Existem Outras Humanidades? Mundos Superiores, Mundos Inferiores e Civilizações Além da Terra — Uma Investigação nas Mitologias, Cosmologias e Religiões dos Cinco Continentes

 





Existem Outras Humanidades? Mundos Superiores, Mundos Inferiores e Civilizações Além da Terra — Uma Investigação nas Mitologias, Cosmologias e Religiões dos Cinco Continentes

Existem Outras Humanidades na Galáxia ou em Outras Galáxias?

O que dizem as mitologias e religiões dos cinco continentes?

Por R.V. Garcia — Revista & Escolas de Mistérios

Introdução — Uma pergunta muito mais antiga do que a astronomia moderna

Existem outras humanidades no Universo?

A pergunta parece moderna. Quando falamos em outras civilizações, outros planetas habitados, inteligência extraterrestre ou possíveis sociedades existentes em outros sistemas estelares, imediatamente pensamos na astronomia contemporânea, nos exoplanetas, na astrobiologia e na busca científica por vida fora da Terra.

Entretanto, a pergunta é muito mais antiga.

Muito antes de existirem telescópios, sondas espaciais e radiotelescópios, diferentes povos imaginaram um Universo muito maior do que o mundo conhecido.

Céus sobrepostos, mundos superiores e inferiores, regiões subterrâneas, paraísos, abismos, moradas dos deuses, terras invisíveis, ciclos sucessivos de criação e destruição e seres vivendo além do domínio humano aparecem em diferentes tradições religiosas e cosmológicas.

Mas existe uma diferença fundamental que precisa ser respeitada:

falar em outros mundos não é necessariamente falar em outras humanidades.

Uma divindade vivendo no céu não é automaticamente uma civilização extraterrestre.

Um mundo dos mortos não é necessariamente outro planeta.

Um reino subterrâneo não equivale a uma dimensão paralela.

E uma cosmologia formada por várias terras não significa necessariamente que seus autores imaginassem planetas semelhantes à Terra.

Por isso, esta investigação parte de uma pergunta mais precisa:

Quais tradições antigas realmente imaginaram outros mundos, outros domínios habitados ou outras formas de humanidade — e quais interpretações modernas foram acrescentadas posteriormente?

Para responder a essa pergunta, precisamos atravessar diferentes continentes e períodos históricos: Índia, Mesopotâmia, Egito, Levante, mundo judaico e cabalístico, Europa, África e Américas pré-colombianas.

E precisamos começar por uma das tradições que mais frequentemente aparece nas discussões modernas sobre pluralidade de mundos.


1. A tradição védica e purânica: talvez o caso mais impressionante

Entre as antigas cosmologias religiosas, a tradição indiana apresenta uma das concepções mais desenvolvidas de um Universo povoado por diferentes categorias de seres e organizado em múltiplos níveis de existência.

A cosmologia hindu desenvolveu sistemas envolvendo lokas, mundos ou regiões de existência, além de ciclos gigantescos de criação, preservação e destruição.

Os sistemas cosmológicos posteriores também trabalham com diferentes níveis superiores e inferiores, associados a deuses, seres celestiais, ancestrais, espíritos, nāgas, asuras, yakṣas, gandharvas, apsarases e diversas outras categorias de seres.

A literatura especializada descreve esses seres como habitantes de diferentes reinos: alguns terrestres, outros subterrâneos e outros associados às moradas celestiais.

Aqui aparece algo particularmente importante para nossa investigação.

A cosmologia indiana não apresenta apenas um “céu” abstrato.

Ela desenvolve uma verdadeira geografia cósmica.

Existem diferentes lokas, diferentes condições de existência e diferentes classes de seres.

Além disso, o Universo não é necessariamente entendido como uma criação única e definitiva.

Os kalpas representam enormes ciclos cósmicos de criação, destruição e recriação, enquanto os manvantaras estão associados a diferentes Manus, figuras ligadas à organização e às genealogias da humanidade.

Isso produz uma ideia extraordinariamente diferente da concepção moderna de um único mundo criado uma única vez.

Mas isso significa “extraterrestres”?

Não.

Essa conclusão seria moderna demais.

Os textos indianos não estavam utilizando o conceito contemporâneo de planeta, exoplaneta ou civilização extraterrestre.

O que encontramos é algo mais amplo:

um Universo com múltiplas regiões de existência e múltiplas classes de seres.

A aproximação com a ideia moderna de “outras humanidades” só pode ser feita como comparação filosófica, não como tradução literal.


2. Os mundos superiores e inferiores da literatura indiana

A tradição posterior descreve mundos superiores e inferiores de maneiras extremamente elaboradas.

Os devas, gandharvas, apsarases, nāgas, yakṣas, asuras e outros seres não pertencem necessariamente à categoria humana terrestre.

