Quem Foram os Saxões e Como Surgiram os Anglo-Saxões? Origens, Mitologia e Migração

 





Quem Foram os Saxões e Como Surgiram os Anglo-Saxões? Origens, Mitologia e Migração


Antes de Começar: Uma Nota Importante para o Leitor

​Se você sempre achou que "saxão" e "anglo-saxão" eram exatamente a mesma coisa, ou que a língua inglesa surgiu da mistura de germânicos com os celtas, saiba que você não está sozinho! Esse é um dos maiores equívocos da história popular.

​Para entender a origem da Inglaterra e do próprio idioma inglês, precisamos ajustar dois fatos fundamentais:

  1. A fusão que deu origem ao nome: O termo anglo-saxão não vem da mistura com os celtas, mas sim da união de duas tribos germânicas distintas que cruzaram o Mar do Norte: os Saxões (do norte da Alemanha) e os Ângulos (do sul da Dinamarca).
  2. A origem do Inglês: A língua inglesa (Old English) nasceu diretamente dos dialetos germânicos trazidos por essas tribos. Inclusive, a palavra England deriva de Engla-land — que significa literalmente "A Terra dos Ângulos".

​Abaixo, vamos mergulhar na história completa dessa migração, na mitologia pagã que eles praticavam antes do cristianismo e em como esse passado tribal ainda é instrumentalizado na política atual. Boa leitura!



De Tribos Germânicas à Identidade Ocidental: Origens, Mitologia e a Instrumentalização Política dos Saxões e Anglo-Saxões

Introdução

As transformações políticas na Europa contemporânea, marcadas pelo avanço de correntes ultranacionalistas e discussões sobre identidade nacional, frequentemente trazem à tona símbolos e narrativas do passado pré-moderno. As eleições em regiões da Alemanha continental, como a Saxônia, reacenderam o interesse público pelas raízes tribais germânicas e pelo significado histórico de termos como "saxão" e "anglo-saxão".

Contudo, o espaço entre a historiografia acadêmica e o senso comum é povoado por anacronismos. Entender a formação do mundo europeu ocidental exige desconstruir mitos de homogeneidade étnica e analisar o movimento das tribos do norte da Europa a partir do século V d.C., compreendendo tanto sua organização social, religiosidade pagã e processos migratórios quanto os mecanismos contemporâneos que instrumentalizam essa memória histórica.

1. Origens e Aprofundamento Histórico: Saxões, Ângulos e Jutos

Antes do surgimento de uma identidade unificada na Grã-Bretanha, a Europa setentrional era habitada por diversas confederações tribais germânicas sem centralização estatal:

  • Os Saxões: Ocupavam as planícies do norte da Europa continental, concentrando-se entre os bacias dos rios Elba e Weser (região das atuais Baixa Saxônia e Schleswig-Holstein, na Alemanha). O etnônimo deriva do uso de uma adaga de corte único chamada seax. Estruturavam-se em uma sociedade descentralizada, dividida entre nobres (edhilingui), homens livres (frilingi) e servos (lazzi).
  • Os Ângulos: Tribo germânica originária da península de Angeln, localizada no sul da atual Dinamarca e norte do estado alemão de Schleswig-Holstein. É fundamental pontuar que os ângulos não possuíam origem celta; pertenciam ao mesmo tronco etnolinguístico germânico dos saxões.
  • Os Jutos: Povo germânico proveniente do norte da península da Jutlândia que desempenhou papel decisivo no povoamento do sudeste da Bretanha (região de Kent).

Os celtas bretões, por sua vez, representavam a população autóctone da ilha da Bretanha, já profundamente romanizada após séculos de domínio do Império Romano.

2. A Invasão da Bretanha e o Surgimento da Identidade Anglo-Saxã

Com o colapso da administração militar romana na Bretanha por volta de 410 d.C., as populações celtas locais enfrentaram pressões militares de povos não romanizados do norte, como os pictos e escotos. Conforme o relato do monge Gildas (De Excidio et Conquestu Britanniae) e, posteriormente, do Venerável Beda (Historia Ecclesiastica Gentis Anglorum), os líderes bretões recorreram à contratação de mercenários germânicos como foederati.

   Europa Continental (Séc. V)                    Grã-Bretanha
[ Saxões / Ângulos / Jutos ] --(Migração)--> [ Celtas Bretões ]
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                                            (Fusão Cultural e
                                            Conflitos Territoriais)
                                                     |
                                                     v
                                            [ Povo Anglo-Saxão ]
                                                     |
                                                     v
                                            [ Engla-land / Inglaterra ]

A partir de 449 d.C., o fluxo migratório intensificou-se. Movidos pela escassez de solos férteis no continente e pela fragilidade defensiva da ilha, ângulos, saxões e jutos estabeleceram assentamentos permanentes, empurrando as populações celtas para as periferias ocidentais e setentrionais (País de Gales, Cornualha e Escócia).

