A minha religião é a liberdade religiosa para todos
Um estudo sem dogmas sobre religiões, mitologias, cosmologias, ciência, consciência e os mistérios da existência
Quando digo “a minha religião é a liberdade religiosa”, não estou dizendo que criei uma nova religião, nem que a liberdade religiosa seja uma religião no sentido tradicional.
Estou falando de um princípio pessoal de vida e de investigação.
Eu não adoto uma religião específica como dona exclusiva da verdade.
Prefiro estudar.
Estudar profundamente.
Questionar.
Comparar.
Investigar.
E, principalmente, procurar padrões.
Estudo todas as religiões
Ao longo do meu trabalho, estudo o cristianismo, o judaísmo, o islamismo, o hinduísmo, o budismo e outras grandes tradições religiosas.
Mas não paro nas religiões atualmente reconhecidas.
Também estudo as antigas religiões pagãs, religiões desaparecidas, mitologias, cosmologias, tradições iniciáticas, esoterismo, gnosticismo, hermetismo, xamanismo, tradições indígenas e sistemas filosófico-religiosos de diferentes civilizações.
Procuro compreender:
De onde surgiram essas tradições?
Como evoluíram?
Por que determinados símbolos aparecem em culturas diferentes?
Por que determinados mitos apresentam estruturas semelhantes?
Existem padrões universais na maneira como o ser humano compreende o nascimento, a morte, a consciência, o cosmos e aquilo que chama de divino?
Essas perguntas não significam que eu considere todas as teorias verdadeiras.
Significam apenas que considero que todas podem ser investigadas.
Nem dogma religioso, nem dogma científico
Minha investigação também ultrapassa o campo exclusivamente religioso.
Procuro confrontar antigas tradições com conhecimentos contemporâneos da filosofia, antropologia, arqueologia, história, psicologia, neurociência e física.
Tenho interesse especial pelas questões relacionadas à consciência, à natureza da realidade, à percepção humana e aos limites do conhecimento.
Quando estudo física quântica ou neurociência, por exemplo, não quero utilizar a ciência para simplesmente “provar” uma religião.
Da mesma maneira, quando encontro uma antiga tradição religiosa que parece apresentar uma ideia semelhante a algum conceito científico moderno, não concluo automaticamente que os antigos já conheciam a física contemporânea.
A semelhança é um ponto de investigação, não uma prova.
Essa distinção é fundamental.
Minha proposta é colocar diferentes campos do conhecimento em diálogo, mantendo a diferença entre fato comprovado, hipótese, interpretação filosófica, tradição religiosa e especulação.
Procurar padrões sem transformar padrões em dogmas
Talvez essa seja uma das características mais importantes do meu trabalho.
Eu procuro padrões.
Padrões entre mitologias.
Padrões entre cosmologias.
Padrões entre religiões.
Padrões entre símbolos.
Padrões entre diferentes civilizações.
E, quando possível, comparo esses padrões com descobertas da ciência contemporânea.
Mas existe uma regra:
encontrar uma correspondência não significa provar uma conexão histórica ou científica.
Uma hipótese deve continuar sendo uma hipótese até que existam evidências suficientes para transformá-la em algo mais sólido.
Por isso, minha investigação não precisa terminar sempre com uma resposta.
Às vezes, a pergunta é mais importante.
Liberdade religiosa não significa imposição religiosa
Existe uma distinção que considero fundamental:
liberdade religiosa ≠ imposição religiosa.
Eu defendo o direito de uma pessoa ser cristã.
Defendo o direito de outra pessoa ser judia.
Defendo o direito de outra pessoa ser hindu, budista, muçulmana ou praticante de qualquer outra tradição.
Defendo também o direito de alguém seguir uma tradição indígena, uma religião ancestral ou uma corrente espiritual minoritária.
E defendo igualmente o direito de uma pessoa não possuir religião alguma.