Alguns possuem características antropomórficas; outros são híbridos ou sobrenaturais; outros ainda são associados a poderes cósmicos.

A literatura acadêmica ressalta justamente essa multiplicidade de classes de seres e sua associação com diferentes reinos terrestres, subterrâneos e celestiais.

Esse ponto é fundamental.

Se utilizarmos a palavra “humanidade” em sentido estrito, não podemos simplesmente chamar todos esses seres de outras humanidades.

Mas se utilizarmos “humanidade” em sentido mais amplo, como seres inteligentes organizados em sociedades e existentes além do mundo humano comum, então a literatura indiana oferece um dos mais antigos e complexos exemplos conhecidos.

Essa diferença terminológica será importante ao longo de toda esta investigação.


3. A Mesopotâmia: céu, Terra, submundo e deuses

Quando chegamos à Suméria, Acádia e Babilônia, encontramos novamente uma cosmologia profundamente estruturada.

Textos sumérios e acádios apresentam a separação entre céu e Terra, o mundo dos deuses, a Terra humana e o mundo inferior.

A cosmologia mesopotâmica pode ser reconstruída a partir de mitos, hinos, textos de adivinhação e documentos astronômicos. A separação entre céu e Terra é um elemento recorrente dessas concepções.

No entanto, há uma diferença importante em relação à Índia.

Os textos mesopotâmicos não apresentam, de maneira clara, uma coleção de planetas habitados por diferentes humanidades.

O Universo é povoado por deuses, espíritos e seres sobrenaturais, mas isso não equivale a uma pluralidade de civilizações humanas extraterrestres.


4. O que realmente aconteceu com a humanidade na cosmologia mesopotâmica?

Os mitos mesopotâmicos apresentam algo muito interessante sobre a origem humana.

Em diferentes tradições, a humanidade é criada para desempenhar funções relacionadas à manutenção da ordem e ao serviço dos deuses.

No material sumério e babilônico, aparecem diferentes versões sobre a criação dos seres humanos.

No Enūma Eliš, Marduk cria a humanidade utilizando o sangue de Qingu, enquanto outras tradições apresentam a criação humana a partir de argila e elementos associados aos deuses.

No mito de Atraḫasīs, os seres humanos são criados para aliviar o trabalho dos deuses; posteriormente, o excesso de ruído produzido pela humanidade contribui para a decisão divina de destruí-la por meio do dilúvio.

Essa cosmologia é extraordinariamente rica.

Mas novamente:

não encontramos aqui uma declaração equivalente a “existem outras humanidades em outros planetas”.

Encontramos deuses, seres sobrenaturais, mundos celestes e inferiores e uma humanidade terrestre criada pelos deuses.

Isso é diferente.


5. E os Anunnaki?

É impossível falar sobre esse assunto sem mencionar os Anunnaki.

Na cultura popular contemporânea, os Anunnaki frequentemente são apresentados como uma suposta civilização extraterrestre que teria chegado à Terra.

Mas os textos cuneiformes não apresentam os Anunnaki dessa maneira.

Eles pertencem ao universo dos deuses mesopotâmicos.

O problema surgiu principalmente quando interpretações modernas transformaram personagens divinos de textos mitológicos em visitantes extraterrestres.

Portanto, devemos separar:

Anunnaki na literatura mesopotâmica

de

Anunnaki como extraterrestres na literatura moderna de pseudoarqueologia.

São duas coisas diferentes.

A documentação acadêmica sobre a religião mesopotâmica descreve os deuses dentro de sua própria cosmologia religiosa, não como uma raça extraterrestre oriunda de outro sistema planetário.


6. O Egito: o céu como outro mundo?

A cosmologia egípcia também apresenta uma estrutura extraordinariamente complexa.

O céu é associado à deusa Nut.

A Terra é associada a Geb.

O Sol atravessa diariamente diferentes regiões do cosmos.

E depois da morte, o indivíduo entra em uma realidade que não corresponde simplesmente ao mundo dos vivos.

Um dos conceitos fundamentais é o Duat.

A pesquisa egiptológica contemporânea mostra que o Duat não possuía uma única definição fixa. Ao longo de milhares de anos, diferentes textos funerários desenvolveram diferentes representações dessa realidade.

O Duat podia ser associado ao céu, ao mundo inferior e a uma região liminar entre a Terra e o horizonte.

Aqui encontramos novamente um “outro mundo”.

Mas é preciso perguntar:

é outro planeta habitado por uma humanidade?

Não há evidência textual suficiente para afirmar isso.

O Duat pertence fundamentalmente à cosmologia funerária e à existência pós-morte.

Portanto, mais uma vez:

outro mundo não significa necessariamente outro planeta.


7. O mundo egípcio dos mortos

A religião egípcia descreve uma realidade além da morte na qual o indivíduo pode encontrar divindades, espíritos e diferentes entidades.

