.

E outra.


4. A Terra também oscila

A Terra não é uma esfera perfeitamente rígida girando de maneira absolutamente simples.

Seu eixo possui uma inclinação de aproximadamente 23,4° em relação ao plano orbital.

Essa inclinação é responsável pela existência das estações do ano.

A NASA informa que a obliquidade terrestre varia aproximadamente entre 22,1° e 24,5°, em um ciclo de cerca de 41.000 anos.

Isso significa que, além de girar diariamente e orbitar o Sol anualmente, o planeta participa de ciclos muito mais lentos.

A escala temporal muda completamente.

Um movimento acontece em um dia.

Outro, em aproximadamente um ano.

Outro, em dezenas de milhares de anos.

E existe ainda a precessão do eixo terrestre, com um ciclo de aproximadamente 26 mil anos.

O céu que nossos antepassados observaram, portanto, não era exatamente o mesmo céu que observamos hoje.

As estrelas continuam existindo, mas a orientação do eixo terrestre muda lentamente.

O próprio referencial celeste muda.


5. A grande dança da precessão

Imagine um pião.

Enquanto gira rapidamente, seu eixo pode realizar um movimento lento, formando um círculo.

Esse movimento é chamado de precessão.

A Terra apresenta um fenômeno semelhante.

A interação gravitacional principalmente com o Sol e a Lua, combinada com o fato de a Terra possuir um abaulamento equatorial, produz a precessão do eixo terrestre.

O eixo não aponta eternamente para a mesma região do céu.

Ao longo de milhares de anos, a orientação muda.

Por isso, a estrela que hoje conhecemos como Polaris, a Estrela Polar, não permanecerá indefinidamente na posição próxima ao polo celeste norte.

Em escalas de milhares de anos, outras estrelas assumem posições diferentes em relação ao polo.

Para uma civilização humana, isso significa algo extraordinário:

o próprio céu possui uma história.


6. Um planeta deformado pelo movimento

A Terra tampouco é uma esfera perfeita.

Seu movimento de rotação contribui para o achatamento dos polos e o abaulamento equatorial.

Por isso, geometricamente, nosso planeta é melhor descrito como um esferoide oblato.

Isso parece uma pequena diferença.

Mas é precisamente essa diferença que participa da mecânica da precessão.

A Terra possui uma distribuição de massa que permite que forças gravitacionais externas exerçam torques sobre ela.

A Lua desempenha papel importante nesse processo, assim como o Sol.

A imagem do planeta como um gigantesco pião cósmico, portanto, não é apenas uma metáfora poética.

É uma analogia física útil — desde que não levemos a comparação além dos limites da mecânica real.


7. O relógio cósmico das estações

Há algo ainda mais impressionante.

Nós não percebemos diretamente a velocidade orbital da Terra.

Não sentimos a Terra atravessando o espaço a aproximadamente 107 mil quilômetros por hora.

O que percebemos são as consequências da geometria orbital e da inclinação do eixo.

Primavera.

Verão.

Outono.

Inverno.

O ciclo das estações é uma manifestação visível de movimentos astronômicos que, individualmente, permanecem invisíveis aos nossos sentidos.

O calendário humano nasceu, em grande medida, da tentativa de compreender e organizar esses ciclos.

O céu tornou-se relógio.

As estações tornaram-se calendário.

Os solstícios e equinócios tornaram-se referências culturais, religiosas e agrícolas.

E assim começa uma das histórias mais antigas da humanidade:

a tentativa de transformar o movimento do céu em conhecimento sobre a própria existência.


8. O céu que nossos antepassados imaginavam

Antes dos telescópios, satélites, espectroscopia e sondas espaciais, o ser humano tinha uma única grande janela para o Universo:

o céu visível.

Para nós, uma noite estrelada é uma coleção de pontos luminosos separados por distâncias inimagináveis.

Para muitas sociedades antigas, entretanto, o céu não era simplesmente um espaço vazio.