Da mesma forma, defendo o meu direito de estudar todas essas tradições sem precisar transformar nenhuma delas em uma verdade dogmática pessoal.
Para mim, essa é a essência da liberdade religiosa.
Religião e Estado
Por essa mesma razão, não concordo com a utilização da religião como instrumento de dominação política.
Acredito que deve existir uma separação clara entre:
religião;
política;
Estado;
Constituição;
leis;
e decisões judiciais.
Isso não significa ser contra a religião.
É justamente o contrário.
Acredito que a religião é mais livre quando o Estado não transforma uma determinada crença em instrumento obrigatório de poder.
Um Estado laico não precisa ser um Estado contra Deus.
Um Estado laico é um Estado que não pertence a uma religião específica e que deve garantir liberdade de consciência e de crença para todos.
O cidadão pode levar sua fé para a vida pública.
Mas as leis do Estado precisam encontrar sua legitimidade na Constituição, no ordenamento jurídico e nos princípios democráticos, e não na obrigação de que todos aceitem determinada escritura ou determinada interpretação religiosa.
Não acredito no uso do nome de Deus para justificar o mal
Existe outra questão que considero ainda mais importante.
Não concordo com o uso do nome de Deus, de escrituras sagradas ou de autoridades religiosas para justificar guerras, perseguições, violência, intolerância ou qualquer forma de crueldade.
A história humana possui inúmeros episódios em que pessoas afirmaram agir em nome de Deus enquanto perseguiam, matavam, escravizavam ou destruíam aqueles que pensavam de maneira diferente.
Isso não significa que a religião seja responsável por todos esses acontecimentos.
Significa que a religião também pode ser instrumentalizada pelo poder humano.
E quando isso acontece, o problema não está necessariamente na fé de milhões de pessoas.
Está na utilização da fé como instrumento de poder.
Por isso, acredito que uma das maiores formas de respeito à religião seja justamente impedir que ela seja utilizada como justificativa para a violência.
Minha religião é a liberdade religiosa
Talvez essa frase resuma melhor minha posição:
“Minha religião é a liberdade religiosa para todos.”
O cristão deve ter liberdade para acreditar.
O judeu deve ter liberdade para acreditar.
O hindu deve ter liberdade para acreditar.
O budista deve ter liberdade para acreditar.
O muçulmano deve ter liberdade para acreditar.
O praticante de religiões tradicionais ou ancestrais deve ter liberdade para acreditar.
E aquele que não acredita em nenhuma religião também deve ter exatamente a mesma liberdade.
Inclusive a liberdade de questionar todas elas.
Porque uma sociedade verdadeiramente livre não precisa ter medo das perguntas.
O propósito do meu trabalho
É nesse espaço que se encontra o meu trabalho no blog.
Não quero simplesmente repetir aquilo que uma religião diz.
Também não quero simplesmente repetir aquilo que determinado cientista diz.
Quero investigar.
Quero comparar.
Quero confrontar fontes.
Quero estudar documentos antigos e descobertas modernas.
Quero observar aquilo que é consenso, aquilo que é controvertido e aquilo que permanece desconhecido.
Quero colocar lado a lado religião, mitologia, história, arqueologia, filosofia, antropologia, neurociência, física e outras áreas do conhecimento quando existir uma questão legítima que permita essa comparação.
Sem dogma.
Sem obrigação de acreditar.
Sem obrigação de desacreditar.
Sem transformar hipótese em fato.
Sem transformar fé em ciência.
E sem transformar ciência em uma nova religião.
Investigação constante da verdade
É por isso que a minha proposta pode ser resumida em uma expressão:
Investigação Constante da Verdade.
Não significa acreditar que já encontrei a verdade definitiva.
Significa aceitar que a verdade, quando existe, não precisa ter medo da investigação.
Uma hipótese pode ser confrontada.
Uma crença pode ser questionada.
Uma teoria científica pode ser testada.
Uma interpretação histórica pode ser revisada.