O morto precisava atravessar regiões, enfrentar perigos, conhecer fórmulas e alcançar uma existência transformada.

Estudos modernos sobre os textos funerários egípcios demonstram justamente a variedade de concepções sobre a localização e natureza do além.

Portanto, o Egito oferece uma cosmologia de múltiplos domínios, mas não constitui uma evidência direta de que os antigos egípcios acreditassem em outras civilizações humanas espalhadas pela galáxia.


8. O mundo hebraico e judaico

É aqui que a questão se torna ainda mais interessante.

A tradição judaica possui uma cosmologia extremamente complexa envolvendo céus, anjos, mundos espirituais, regiões inferiores e diferentes concepções da criação.

E é justamente aqui que aparece Arqa.

Mas precisamos corrigir uma confusão muito comum.

Arqa não deve ser automaticamente atribuída ao 1 Enoque como se fosse um planeta habitado por outra humanidade.

A tradição das sete terras aparece de maneira importante na literatura rabínica e, posteriormente, na literatura mística judaica.

Em tradições associadas ao Zohar, aparecem sete terras:

Eretz, Adamah, Gai, Neshiyyah, Tsiyyah, Arqa e Tevel.

O Zohar apresenta explicitamente a ideia de sete terras correspondentes aos sete firmamentos.

E uma tradição midráshica posterior descreve Arqa como uma das terras inferiores, associando-a a Geena e às almas dos ímpios.

Portanto, Arqa é real dentro da tradição cosmológica judaica.

Mas isso não significa que seja um “planeta extraterrestre”.


9. Arqa e os descendentes de Caim

A tradição cabalística acrescenta outro elemento extraordinário.

No Zohar, Arqa aparece relacionada a uma das terras inferiores e aos descendentes de Caim.

Uma tradução acadêmica do Zohar preservada na edição Pritzker registra justamente essa interpretação de Arqa como uma das sete terras inferiores.

Isso torna Arqa muito mais interessante do que uma simples “palavra misteriosa”.

Mas novamente precisamos resistir à tentação de transformar uma cosmologia mística em astronomia moderna.

Arqa pertence ao universo cosmológico da literatura judaica mística.

Não temos base suficiente para dizer que os autores estavam descrevendo um exoplaneta.


10. E o Livro de Enoque?

Aqui chegamos ao ponto que motivou toda esta investigação.

O 1 Enoque apresenta viagens celestes, regiões da criação, anjos, estrelas, abismos, montanhas, rios, lugares dos mortos e diferentes domínios cósmicos.

É um dos documentos mais fascinantes da literatura judaica do período do Segundo Templo.

Mas uma coisa precisa ficar absolutamente clara:

1 Enoque não apresenta explicitamente uma doutrina de várias humanidades extraterrestres.

O texto apresenta uma cosmologia complexa.

Isso é diferente.

Portanto, quando alguém afirma:

“O Livro de Enoque prova que os antigos judeus conheciam outras humanidades em outros mundos”,

a pergunta correta é:

Onde está o texto?

Qual capítulo?

Qual manuscrito?

Qual tradução?

Qual termo hebraico ou aramaico?

E qual é a interpretação acadêmica dessa passagem?

Sem essas respostas, estamos diante de uma interpretação moderna e não de uma conclusão textual.


11. A Cabala vai além?

A Cabala apresenta uma cosmologia ainda mais complexa.

Além das sete terras, aparecem os famosos quatro mundos:

Atzilut — Emanação

Beriah — Criação

Yetzirah — Formação

Assiah — Ação

A literatura cabalística também desenvolveu relações entre cosmologia, sefirot, mundos espirituais e estruturas celestes. Estudos sobre a Cabala clássica mostram, inclusive, como certos autores relacionaram estruturas astronômicas, sefirot e os diferentes níveis da realidade.

Mais uma vez, entretanto:

esses “mundos” não devem ser traduzidos automaticamente como planetas.

São categorias cosmológicas, espirituais e metafísicas.


12. Europa: gregos, pitagóricos e a pluralidade dos mundos

É no mundo filosófico grego que encontramos uma transformação decisiva.

Aqui surge uma discussão que se aproxima muito mais da nossa pergunta moderna:

poderiam existir outros mundos materiais semelhantes ao nosso?

Filósofos da Antiguidade discutiram essa possibilidade.

O atomismo de Epicuro e Lucrécio, por exemplo, está associado à ideia de uma pluralidade de mundos.

Pitagóricos e outros filósofos também desenvolveram concepções cosmológicas que ampliaram a discussão sobre a estrutura do Universo.

Séculos depois, essa tradição seria retomada por pensadores como Giordano Bruno.

E é justamente essa longa história que Camille Flammarion estudou em sua obra La Pluralité des Mondes Habités.