Era uma estrutura.

Um domínio.

Uma ordem.

Um mundo acima do mundo.

É nesse contexto que aparece uma ideia recorrente em diferentes tradições: o firmamento.

Mas é importante fazer uma distinção.

Não devemos afirmar que egípcios, mesopotâmicos e antigos hebreus possuíam exatamente a mesma cosmologia.

Eles não possuíam.

Suas religiões, textos, mitologias e concepções cosmológicas eram diferentes.

O que podemos investigar é a existência de analogias estruturais entre algumas dessas tradições.

E elas são fascinantes.


9. O firmamento na tradição bíblica

No livro do Gênesis aparece a ideia da raqia, tradicionalmente traduzida como "firmamento" ou "expanse".

O texto descreve uma separação entre as águas e apresenta o firmamento como parte da organização do cosmos.

Para leitores modernos, acostumados à astronomia pós-Copérnico, a linguagem pode parecer estranha.

Mas precisamos tomar cuidado.

O texto bíblico pertence a uma cultura antiga e emprega uma linguagem cosmológica própria de seu contexto histórico.

Não é correto simplesmente transformar a cosmologia bíblica em uma caricatura científica.

A questão historicamente interessante é outra:

como os antigos organizavam mentalmente a relação entre Terra, céu, águas, astros e divindade?


10. Nut: o céu no imaginário egípcio

No antigo Egito encontramos uma imagem extraordinária.

A deusa Nut personificava o céu.

Ela podia ser representada como uma figura feminina arqueada sobre a Terra.

O Metropolitan Museum of Art descreve Nut como a deusa alada do céu e registra representações em que ela aparece como a própria abóbada celeste.

Em outras representações, o movimento do Sol através do céu e do mundo subterrâneo fazia parte de um ciclo cósmico de morte, passagem e renascimento.

Um sarcófago egípcio preservado pelo Metropolitan Museum mostra justamente uma representação cosmológica na qual Nut envolve o mundo, enquanto o deus solar realiza sua jornada através do céu e do submundo.

Aqui encontramos algo muito importante.

O céu não era simplesmente "lá em cima".

Ele participava de uma estrutura cosmológica completa.

Terra.

Céu.

Sol.

Estrelas.

Mundo subterrâneo.

Ciclos.

Morte.

Renascimento.


11. Mesopotâmia: céu, Terra e ordem cósmica

Nas antigas civilizações mesopotâmicas também encontramos complexas concepções cosmológicas.

Sumérios, acádios e babilônios desenvolveram sistemas religiosos e astronômicos nos quais o céu desempenhava papel fundamental.

A observação dos astros não era separada da religião da maneira como a astronomia moderna é.

Planetas, estrelas e fenômenos celestes eram observados sistematicamente e associados a uma ordem cósmica.

Isso não significa que os mesopotâmicos possuíssem uma versão primitiva da astronomia moderna.

Mas significa que a observação sistemática do céu e a interpretação religiosa dos fenômenos celestes estavam profundamente interligadas.

E existe aí um ponto fascinante de continuidade histórica:

o céu era simultaneamente objeto de observação e objeto de interpretação.


12. Três civilizações, três cosmologias — e uma pergunta comum

Podemos colocar lado a lado:

A tradição bíblica:
um firmamento separando domínios cósmicos e organizando o mundo.

O Egito antigo:
Nut como personificação do céu, envolvendo a Terra e participando do ciclo solar.

A Mesopotâmia:
uma cosmologia na qual os domínios celestes, terrestres e divinos estavam integrados em uma ordem cósmica.

Não devemos dizer que são a mesma coisa.

Mas podemos perceber uma questão compartilhada:

o que existe acima de nós e como esse "acima" se relaciona com o mundo humano?

Essa pergunta atravessou milênios.


13. E então Copérnico mudou tudo

Durante a Antiguidade e a Idade Média, diferentes modelos cosmológicos foram construídos para explicar os movimentos observados no céu.