Uma tradição religiosa pode ser estudada.
E uma afirmação extraordinária deve ser acompanhada de evidências proporcionais àquilo que pretende demonstrar.
Essa é a liberdade que considero essencial:
a liberdade de acreditar, a liberdade de questionar e a liberdade de investigar.
Reflexão final
Talvez uma das maiores riquezas da humanidade esteja justamente na sua diversidade de respostas para os grandes mistérios da existência.
Milhares de povos olharam para o céu e perguntaram de onde viemos.
Milhares de culturas criaram mitos para explicar a origem do mundo.
Filósofos questionaram a natureza da realidade.
Religiões procuraram compreender Deus, os deuses, a alma, a morte e o destino humano.
E a ciência continua fazendo perguntas que muitas vezes nos mostram o quanto ainda desconhecemos.
Eu não quero destruir nenhuma dessas tradições.
Quero estudá-las.
Quero compreender seus contextos.
Quero comparar seus símbolos.
Quero investigar suas origens.
Quero procurar padrões.
E quero manter aberta a possibilidade de que a realidade seja muito mais complexa do que qualquer sistema humano conseguiu explicar até hoje.
Por isso:
A minha religião é a liberdade religiosa para todos.
Minha filosofia é a investigação.
Meu método é a comparação.
Meu compromisso é com a busca da verdade.
E meu princípio é simples:
Nenhuma religião deve ser imposta. Nenhuma consciência deve ser escravizada. E nenhuma pergunta legítima deve ser proibida.
Relatório Suplementar
A tradição intelectual por trás de uma investigação sem dogmas
Religiões, mitologias, cosmologias, consciência, ciência e liberdade de pensamento
A proposta apresentada neste trabalho — estudar diferentes religiões, mitologias, cosmologias e tradições espirituais, procurando padrões e possíveis conexões com filosofia, psicologia, neurociência e ciência contemporânea, sem transformar nenhuma dessas áreas em dogma — não surgiu no vazio.
Ao longo dos últimos séculos, diversos pesquisadores, filósofos, historiadores das religiões e estudiosos da consciência desenvolveram métodos e perspectivas que, embora diferentes entre si, possuem pontos de contato com essa maneira de investigar.
Isso não significa que eu siga qualquer um desses autores integralmente.
Significa reconhecer que existe uma longa tradição de investigação comparativa, interdisciplinar e crítica da experiência religiosa da qual meu próprio trabalho pode dialogar.
1. Friedrich Max Müller e o nascimento do estudo comparativo das religiões
Entre os grandes precursores está Friedrich Max Müller (1823–1900).
Filólogo, orientalista e estudioso das religiões, Müller foi uma figura central na formação do estudo comparativo das religiões no século XIX.
Seu projeto mais conhecido foi a monumental coleção Sacred Books of the East, publicada entre 1879 e 1910 em cinquenta volumes.
A coleção reuniu traduções de textos religiosos provenientes de diferentes tradições, incluindo hinduísmo, budismo, zoroastrismo, confucionismo, taoismo, jainismo e islamismo. O projeto tornou-se um marco na formação acadêmica do estudo comparativo das religiões.
O princípio metodológico é particularmente importante para este trabalho:
não compreender uma tradição isoladamente, mas colocá-la em contato com outras tradições para identificar diferenças, paralelos e estruturas de pensamento.
Müller, entretanto, também possuía suas próprias concepções religiosas e filosóficas. Portanto, sua obra deve ser estudada historicamente e criticamente.
Seu legado mais importante para esta investigação não é oferecer uma resposta definitiva sobre religião, mas demonstrar a importância de reunir fontes, comparar textos e investigar as tradições religiosas como fenômenos históricos e culturais.
A própria historiografia contemporânea considera a Sacred Books of the East um monumento da história do estudo comparativo das religiões.
2. Mircea Eliade e a investigação do sagrado
Outro nome fundamental é Mircea Eliade (1907–1986).