Flammarion percorreu historicamente diferentes autores e tradições, desde a Antiguidade até a ciência moderna, mostrando como a questão dos mundos habitados atravessou a história do pensamento ocidental.

No século XIX, Flammarion transformaria a questão em uma verdadeira defesa filosófico-astronômica da pluralidade dos mundos.

Sua obra de 1864 discutia explicitamente a possibilidade de diferentes mundos habitados e de uma humanidade cósmica.


13. Flammarion e a humanidade cósmica

Aqui finalmente encontramos algo muito próximo da pergunta que estamos fazendo.

Flammarion não estava simplesmente dizendo:

“Existem outros planetas.”

Ele discutia uma ideia muito mais abrangente:

a humanidade poderia fazer parte de uma realidade cósmica muito maior.

Em sua concepção, as humanidades de diferentes mundos poderiam fazer parte de uma humanidade universal.

Essa ideia aparece explicitamente no livro quando ele discute a relação entre a humanidade terrestre e as “humanidades dos outros mundos”.

É importante notar a diferença histórica:

Flammarion vive no século XIX.

Ele não está reproduzindo literalmente uma cosmologia védica, suméria ou egípcia.

Ele está participando de uma tradição moderna de pluralidade dos mundos habitados, influenciada pela astronomia, filosofia e história das ideias.


14. África: mundos dos vivos, mortos, deuses e ancestrais

Quando chegamos ao continente africano, precisamos evitar um erro semelhante.

Não existe uma única “mitologia africana”.

Existem centenas de tradições, povos e sistemas religiosos diferentes.

Entre as cosmologias africanas encontramos concepções envolvendo:

  • mundo dos vivos;
  • mundo dos ancestrais;
  • divindades;
  • espíritos;
  • forças cósmicas;
  • regiões invisíveis;
  • mundos relacionados à criação;
  • comunicação entre vivos e mortos.

Estudos comparativos sobre religiões africanas destacam justamente a presença de deuses, ancestrais, espíritos e forças sobrenaturais integrados às diferentes cosmologias.


15. A cosmologia iorubá

Entre os iorubás, por exemplo, encontramos uma distinção importante entre o mundo humano e o domínio das divindades.

A literatura sobre cosmologia iorubá descreve uma relação entre o mundo humano e o mundo dos deuses, enquanto os ancestrais ocupam uma posição fundamental nessa estrutura.

Isso é extremamente importante para nossa pergunta.

Existe outro mundo?

Sim, no sentido cosmológico e espiritual.

Existem outros seres?

Sim.

Existem divindades, ancestrais e espíritos?

Sim.

Mas existe evidência de que os antigos iorubás estivessem descrevendo outras civilizações humanas em outros planetas?

Não temos evidência suficiente para afirmar isso.


16. Os Dogon e a questão de Sirius

Nenhuma investigação moderna sobre cosmologias africanas poderia ignorar os Dogon.

A tradição popular ufológica transformou determinadas narrativas dogon sobre Sirius e os Nommo em suposta evidência de conhecimento astronômico extraterrestre.

Mas essa questão é extremamente controversa.

As interpretações populares frequentemente extrapolam muito além das evidências etnográficas disponíveis.

Por isso, Dogon e Sirius precisam ser tratados como um caso de estudo sobre como uma cosmologia tradicional pode ser reinterpretada pela cultura moderna, e não automaticamente como prova de contato extraterrestre.

Esse cuidado é essencial.


17. As Américas pré-colombianas

Nas Américas encontramos novamente cosmologias extraordinariamente sofisticadas.

Maias, astecas, povos andinos e diversas outras sociedades desenvolveram sistemas religiosos nos quais céu, Terra, submundo, ciclos temporais, estrelas, planetas, deuses e criação estavam profundamente relacionados.

No mundo mesoamericano, a astronomia fazia parte da própria organização cosmológica.

Pesquisas arqueológicas mostram que paisagens, cidades e construções eram frequentemente organizadas segundo concepções envolvendo os fenômenos celestes.

Mas aqui novamente surge a pergunta:

isso significa outras humanidades?

Nem sempre.


18. Os Maias: o Universo como estrutura viva

A cosmologia maia apresentava uma estrutura complexa envolvendo céu, Terra, regiões inferiores e diferentes dimensões cosmológicas.

Estudos arqueológicos e iconográficos mostram que os maias concebiam o cosmos de forma estruturada, frequentemente organizada por direções, níveis e relações entre céu, Terra e mundo inferior.

A própria Via Láctea aparece em discussões acadêmicas contemporâneas sobre a cosmologia maia e os mitos de criação.

Uma hipótese arqueoastronômica recente propõe que determinados conjuntos arquitetônicos maias estavam relacionados à Via Láctea e a narrativas de criação.