Depois veio a revolução científica.

Copérnico deslocou a Terra do centro do modelo planetário.

Kepler demonstrou que as órbitas planetárias não precisavam ser círculos perfeitos.

Galileu utilizou o telescópio para observar fenômenos que desafiaram antigas concepções cosmológicas.

Newton estabeleceu uma teoria matemática da gravitação.

Séculos depois, Einstein modificaria novamente nossa compreensão da gravidade e do espaço-tempo.

A cada etapa, a humanidade descobriu que o Universo era muito maior e mais estranho do que imaginava.


14. E ainda não chegamos ao fim

Hoje sabemos que o Sistema Solar está localizado em uma galáxia gigantesca.

A Via Láctea possui provavelmente entre 100 bilhões e 400 bilhões de estrelas e tem cerca de 100 mil anos-luz de extensão.

Isso transforma completamente nossa escala de comparação.

A Terra possui aproximadamente 12.742 quilômetros de diâmetro.

A Via Láctea possui cerca de 100.000 anos-luz de extensão.

Um ano-luz corresponde à distância percorrida pela luz em um ano: aproximadamente 9,46 trilhões de quilômetros.

De repente, nosso planeta deixa de parecer grande.

Ele se torna uma pequena ilha em uma estrutura de dimensões praticamente incompreensíveis.


15. Somos pequenos — mas não necessariamente insignificantes

É tentador dizer:

"Somos apenas micróbios vivendo em um grão de poeira."

Como metáfora, a frase é poderosa.

Mas ela precisa ser interpretada com cuidado.

Cosmicamente, somos extremamente pequenos.

Mas tamanho físico não determina necessariamente importância.

Uma espécie minúscula pode produzir conhecimento capaz de reconstruir a história de bilhões de anos do Universo.

Um cérebro de aproximadamente alguns quilos consegue calcular a idade das estrelas, medir a expansão cósmica, detectar ondas gravitacionais e construir instrumentos capazes de observar galáxias a bilhões de anos-luz.

Portanto, existe uma contradição fascinante:

somos pequenos em tamanho, mas enormes em capacidade de perguntar.


16. A próxima estrela não está perto

Existe ainda outra ilusão provocada pela aparência do céu.

As estrelas parecem próximas umas das outras.

Não estão.

A estrela mais próxima do Sistema Solar depois do Sol é Proxima Centauri, a aproximadamente 4,25 anos-luz.

Isso significa que, viajando à velocidade da luz, ainda seriam necessários mais de quatro anos para chegar até ela.

Com as velocidades de nossas atuais espaçonaves, a questão torna-se muito mais dramática.

O espaço interestelar não é simplesmente "longe".

Ele é enormemente vazio.

E isso constitui um dos maiores obstáculos físicos para qualquer civilização que pretenda viajar entre as estrelas.


17. E sair da Via Láctea?

Aqui entramos em uma escala ainda mais difícil de imaginar.

O Sistema Solar está aproximadamente a 26 mil anos-luz do centro galáctico.

A Via Láctea possui aproximadamente 100 mil anos-luz de diâmetro.

Portanto, viajar para outra galáxia não significa simplesmente construir uma nave mais rápida.

Significaria enfrentar distâncias de uma ordem completamente diferente.

E isso nos leva a uma das grandes questões da exploração espacial:

será que uma civilização precisa realmente atravessar fisicamente todo esse espaço da maneira que imaginamos hoje?


18. Talvez exista outro caminho — mas isso ainda pertence à especulação

Aqui começa a fronteira entre ciência estabelecida e especulação.

Existem conceitos teóricos discutidos na física, como buracos de minhoca, atalhos geométricos no espaço-tempo e outras soluções matemáticas associadas à relatividade geral.

Mas uma solução matemática não significa automaticamente uma tecnologia possível.

Não temos atualmente demonstração experimental de que uma civilização possa utilizar um "atalho" desse tipo para atravessar a galáxia.