Eliade dedicou grande parte de sua obra ao estudo comparativo das religiões, investigando temas como:
- mitos;
- símbolos;
- rituais;
- iniciações;
- cosmologias;
- tempo sagrado;
- espaço sagrado;
- morte e renascimento;
- manifestações do sagrado;
- relações entre religião e cultura.
Sua contribuição foi particularmente importante porque procurou compreender a experiência religiosa não apenas como um conjunto de crenças, mas como uma maneira pela qual sociedades humanas estruturam sua relação com a realidade.
Para uma investigação como esta, Eliade oferece uma ferramenta extremamente interessante:
comparar símbolos e estruturas religiosas sem partir imediatamente da conclusão de que uma tradição possui toda a verdade.
Entretanto, sua obra também recebeu críticas acadêmicas importantes.
Por isso, Eliade deve ser utilizado como objeto de estudo e fonte de hipóteses, e não como autoridade absoluta.
Essa é justamente uma regra fundamental desta investigação:
nenhum pesquisador está acima da crítica.
3. Joseph Campbell e os padrões recorrentes dos mitos
Joseph Campbell (1904–1987) tornou-se conhecido mundialmente por seus estudos comparativos de mitologia.
Em obras como The Hero with a Thousand Faces e The Masks of God, Campbell investigou estruturas recorrentes em mitos provenientes de diferentes sociedades.
Seu trabalho chamou atenção para possíveis padrões narrativos que aparecem em culturas separadas por enormes distâncias geográficas e históricas.
A questão é fascinante:
por que determinadas estruturas simbólicas aparecem repetidamente em sociedades diferentes?
Existem explicações psicológicas?
Culturais?
Históricas?
Estruturais?
Difusão cultural?
Desenvolvimento independente?
Ou uma combinação de diferentes fatores?
Essa pergunta permanece muito mais interessante do que simplesmente afirmar que todos os mitos possuem uma única origem.
Por isso, a abordagem adotada aqui precisa fazer uma distinção:
um padrão recorrente é um fenômeno que merece investigação; não é automaticamente uma prova de origem comum.
4. Carl Jung e o inconsciente coletivo
Carl Gustav Jung (1875–1961) acrescentou outra dimensão à investigação.
Sua teoria dos arquétipos e do inconsciente coletivo procurou explicar determinadas recorrências simbólicas presentes em mitos, sonhos, religiões e manifestações culturais.
Jung estudou profundamente o simbolismo religioso e mitológico.
Sua obra permite estabelecer uma ponte entre:
mitologia → religião → psicologia → sonhos → símbolos → consciência.
Isso é particularmente relevante para uma investigação que procura compreender por que determinados símbolos aparecem repetidamente na história humana.
Mas existe uma ressalva essencial:
as teorias junguianas não devem ser apresentadas como fatos científicos estabelecidos simplesmente porque possuem grande influência cultural.
Elas devem ser tratadas como teorias psicológicas e interpretativas, algumas das quais continuam influentes e outras são objeto de debate.
5. William James e a experiência religiosa
Outro autor indispensável é William James (1842–1910).
Em The Varieties of Religious Experience (1902), James estudou experiências religiosas a partir da perspectiva da psicologia e da experiência individual.
Seu método é interessante porque não exige uma decisão prévia.
Em vez de simplesmente afirmar:
“a experiência é sobrenatural”
ou:
“a experiência é apenas uma ilusão”,
James procurou estudar aquilo que acontece com o indivíduo que afirma ter vivido determinada experiência.
Isso abre uma questão fundamental:
podemos estudar cientificamente uma experiência religiosa sem precisar decidir antecipadamente sua origem metafísica?
Essa pergunta continua extremamente atual.
Ela também estabelece uma ponte entre o estudo das religiões e as pesquisas contemporâneas sobre consciência, percepção, estados alterados de consciência e experiências místicas.