Isso é fascinante.

Mas novamente:

a Via Láctea era uma realidade cosmológica e religiosa; não temos aqui uma declaração equivalente à existência de civilizações humanas extraterrestres.


19. O Popol Vuh e os mundos anteriores

O Popol Vuh, preservado em língua quiché, apresenta uma narrativa complexa da criação.

Os deuses procuram estabelecer um mundo capaz de produzir seres capazes de falar, reconhecer e venerar seus criadores.

Existem tentativas anteriores de criação.

Seres são produzidos e posteriormente destruídos.

O mundo é transformado.

Esse conceito é extremamente importante porque demonstra que certas cosmologias americanas imaginavam múltiplas etapas ou estados da criação.

Mas novamente:

múltiplas criações não são necessariamente múltiplas civilizações extraterrestres.


20. Os astecas e os Cinco Sóis

A tradição mexica apresenta uma das concepções mais conhecidas de ciclos sucessivos de criação.

O mundo atual pertence a uma era cósmica específica, enquanto outros mundos ou eras existiram anteriormente.

A ideia dos Cinco Sóis apresenta uma sucessão de diferentes eras cósmicas destruídas e recriadas.

Essa concepção aproxima-se de uma pergunta muito interessante:

E se a humanidade atual não for a primeira humanidade?

Mas novamente precisamos ter cuidado.

As eras anteriores não correspondem necessariamente a planetas diferentes.

São principalmente ordens cósmicas ou eras de existência.

Pesquisas recentes sobre os “outros mundos” nahuas também mostram como as categorias de Mictlan, Tlalocan e outros domínios precisam ser entendidas dentro de uma cosmologia própria, e não simplesmente como um sistema europeu de vários andares do Universo.


21. Incas e Andes

Entre os povos andinos, encontramos também uma cosmologia na qual céu, Terra, montanhas, ancestrais, divindades e ciclos naturais estavam profundamente relacionados.

A cosmologia inca não pode ser reduzida a uma simples astronomia religiosa.

O próprio ambiente natural era interpretado dentro de uma estrutura cosmológica.

Estudos comparativos sobre cosmologias inca e asteca mostram como fenômenos celestes e paisagens naturais eram integrados às concepções religiosas e à organização ritual.

Mas, novamente, não devemos converter automaticamente deuses e mundos espirituais em extraterrestres.


22. Olmecas: um cuidado necessário

No caso olmeca, o problema é ainda maior.

Temos evidências arqueológicas, iconográficas e materiais, mas não possuímos uma literatura olmeca equivalente ao Popol Vuh que permita reconstruir detalhadamente uma cosmologia completa.

Portanto, afirmações como:

“Os olmecas acreditavam em extraterrestres de outras galáxias”

não possuem base documental comparável às fontes que temos para outras culturas.

É necessário distinguir evidência arqueológica de interpretação moderna.


23. E no restante do continente americano?

Também encontramos entre diferentes povos indígenas das Américas concepções envolvendo:

  • mundos celestes;
  • mundos subterrâneos;
  • ancestrais;
  • seres que descem do céu;
  • transformações cósmicas;
  • ciclos de criação;
  • animais sobrenaturais;
  • estrelas personificadas;
  • viagens entre diferentes domínios.

Mas cada tradição precisa ser estudada individualmente.

Não existe uma única “religião indígena americana”.

E não devemos transformar todas essas cosmologias em versões antigas da hipótese extraterrestre.


24. Então onde realmente aparecem “outras humanidades”?

Depois de atravessar tantos sistemas cosmológicos, podemos começar a separar as categorias.

Categoria 1 — Outros mundos espirituais

Egito, judaísmo, cristianismo antigo, tradições africanas e diversas cosmologias indígenas.

Aqui encontramos outros domínios da existência, mas não necessariamente outros planetas.

Categoria 2 — Outros mundos cósmicos

Índia, algumas tradições filosóficas gregas e determinadas cosmologias posteriores.

Aqui encontramos concepções mais próximas de uma pluralidade cosmológica.

Categoria 3 — Outros seres inteligentes

Índia, Mesopotâmia, Egito, judaísmo, África e Mesoamérica.

Aqui encontramos deuses, anjos, espíritos, ancestrais e outras categorias de seres.

Categoria 4 — Outras humanidades

Aqui a lista fica muito menor.

É necessário encontrar uma tradição que descreva seres semelhantes à humanidade vivendo em outros mundos ou em outras realidades.

E é nesse ponto que a Índia se torna particularmente importante.


25. Índia: o caso que mais se aproxima da pergunta moderna

A literatura indiana apresenta múltiplas categorias de seres, diferentes mundos e ciclos cosmológicos.

Ela não descreve simplesmente um céu e um inferno.

Existe uma estrutura muito mais complexa.