Portanto, precisamos manter a distinção:

astronomia observacional: aquilo que medimos;

física teórica: aquilo que os modelos matemáticos permitem investigar;

engenharia: aquilo que sabemos construir;

especulação: aquilo que imaginamos que talvez um dia seja possível.

Misturar essas quatro categorias produz ficção.

Separá-las permite fazer perguntas realmente interessantes.


19. E então aparece Andrômeda

Quando finalmente levantamos os olhos para fora da Via Láctea, encontramos outra escala.

A galáxia de Andrômeda, M31, está aproximadamente a 2,5 milhões de anos-luz de nós.

Ela é a galáxia espiral de grande porte mais próxima da Via Láctea.

A luz que vemos hoje de Andrômeda começou sua viagem quando nossa espécie sequer existia em sua forma atual.

Estamos observando uma imagem de aproximadamente 2,5 milhões de anos atrás.

Não estamos simplesmente olhando para longe.

Estamos olhando para o passado.


20. A galáxia vizinha é uma máquina do tempo natural

Esse é talvez um dos conceitos mais extraordinários da astronomia.

Quando olhamos para o Sol, vemos o Sol de aproximadamente 8 minutos atrás.

Quando observamos Proxima Centauri, vemos como ela era aproximadamente 4,25 anos atrás.

Quando observamos Andrômeda, vemos como ela era aproximadamente 2,5 milhões de anos atrás.

Quanto mais longe olhamos, mais profundamente penetramos no passado.

O céu noturno é, portanto, uma espécie de arquivo histórico luminoso.

Cada estrela é uma mensagem enviada através do espaço.


21. A antiga humanidade também olhava para esse mesmo céu

E aqui retornamos ao ponto de partida.

Antes de compreender a velocidade da luz, a relatividade, as galáxias e a expansão do Universo, os seres humanos já olhavam para o mesmo céu.

Os egípcios olharam.

Os sumérios olharam.

Os babilônios olharam.

Os hebreus olharam.

Os gregos olharam.

Os povos indígenas das Américas olharam.

As civilizações da Índia olharam.

E cada sociedade tentou transformar aquele espetáculo em uma explicação.

Algumas imaginaram deuses.

Outras imaginaram águas celestes.

Outras imaginaram uma abóbada.

Outras imaginaram montanhas cósmicas.

Outras imaginaram ciclos.

Outras desenvolveram modelos matemáticos.

A ciência moderna surgiu quando a observação começou progressivamente a substituir explicações que não podiam ser testadas.

Mas a pergunta original permaneceu.

O que estamos vendo?


22. O firmamento desapareceu — mas o mistério não

A ciência moderna eliminou a necessidade de imaginar uma abóbada sólida sobre a Terra.

Descobrimos que não existe um teto cósmico separando as águas superiores do mundo humano.

Descobrimos que as estrelas são outros sóis.

Descobrimos que o Sol é apenas uma estrela entre centenas de bilhões.

Descobrimos que a Via Láctea é apenas uma galáxia entre uma quantidade gigantesca de outras.

E descobrimos que o Universo observável é muito maior do que qualquer cosmologia antiga poderia imaginar.

Mas há uma ironia.

Quanto mais descobrimos, maior parece ficar o mistério.


23. A dança da Terra é apenas o primeiro movimento

A Terra gira.

A Terra orbita o Sol.

O eixo terrestre oscila.

O eixo precessa.

O Sol percorre sua órbita galáctica.

A Via Láctea interage gravitacionalmente com outras galáxias.

Andrômeda está a 2,5 milhões de anos-luz.

E tudo isso acontece enquanto nós permanecemos sentados, aparentemente imóveis, lendo algumas páginas de um livro.

Talvez seja essa a verdadeira "louca dança celeste".

Não existe um único movimento.

Existem movimentos sobrepostos em escalas diferentes.

Um dia.

Um ano.

Dezenas de milhares de anos.

Centenas de milhões de anos.