6. Aldous Huxley e a Filosofia Perene
Em The Perennial Philosophy (1945), Aldous Huxley reuniu textos e ideias provenientes de diferentes tradições religiosas e místicas.
Huxley procurou identificar elementos espirituais comuns entre tradições aparentemente muito diferentes.
Sua proposta aproxima-se bastante de uma pergunta que também aparece neste trabalho:
será que diferentes religiões estão descrevendo, utilizando linguagens diferentes, aspectos de uma mesma realidade espiritual?
Mas existe uma diferença metodológica importante.
Não é necessário aceitar antecipadamente a existência de uma “verdade comum” para investigar a hipótese.
É possível simplesmente perguntar:
existem padrões comuns?
E, se existirem:
como podem ser explicados?
Essa diferença preserva a investigação aberta.
7. Huston Smith e o pluralismo religioso
Huston Smith (1919–2016) foi outro importante estudioso das religiões comparadas.
Em obras como The World's Religions e Forgotten Truth, Smith apresentou as grandes tradições religiosas buscando compreender seus próprios sistemas de pensamento, em vez de simplesmente classificá-las segundo os critérios de uma única tradição.
Sua obra é particularmente relevante para a ideia de que:
é possível estudar profundamente uma religião sem necessariamente pertencer a ela.
Essa distinção é fundamental.
O pesquisador pode estudar hinduísmo sem ser hindu.
Pode estudar cristianismo sem ser cristão.
Pode estudar budismo sem ser budista.
Pode estudar religiões antigas sem praticá-las.
Pode estudar ateísmo sem necessariamente ser ateu.
Conhecimento não exige conversão.
8. John Hick e o pluralismo religioso
O filósofo britânico John Hick (1922–2012) desenvolveu uma das mais importantes teorias contemporâneas do pluralismo religioso.
Sua chamada hipótese pluralista procurou explicar como diferentes tradições religiosas poderiam representar respostas culturalmente diferentes diante de uma realidade última que ultrapassa completamente as categorias humanas.
A ideia é extremamente provocativa:
talvez diferentes religiões estejam tentando descrever uma realidade que nenhuma cultura consegue compreender integralmente.
Isso não significa afirmar que todas as religiões estejam literalmente dizendo a mesma coisa.
Elas possuem doutrinas incompatíveis em vários pontos.
A questão filosófica é outra:
essas diferenças culturais necessariamente significam que apenas uma tradição possui acesso à realidade última?
Essa é uma pergunta filosófica, não uma conclusão científica.
9. John Locke e a liberdade de consciência
Se os autores anteriores ajudam a explicar a dimensão comparativa da investigação, John Locke (1632–1704) ajuda a compreender a dimensão política.
Em A Letter Concerning Toleration (1689), Locke desenvolveu argumentos importantes em defesa da tolerância religiosa e da distinção entre a autoridade civil e a autoridade religiosa.
Locke sustentava que o magistrado não deveria impor por lei determinadas formas de culto religioso e distinguia a comunidade política da comunidade religiosa.
Esse princípio continua extremamente atual:
o Estado não deve ser proprietário da consciência do cidadão.
A pessoa pode ter sua fé.
Pode mudar de religião.
Pode abandonar uma religião.
Pode não possuir religião.
Pode estudar várias religiões.
E pode questionar todas elas.
10. Thomas Jefferson e a separação entre religião e poder civil
Thomas Jefferson representa outro momento decisivo dessa tradição.
Seu Virginia Statute for Religious Freedom, originalmente elaborado em 1777 e aprovado em 1786, estabeleceu princípios fundamentais de liberdade religiosa e separação entre Igreja e Estado.
Um dos aspectos mais importantes do documento é a defesa da liberdade da mente e a rejeição da utilização do poder civil para impor opiniões religiosas.
Jefferson também sustentou que os direitos civis não deveriam depender da religião professada pelo cidadão.