Diferentes seres podem nascer ou existir em diferentes condições cósmicas.

Alguns mundos são associados aos deuses; outros, a seres espirituais; outros, a criaturas subterrâneas.

Além disso, a existência é dinâmica: seres podem renascer em diferentes condições.

Essa estrutura torna a cosmologia indiana uma das tradições antigas mais próximas da ideia filosófica de pluralidade de mundos habitados por diferentes formas de inteligência.

Mas ainda assim não devemos dizer:

“os hindus antigos conheciam extraterrestres”.

Essa seria uma tradução moderna de uma cosmologia religiosa antiga.


26. A tradição grega: quando a questão começa a ficar literalmente material

Com alguns filósofos gregos, a pergunta muda de natureza.

Não estamos mais falando somente de deuses, espíritos ou mundos pós-morte.

Começa a surgir a hipótese de múltiplos mundos materiais.

O atomismo tornou possível imaginar uma realidade infinitamente extensa na qual diferentes combinações de matéria poderiam produzir diferentes mundos.

Séculos depois, essa ideia reapareceria com força no Renascimento e na filosofia natural.

E então chegamos a Giordano Bruno.


27. Giordano Bruno e a infinitude do Universo

Bruno levou a ideia muito mais longe.

Se as estrelas fossem outros sóis, poderia haver outros mundos.

E se existissem outros mundos, seria possível questionar se a Terra ocupa uma posição absolutamente única no Universo.

A partir daí, a pergunta “existem outros mundos?” começa a adquirir uma estrutura que reconhecemos como muito mais moderna.

Mas Bruno ainda estava dentro de uma filosofia profundamente metafísica.

Não se tratava de astrobiologia.


28. Flammarion: da filosofia à humanidade cósmica

No século XIX, Camille Flammarion recuperou toda essa tradição e a apresentou dentro do contexto da astronomia moderna.

Sua obra La Pluralité des Mondes Habités, publicada originalmente em 1862 e em edição ampliada em 1864, tornou-se uma referência importante na história cultural da ideia de mundos habitados.

Flammarion não estava simplesmente dizendo que poderia existir vida microscópica.

Ele imaginava uma verdadeira humanidade cósmica.

Sua obra chega a discutir explicitamente a relação entre a humanidade terrestre e as humanidades de outros mundos.

Aqui temos, finalmente, uma formulação praticamente idêntica à nossa pergunta:

Somos a única humanidade do Universo?


29. E as tradições esotéricas?

Nos séculos XIX e XX, diferentes correntes esotéricas, espiritualistas e ocultistas passaram a combinar:

  • cosmologias antigas;
  • pluralidade dos mundos;
  • evolução espiritual;
  • mundos invisíveis;
  • hierarquias de seres;
  • reencarnação;
  • astronomia;
  • filosofia.

Nesse ambiente, a ideia de outras humanidades ganhou enorme força.

O conceito deixa de significar apenas “outros povos na Terra” e passa a significar:

seres inteligentes vivendo em outros mundos e participando de uma evolução cósmica.

Essa ideia será posteriormente incorporada também à literatura espiritualista e a diferentes correntes esotéricas.


30. O século XX: a transformação em hipótese extraterrestre

No século XX, ocorre outra mudança.

A palavra “mundo” começa a ser substituída por:

planeta.

“Seres celestiais” começam a ser reinterpretados como:

extraterrestres.

“Mensageiros dos deuses” passam a ser associados a:

visitantes de outros sistemas estelares.

E antigos mitos passam a ser reinterpretados através da tecnologia moderna.

É aqui que nasce grande parte da chamada hipótese dos antigos astronautas.

Mas essa interpretação precisa ser separada das fontes antigas.


31. A ciência moderna mudou completamente a pergunta

Hoje sabemos algo que os antigos não poderiam saber.

Existem bilhões de estrelas na Via Láctea.

E sabemos que planetas orbitam outras estrelas.

A astronomia moderna descobriu uma enorme diversidade de exoplanetas.

A revisão publicada em 2024 no Annual Review of Astronomy and Astrophysics observa que o interesse humano pela pluralidade dos mundos possui mais de dois milênios de história, mas destaca que a astronomia contemporânea transformou essa antiga questão filosófica em uma investigação científica baseada na descoberta de sistemas planetários fora do Sistema Solar.

Isso muda radicalmente o problema.

Os antigos perguntavam:

“Será que existem outros mundos?”

Nós podemos perguntar:

“Quantos planetas existem e quais apresentam condições potencialmente compatíveis com vida?”

São perguntas diferentes.