Bilhões de anos.


24. A velocidade absoluta talvez seja uma ilusão

Perguntar "a que velocidade estamos viajando?" parece simples.

Mas a resposta depende do referencial.

Em relação à superfície terrestre, estamos acompanhando a rotação.

Em relação ao Sol, estamos orbitando.

Em relação ao centro galáctico, o Sistema Solar está em movimento a aproximadamente 220 km/s.

Não existe uma cadeira absolutamente parada no Universo.

Não existe uma plataforma cósmica onde possamos estacionar e observar tudo passar.

Nós fazemos parte do movimento.

Somos parte do sistema que estamos tentando compreender.


25. A antiga pergunta permanece

Talvez seja por isso que a antiga ideia do firmamento seja tão interessante.

Não porque a antiga cosmologia estivesse cientificamente correta.

Mas porque ela revela algo profundo sobre a mente humana.

O ser humano sempre tentou transformar o céu em uma estrutura compreensível.

O firmamento bíblico.

Nut no Egito.

As estruturas celestes da Mesopotâmia.

As esferas celestes dos gregos.

A revolução heliocêntrica.

A gravitação de Newton.

O espaço-tempo de Einstein.

A cosmologia moderna.

São capítulos diferentes de uma mesma história intelectual:

a tentativa de compreender onde estamos.


26. De um firmamento fechado a um Universo quase inimaginável

Durante milhares de anos, o céu parecia uma estrutura relativamente próxima.

Hoje sabemos que a realidade é radicalmente diferente.

Não existe uma parede celeste imediatamente acima de nós.

Existe espaço.

Um espaço quase vazio, atravessado por radiação, campos, partículas, estrelas, planetas, nebulosas, galáxias e estruturas cósmicas.

E esse espaço possui escalas que desafiam nossa imaginação.

A Via Láctea contém centenas de bilhões de estrelas.

Andrômeda está a 2,5 milhões de anos-luz.

E o Universo contém uma quantidade colossal de outras galáxias.

Ainda assim, toda essa imensidão é observada por criaturas que vivem sobre um pequeno planeta rochoso.


27. O paradoxo da insignificância

Talvez exista uma conclusão mais interessante do que simplesmente afirmar que somos insignificantes.

Somos insignificantes em tamanho.

Mas não sabemos ainda qual é nossa importância no contexto da história cósmica.

Não sabemos se a vida surgiu muitas vezes ou apenas uma vez.

Não sabemos quantas civilizações tecnológicas existem.

Não sabemos se a inteligência é comum ou extraordinariamente rara.

Não sabemos se existe vida complexa em outros mundos.

Não sabemos se algum dia conseguiremos atravessar distâncias interestelares.

E não sabemos se existem formas de viajar pelo espaço-tempo que ainda não compreendemos.

A astronomia nos ensinou a dimensão da nossa pequenez.

Mas também nos deu algo extraordinário:

a capacidade de reconhecer essa pequenez.


28. A música dos planetas

Talvez por isso o título "A Música dos Planetas" seja tão apropriado como metáfora.

Não estamos falando necessariamente de música no sentido literal.

Estamos falando de periodicidade.

Ritmo.

Ciclos.

Ressonâncias.

Órbitas.

Rotações.

Precessões.

Estações.

Nascimento e desaparecimento de estrelas.

Movimento das galáxias.

A mecânica celeste possui uma espécie de ritmo matemático.

Os antigos percebiam parte desse ritmo através da observação.

A ciência moderna transformou esse ritmo em equações.

Mas a sensação fundamental permanece surpreendentemente parecida:

o céu está em movimento.


29. A Terra: um pequeno planeta em uma dança gigantesca

Nós não estamos parados.

Estamos girando.

Estamos orbitando.

Estamos precessionando.

Estamos viajando com o Sol.

Estamos atravessando a Via Láctea.

E fazemos tudo isso sem sentir praticamente nada.

O Universo não precisa parecer espetacular para ser espetacular.