Essa concepção aproxima-se diretamente de uma das ideias fundamentais deste trabalho:
defender todas as religiões exige também defender o direito de nenhuma delas ser imposta pelo Estado.
11. Liberdade religiosa não significa Estado religioso
Essa distinção merece ser enfatizada.
Defender liberdade religiosa não significa defender um Estado governado por uma religião.
Pelo contrário.
A liberdade religiosa somente pode existir plenamente quando diferentes consciências possuem proteção jurídica.
Isso inclui:
o direito de acreditar;
o direito de mudar de crença;
o direito de não acreditar;
o direito de estudar religiões diferentes;
o direito de criticar ideias religiosas;
e o direito de não sofrer perseguição por suas convicções.
A liberdade religiosa protege a religião.
Mas também protege a liberdade diante da religião.
12. Religião, política e Estado
É nesse ponto que minha própria posição se torna mais clara.
Eu defendo a liberdade religiosa, mas não concordo com a utilização da religião como instrumento de imposição política.
Religiões podem participar do debate público.
Pessoas religiosas possuem os mesmos direitos políticos que qualquer cidadão.
Mas uma decisão estatal não deveria ser obrigatória para toda a população simplesmente porque determinada autoridade considera que sua religião determina aquela decisão.
No Estado laico, a autoridade pública deve fundamentar seus atos na:
Constituição;
leis;
direitos fundamentais;
evidências;
razões públicas acessíveis a todos os cidadãos.
Isso não significa expulsar a religião da sociedade.
Significa impedir que uma crença particular se transforme automaticamente em obrigação jurídica para quem não compartilha dela.
13. O problema do uso de Deus para justificar violência
Existe ainda uma questão histórica que não pode ser ignorada.
Ao longo da história, diferentes grupos utilizaram nomes de divindades, escrituras e autoridades religiosas para justificar guerras, perseguições, intolerância e violência.
Isso não permite concluir que religião seja sinônimo de violência.
Seria uma generalização igualmente dogmática.
O que a história demonstra é algo diferente:
qualquer sistema de crenças pode ser instrumentalizado pelo poder humano.
Por isso, considero especialmente perigosa a transformação de uma convicção religiosa em justificativa automática para violência política ou militar.
Nenhuma escritura deveria ser utilizada como autorização para retirar de outro ser humano sua dignidade, sua liberdade ou sua vida.
14. O diálogo entre religião e ciência
Minha investigação também procura estabelecer diálogo entre tradições religiosas e conhecimento científico.
Mas esse diálogo precisa respeitar os limites de cada campo.
A religião pode formular perguntas metafísicas.
A filosofia pode analisar conceitos.
A história pode investigar documentos e contextos.
A antropologia pode estudar culturas.
A arqueologia pode investigar vestígios materiais.
A psicologia pode estudar experiências humanas.
A neurociência pode investigar processos cerebrais relacionados à percepção e à consciência.
A física pode investigar propriedades fundamentais da natureza.
Nenhuma dessas áreas precisa ser transformada artificialmente em outra.
Portanto:
não utilizo a física quântica para “provar” uma religião.
Também não utilizo uma explicação neurológica de uma experiência religiosa para afirmar automaticamente que a experiência não possui qualquer significado espiritual.
São questões diferentes.
A interdisciplinaridade exige diálogo, não confusão entre métodos.
15. A diferença entre evidência, hipótese e especulação
Este talvez seja o princípio metodológico mais importante deste trabalho.
Uma investigação responsável precisa distinguir:
Fato
Aquilo que possui evidência suficiente e pode ser demonstrado documental ou empiricamente.
Hipótese
Uma explicação possível que ainda precisa ser testada.
Interpretação
Uma leitura possível dos dados disponíveis.
Tradição
Aquilo que determinada cultura ou religião transmite como conhecimento, revelação ou memória.
Especulação
Uma possibilidade que permanece sem comprovação suficiente.
Essas categorias não devem ser misturadas.