32. O grande quadro comparativo

Depois de percorrer diferentes tradições, podemos organizar o problema desta maneira:

Tradição Múltiplos mundos/domínios Seres não humanos Outras humanidades claramente descritas?
Índia védica/purânica Sim Sim, em grande variedade É a tradição que mais se aproxima
Suméria Sim, céu/Terra/submundo Sim Não demonstrado
Acádia/Babilônia Sim Sim Não demonstrado
Egito Sim, incluindo Duat Sim Não demonstrado
Judaísmo antigo Sim Anjos/espíritos Não demonstrado
Cabala/Zohar Sim, sete terras e mundos Sim Interpretações posteriores permitem leituras mais amplas, mas não equivalem a astronomia extraterrestre
Grécia antiga Pluralidade de mundos em algumas escolas Sim Alguns filósofos aproximam-se da ideia material de outros mundos
Maias Cosmologia complexa e mundos/domínios Sim Não demonstrado
Astecas/Nahuas Diferentes domínios e eras cósmicas Sim Não demonstrado
Incas/Andes Céu, Terra, mundo inferior e divindades Sim Não demonstrado
África Diversos mundos espirituais e cosmologias Sim Não demonstrado como regra geral
Espiritualismo moderno Sim Sim Sim, explicitamente em algumas correntes
Flammarion Sim Sim Sim, explicitamente

33. A pergunta sobre “outras galáxias”

Aqui chegamos a um ponto ainda mais radical.

Nenhuma das cosmologias antigas que analisamos possuía o conceito moderno de galáxia.

Os antigos observavam a Via Láctea, estrelas e planetas.

Mas não conheciam a estrutura galáctica do Universo como a astronomia moderna a compreende.

Portanto, dizer:

“Os antigos sabiam que existiam outras galáxias habitadas”

é uma afirmação que exige evidências extraordinárias.

Não encontramos essa afirmação claramente documentada nas tradições analisadas.

O que encontramos é algo diferente e talvez ainda mais interessante:

uma longa história da imaginação humana sobre a pluralidade da existência.


34. O verdadeiro padrão que aparece entre os cinco continentes

Quando colocamos todas essas tradições lado a lado, surge um padrão surpreendente.

Em lugares muito distantes uns dos outros, seres humanos imaginaram:

céus.

mundos inferiores.

mundos superiores.

seres celestiais.

ancestrais.

espíritos.

deuses.

ciclos de criação.

mundos destruídos e recriados.

regiões invisíveis.

e formas de existência além da experiência humana cotidiana.

Isso não prova que esses mundos existam fisicamente.

Mas demonstra que a ideia de que a realidade poderia ser muito maior do que aquilo que o ser humano consegue perceber é uma das concepções mais persistentes da história das religiões.


35. E talvez aqui esteja o verdadeiro mistério

Existe uma diferença entre duas perguntas:

“Os antigos conheceram extraterrestres?”

e

“Por que tantas culturas imaginaram uma realidade povoada por seres e mundos além da humanidade?”

A primeira pergunta exige evidência histórica específica.

A segunda é um fato antropológico e histórico.

Os seres humanos, em diferentes épocas e lugares, construíram cosmologias nas quais a humanidade não ocupava necessariamente todo o espaço da realidade.

Para alguns povos, havia deuses.

Para outros, ancestrais.

Para outros, espíritos.

Para a Índia, uma enorme multiplicidade de seres e mundos.

Para certas escolas filosóficas gregas, poderia haver outros mundos materiais.

Para Flammarion, existiriam outras humanidades no Universo.

E para a ciência contemporânea, finalmente, sabemos que existem inúmeros outros sistemas planetários.


Conclusão — Somos a única humanidade do Universo?

Até o momento, não temos evidência científica confirmada de outra humanidade extraterrestre.

Também não temos evidência histórica suficiente para afirmar que os antigos conheciam civilizações extraterrestres.

Mas existe uma diferença enorme entre essas duas afirmações.

A inexistência de uma prova histórica não significa que a ideia de pluralidade dos mundos seja nova.

Ela é antiquíssima.

Na Índia, encontramos uma cosmologia com múltiplos mundos e incontáveis categorias de seres.

Na Mesopotâmia, encontramos uma estrutura cósmica envolvendo céu, Terra, deuses, humanidade e submundo.

No Egito, encontramos o Duat e uma elaborada geografia da existência após a morte.

No judaísmo e na Cabala, encontramos céus, terras inferiores e cosmologias como a das sete terras, incluindo Arqa.

Nas tradições mesoamericanas encontramos diferentes eras, domínios cósmicos, céus, mundos inferiores e complexas relações entre humanidade, deuses e astros.

Nas cosmologias africanas encontramos relações entre mundo humano, divindades, espíritos e ancestrais.

E na filosofia ocidental, especialmente a partir de determinadas escolas gregas, renascentistas e posteriormente em autores como Camille Flammarion, a questão se transforma gradualmente na hipótese de outros mundos materiais habitados por outras humanidades.