Da síntese linguística e cultural entre os reinos formados por essas tribos emergiu o dialeto inglês antigo (Old English) e a identidade anglo-saxã. Esse processo deu origem ao nome Engla-land ("Terra dos Ângulos"), matriz conceitual da Inglaterra moderna.

Nota Histórica: Nem todos os saxões migraram para a Bretanha. Os saxões continentais permaneceram no norte da Alemanha e mantiveram sua estrutura tribal e religião pagã até o século VIII, quando foram submetidos à cristianização forçada e integrados ao Império Carolíngio após as sangrentas Guerras Saxônicas (772–804 d.C.), lideradas por Carlomagno.

3. Panteão e Mitologia Pagã Germânica

Antes do processo de conversão ao cristianismo, promovido entre os séculos VI e VIII pela Missão Gregoriana e por monges hiberno-escoceses, os povos anglo-saxões praticavam uma variante do paganismo germânico pré-cristão, compartilhando raízes cosmológicas com a mitologia nórdica.

Divindade Anglo-SaxãCorrespondente NórdicoAtribuições PrincipaisHerança Linguística (Inglês)
WodenOdinSabedoria, guerra, magia e patrono das linhagens reaisWednesday (Woden's Day)
ThunorThorTrovão, força física, proteção dos camponesesThursday (Thunor's Day)
TiwTyrGuerra, honra e justiça das assembleias (Thing)Tuesday (Tiw's Day)
FrígeFrigg / FreyjaFertilidade, amor, maternidade e ambiente domésticoFriday (Fríge's Day)

A religiosidade sagrada expressava-se ao ar livre, em santuários naturais, poços e árvores veneradas — como o pilar Irminsul, eixo cósmico sagrado dos saxões continentais destruído por ordenança de Carlomagno. A cosmovisão anglo-saxã era regida pelo princípio do Wyrd (o destino inexorável) e pelo valor moral da glória em batalha (dom), preservada oralmente através do cântico dos poetas (scops), como evidenciado no poema épico Beowulf.

4. Reflexão: Instrumentalização Política e o Mito da Pureza Étnica

O estudo crítico da história revela contradições evidentes no uso que correntes ultranacionalistas contemporâneas fazem do passado germânico:

  1. Desconstrução do Mito da Pureza Ethnicidade: A própria gênese dos anglo-saxões nega a premissa de um grupo étnico estático e isolado. Trata-se de uma identidade gestada pela fusão contínua de diferentes levas migratórias germânicas com contingentes celtas e, posteriormente, escandinavos (vikings) e normandos.
  2. Deslocamento Histórico do Termo: O rótulo "anglo-saxão" é frequentemente empregado de forma anacrônica no debate geopolítico para denotar uma suposta hegemonia cultural ou étnica ocidental inalterada, ignorando a dinâmica de constante hibridização que caracterizou o período altomedieval.
  3. Apropriação de Símbolos Pagãos: O resgate de runas, iconografias de Woden ou referências às resistências saxônicas por partidos e movimentos extremistas na Alemanha moderna (como alas ultraconservadoras da região da Saxônia) descontextualiza manifestações espirituais da Antiguidade Tardia para fundamentar ideologias políticas do século XXI.

O conhecimento historiográfico atua, portanto, como antídoto contra a manipulação da memória, demonstrando que a migração e o intercâmbio cultural são os verdadeiros elementos estruturantes das nações europeias.

Conclusão

A formação do povo anglo-saxão e a história dos saxões continentais constituem episódios centrais na transição da Antiguidade Tardia para a Idade Média. Longe de representarem uma linhagem isolada ou imutável, esses povos resultaram de processos complexos de migração, conflito e assimilação cultural que moldaram a linguagem, a topografia e a religiosidade do ocidente europeu.

Compreender essas origens sem os filtros do romantismo oitocentista ou do uso político contemporâneo permite reconhecer que a história das nações modernas é construída sobre a pluralidade de fluxos migratórios e a constante reorganização de suas identidades.

Referências Bibliográficas (Norma ABNT)

BEDA, O Venerável. História Eclesiástica do Povo Inglês. Tradução de Paulo R. L. R. L. São Paulo: Editora Paulus, 2004.

BLAIR, Peter Hunter. An Introduction to Anglo-Saxon England. 3. ed. Cambridge: Cambridge University Press, 2003.

GILDAS. On the Ruin of Britain (De Excidio et Conquestu Britanniae). Editado e traduzido por Michael Winterbottom. Chichester: Phillimore, 1978.

HIGHAM, Nicholas J.; RYAN, Martin J. The Anglo-Saxon World. New Haven: Yale University Press, 2013.

STENTON, Frank M. Anglo-Saxon England. 3. ed. Oxford: Oxford University Press, 2001. (Oxford History of England).

WOOD, Ian. The Merovingian Kingdoms: 450–751. London: Longman, 1994.

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