Uma tradição religiosa pode ser historicamente importantíssima sem ser cientificamente comprovada.
Uma hipótese científica pode ser intelectualmente interessante sem estar demonstrada.
Um mito pode conter enorme valor simbólico sem ser necessariamente uma descrição literal de acontecimentos históricos.
E uma coincidência entre duas culturas pode ser interessante sem demonstrar contato entre elas.
16. O método da Investigação Constante da Verdade
É nesse ponto que minha própria proposta se define.
Não pretendo construir uma nova religião.
Não pretendo criar um sistema dogmático.
Não pretendo afirmar que encontrei a explicação definitiva para a realidade.
Meu objetivo é investigar.
Investigar religiões.
Investigar mitologias.
Investigar cosmologias.
Investigar documentos antigos.
Investigar arqueologia.
Investigar história.
Investigar filosofia.
Investigar psicologia.
Investigar neurociência.
Investigar física.
Investigar consciência.
E comparar aquilo que diferentes áreas do conhecimento descobriram.
Quando encontro um padrão, pergunto:
é coincidência?
é desenvolvimento independente?
houve transmissão cultural?
existe uma explicação psicológica?
existe uma explicação histórica?
existe uma explicação natural?
ou estamos diante de algo que ainda não compreendemos?
Não preciso responder imediatamente.
Às vezes, a melhor investigação começa justamente quando admitimos:
“ainda não sabemos.”
17. Uma posição sem dogma
Por isso, não considero necessário escolher previamente entre:
religião ou ciência;
espiritualidade ou racionalidade;
tradição ou investigação;
fé ou questionamento.
É possível estudar todas essas dimensões sem transformar nenhuma delas em dogma.
Posso estudar uma escritura religiosa e também questioná-la.
Posso estudar uma teoria científica e também reconhecer suas limitações.
Posso admirar uma tradição espiritual sem aderir a ela.
Posso considerar uma hipótese fascinante sem apresentá-la como fato.
E posso mudar de opinião quando novas evidências aparecerem.
Essa última possibilidade é essencial.
Uma investigação que não permite mudar de conclusão quando surgem novas evidências não é investigação; é dogma.
18. Conclusão
Minha frase — “A minha religião é a liberdade religiosa para todos” — não representa uma tentativa de substituir as religiões existentes.
Representa uma escolha de princípio:
ninguém deve ser obrigado a acreditar.
E, ao mesmo tempo:
ninguém deve ser impedido de acreditar.
Minha maneira de estudar religião também segue esse princípio.
Não parto da obrigação de acreditar.
Não parto da obrigação de negar.
Parto da pergunta.
Foi isso que encontrei, de maneiras diferentes, em uma longa tradição de pesquisadores e pensadores: Max Müller na comparação dos textos religiosos; Eliade no estudo do sagrado; Campbell na comparação dos mitos; Jung na investigação dos símbolos e da psique; William James no estudo da experiência religiosa; Huxley e Huston Smith na busca por elementos comuns entre tradições; John Hick no pluralismo religioso; Locke na tolerância; e Jefferson na defesa da liberdade religiosa e da separação entre religião e poder civil.
Nenhum deles possui a palavra final.
E essa é justamente a questão.
Nem eu.
Meu trabalho não pretende encerrar a investigação.
Pretende mantê-la aberta.
Investigação Constante da Verdade
Sem dogma.
Sem obrigação de acreditar.
Sem obrigação de desacreditar.
Sem transformar hipótese em fato.
Sem transformar fé em ciência.
Sem transformar ciência em religião.
E sem permitir que qualquer religião seja utilizada como instrumento de imposição, perseguição ou violência.
Porque acredito que a verdadeira liberdade não consiste apenas no direito de acreditar naquilo que queremos.
Consiste também no direito de perguntar, investigar, duvidar, comparar e buscar nossas próprias respostas.
E talvez seja justamente por isso que a frase que melhor define minha posição seja:


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