Portanto, talvez a pergunta mais profunda não seja simplesmente:

“Existem extraterrestres?”

Talvez seja:

Por que a humanidade, desde os primeiros registros conhecidos, quase nunca imaginou estar completamente sozinha no Universo?

E essa pergunta continua aberta.

Hoje temos algo que os antigos não possuíam: instrumentos capazes de observar planetas orbitando outras estrelas.

Talvez a antiga pergunta sobre “outros mundos” tenha finalmente encontrado o seu verdadeiro campo de investigação.

Não mais apenas nos mitos.

Não mais apenas nas religiões.

Mas também no céu.


Uma última distinção: mito, cosmologia e hipótese

Esta investigação não pretende transformar mitologia em astronomia.

Mito é mito.

Religião é religião.

Cosmologia antiga é cosmologia antiga.

Hipótese extraterrestre é hipótese extraterrestre.

E ciência é ciência.

Podemos comparar todas essas coisas, mas não devemos confundi-las.

O fato de uma cultura antiga falar de sete céus não significa que conhecesse sete dimensões físicas.

O fato de uma tradição falar de outros mundos não significa que conhecesse exoplanetas.

O fato de uma religião falar de seres celestiais não significa que estivesse descrevendo extraterrestres.

Mas também é legítimo perguntar se, por trás dessas antigas imagens do cosmos, existe uma intuição humana universal:

a possibilidade de que a realidade seja muito maior do que o mundo que conseguimos enxergar.

Essa pergunta permanece aberta.

E talvez seja justamente por isso que ela atravessou milhares de anos de história humana e continua sendo feita até hoje.


Bibliografia e referências para aprofundamento

  • Flammarion, Camille. La Pluralité des Mondes Habités. Paris: Didier, 1864. A obra apresenta uma história da ideia de pluralidade dos mundos desde a Antiguidade e desenvolve a noção de humanidade cósmica.
  • Mayor, Michel. “Plurality of Worlds.” Annual Review of Astronomy and Astrophysics, vol. 62, 2024. Discussão histórica e científica da pluralidade dos mundos e da descoberta moderna de exoplanetas.
  • Rochberg, Francesca. “Mesopotamian Cosmology.” In A Companion to the Ancient Near East. Wiley, 2020.
  • Metropolitan Museum of Art. “Mesopotamian Creation Myths.” Estudo introdutório sobre cosmogonias sumérias e babilônicas, criação dos deuses, humanidade e estrutura do cosmos.
  • ORACC — Ancient Mesopotamian Gods and Goddesses. Material acadêmico sobre An/Anu, Enki/Ea, criação e cosmologia mesopotâmica.
  • Zago, Silvia. “Imagining the Beyond: The Conceptualization of Duat between the Old and Middle Kingdoms.” Journal of the American Research Center in Egypt, 54, 2018, pp. 203–217.
  • Zago, Silvia. A Journey through the Beyond: The Development of the Concept of Duat and Related Cosmological Notions in Egyptian Funerary Literature. Lockwood Press, 2022.
  • Oxford Bibliographies in Hinduism. “Cosmology.” Discussão dos yugas, kalpas, manvantaras e ciclos de criação e destruição.
  • Oxford Bibliographies in Hinduism. “Classes of Beings.” Discussão dos diferentes grupos de seres e sua presença em mundos terrestres, subterrâneos e celestiais.
  • Cambridge University Press. Estudos sobre cosmologia maia, paisagem sagrada, criação e relação entre astronomia e cosmologia.
  • Madajczak, Julia; Mikulska, Katarzyna; Martínez, Roberto. “Beyond Mictlan: The otherworlds of the pre-contact Nahua.” Ancient Mesoamerica, 2026.
  • Nielsen, Jesper; Reunert, Toke Sellner. “Dante's heritage: questioning the multi-layered model of the Mesoamerican universe.” Antiquity, 2015.
  • Olupona, Jacob K. African Religions: A Very Short Introduction. Oxford University Press. Discussão das cosmologias africanas, divindades, espíritos e ancestrais.
  • Zohar / tradição cabalística. A literatura do Zohar apresenta a doutrina das sete terras, entre elas Arqa, e sua correspondência com os sete firmamentos.
  • Ginzberg, Louis. The Legends of the Jews. A tradição midráshica apresenta sete terras e associa Arqa a regiões inferiores da cosmologia judaica.

Nota metodológica

Esta pesquisa utiliza “outras humanidades” em sentido estrito. Portanto, deuses, anjos, espíritos, ancestrais, gigantes, nāgas e outras entidades não são automaticamente classificados como “humanidades extraterrestres”. Quando uma tradição apresenta apenas outros mundos ou outros seres, isso é indicado como tal.

Essa distinção é essencial para evitar que antigas cosmologias sejam transformadas, retrospectivamente, em relatos de ficção científica.

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