A realidade cotidiana já é extraordinária.

Basta compreendê-la.


30. Epílogo — talvez o verdadeiro mistério seja estarmos aqui

Graham Hancock chamou atenção para os grandes ciclos astronômicos e para a importância que esses fenômenos poderiam ter tido nas antigas civilizações.

Podemos ir além de suas interpretações e formular uma pergunta mais simples.

Como foi possível que uma espécie surgida em um pequeno planeta começasse, primeiro a observar as estrelas, depois a medir seus movimentos, posteriormente a descobrir que a Terra gira, que orbita uma estrela, que essa estrela percorre uma galáxia e, finalmente, que a própria galáxia é apenas uma entre incontáveis estruturas cósmicas?

Durante milhares de anos, nossos antepassados olharam para o céu e imaginaram um firmamento.

Hoje olhamos para o mesmo céu e enxergamos galáxias.

Mas talvez exista uma continuidade profunda entre essas duas experiências.

Em ambos os casos, estamos diante da mesma pergunta:

Onde estamos?

A diferença é que hoje sabemos que a resposta é muito mais estranha do que qualquer antigo mapa do firmamento poderia sugerir.

A Terra é pequena.

A humanidade é recente.

O Sistema Solar é apenas uma pequena região da Via Láctea.

A Via Láctea é apenas uma galáxia.

Andrômeda está a 2,5 milhões de anos-luz.

E, enquanto tudo isso acontece, nós continuamos viajando.

A mais de mil quilômetros por hora devido à rotação terrestre.

A aproximadamente 107 mil quilômetros por hora em nossa órbita ao redor do Sol.

A cerca de 792 mil quilômetros por hora acompanhando o movimento do Sistema Solar em torno do centro galáctico.

E ainda existem movimentos maiores.

Talvez seja essa a verdadeira louca dança celeste.

Não somos observadores externos do Universo.

Estamos dentro dele.

Somos matéria que se tornou consciente do próprio movimento.

Somos habitantes de um planeta que gira.

Passageiros de uma estrela em movimento.

Moradores temporários de uma galáxia.

E, olhando para o firmamento, continuamos fazendo a mesma coisa que nossos ancestrais fizeram há milhares de anos:

tentando descobrir o que existe além do céu.


Nota sobre fontes e atualização científica

Este ensaio parte da discussão apresentada por Graham Hancock em As Digitais dos Deuses, mas os valores astronômicos e as explicações científicas foram atualizados e confrontados com fontes modernas. A NASA informa aproximadamente 1.675 km/h para a velocidade da superfície terrestre no equador e cerca de 107.000 km/h para a velocidade orbital da Terra.

A obliquidade terrestre atualmente é de aproximadamente 23,4°, variando em um ciclo de cerca de 41 mil anos entre aproximadamente 22,1° e 24,5°.

A Via Láctea contém provavelmente entre 100 e 400 bilhões de estrelas e possui aproximadamente 100 mil anos-luz de extensão.

Andrômeda está a aproximadamente 2,5 milhões de anos-luz e é a galáxia espiral de grande porte mais próxima da Via Láctea.

O Sistema Solar, por sua vez, orbita o centro galáctico a aproximadamente 220 km/s.

Bibliografia e fontes essenciais

HANCOCK, Graham. Fingerprints of the Gods: The Evidence of the Earth’s Lost Civilization. New York: Crown Publishers, 1995.

NASA. Milankovitch (Orbital) Cycles and Their Role in Earth's Climate. NASA Science.

NASA. Our Milky Way Galaxy: How Big is Space? NASA Science.

NASA. Andromeda Galaxy. NASA.

NASA. Messier 31 (The Andromeda Galaxy). Hubble / NASA Science.

ESA/Gaia. Acceleration of the Solar System. European Space Agency.

THE METROPOLITAN MUSEUM OF ART. Coleções e materiais de referência sobre Nut, cosmologia e iconografia do antigo Egito.



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