O Golpe dentro do Golpe: Aladino Félix, o terrorismo de extrema-direita e a escalada que levou ao AI-5

 




O Golpe dentro do Golpe: Aladino Félix, o terrorismo de extrema-direita e a escalada que levou ao AI-5

A trajetória de Aladino Félix (também conhecido pelos pseudônimos Dino Kraspedon e Sábado Dinotos) conecta, de forma insólita, a ufologia messiânica e o terrorismo de extrema-direita que participou da escalada política que levou ao endurecimento da Ditadura Militar brasileira em 1968.

Abaixo estão detalhados os principais pontos que conectam o misticismo ufológico desse personagem às suas ações políticas violentas e, posteriormente, à tese de que seus atentados se inseriram em uma estratégia mais ampla de radicalização do regime.

1. Relatos de “Inteligências Exóticas” — o lado ufológico

Antes de ingressar na militância armada, Aladino ganhou notoriedade no cenário da ufologia e do esoterismo.

  • O pseudônimo Dino Kraspedon: sob esse nome, publicou Contatos com os Discos Voadores, obra na qual relatava supostos contatos físicos com seres extraterrestres e apresentava uma cosmologia própria, vinculada à ideia de uma intervenção de inteligências superiores na história humana.

  • Profecias e messianismo: posteriormente, sob o nome de Sábado Dinotos, apresentou-se como personagem de natureza messiânica, associando sua missão política e religiosa a interpretações de Nostradamus, da Bíblia e de outras tradições proféticas.

  • A conexão cósmica: em sua visão de mundo, o Brasil ocupava posição privilegiada dentro de uma transformação planetária. O componente ufológico não era apenas uma curiosidade biográfica: fazia parte de uma construção messiânica na qual Aladino atribuía a si próprio uma missão histórica excepcional.

Essa dimensão é relevante para compreender a formação do grupo que posteriormente passaria da propaganda esotérica à ação política violenta. O caso estudado pelo historiador Daniel Faria é particularmente singular porque combina religião, ufologia, imaginário conspiratório, terrorismo e disputa interna pelo rumo da ditadura.

2. Atentados de extrema-direita — o lado terrorista

Em 1968, a retórica mística de Aladino transformou-se em ações violentas e coordenadas no estado de São Paulo. Documentos policiais, militares e judiciais posteriormente analisados por pesquisadores permitem reconstruir a atuação do grupo.

  • Pioneirismo no terrorismo: o grupo associado a Aladino era formado por aproximadamente 14 integrantes ligados à antiga Força Pública paulista.

  • Onda de bombas: segundo a documentação reunida nas investigações, o grupo realizou 14 atentados a bomba, além de furtos de dinamite, armas e pelo menos um assalto a banco destinado a financiar as atividades. A investigação jornalística baseada nos documentos contabilizou o grupo como responsável por 17 das 32 ações terroristas registradas pelos órgãos policiais naquele período.

  • Alvos: entre os alvos apareceram instalações públicas e militares, além de outros locais considerados estratégicos. O objetivo não parecia ser simplesmente produzir destruição física: os atentados tinham também uma dimensão política e psicológica, contribuindo para a criação de um ambiente de medo e instabilidade.

  • Falsa atribuição: um dos elementos mais graves do episódio foi a possibilidade de que os ataques fossem interpretados como ações da esquerda. Investigações posteriores indicaram que atentados praticados pela extrema-direita chegaram a ser atribuídos equivocadamente a organizações esquerdistas, contribuindo para a construção de uma narrativa de ameaça interna.

Assim, o terrorismo atribuído ao grupo de Aladino possuía uma característica particularmente importante: a violência poderia produzir não apenas vítimas e destruição, mas também uma narrativa política sobre quem seria o responsável pelo caos.

3. A estratégia do “Golpe dentro do Golpe” e o AI-5

O grupo de Aladino não deve ser analisado isoladamente. Os documentos e investigações posteriormente reunidos apontam para conexões entre integrantes do grupo, setores da estrutura policial e militar e personagens associados à chamada linha dura do regime.

  • Aquecimento do ambiente: segundo a investigação documental divulgada pela Agência Pública, os atentados podem ser interpretados como parte de uma estratégia destinada a “aquecer” o ambiente político e social, aumentando a percepção de desordem e ameaça.

  • A justificativa para o endurecimento: nesse contexto, a violência política poderia ser apresentada como evidência de que a ordem pública estava ameaçada e de que as instituições existentes seriam insuficientes para controlar a situação.

  • AI-5: em 13 de dezembro de 1968, o governo de Artur da Costa e Silva decretou o Ato Institucional nº 5, que ampliou radicalmente os poderes do Executivo, permitiu o fechamento do Congresso, cassações políticas, suspensão de direitos e restrições severas às garantias constitucionais. O ato tornou-se conhecido como o “golpe dentro do golpe” justamente por representar uma nova e decisiva etapa de fechamento do regime.

  • A ligação com Paulo Trajano: um dos personagens centrais nessa trama foi o general da reserva Paulo Trajano da Silva, apresentado nos documentos como pessoa próxima de Aladino e como possível elo entre o grupo e setores militares. Em depoimento de setembro de 1968, Trajano defendeu o endurecimento do regime e afirmou que o governo deveria aproveitar o momento para acabar com a desordem.

É justamente nesse ponto que surge a hipótese histórica mais controversa e mais significativa: os atentados poderiam não ter sido apenas manifestações espontâneas de extremismo de direita, mas instrumentos de uma estratégia política destinada a criar condições para uma nova ruptura institucional dentro da própria ditadura.

RELATÓRIO COMPLEMENTAR

O “Golpe dentro do Golpe”: uma hipótese de autorradicalização do regime

4. O que significa “golpe dentro do golpe”?

A expressão possui dois sentidos que precisam ser separados.

No sentido mais amplo, o “golpe dentro do golpe” é a denominação utilizada para caracterizar o AI-5 como uma segunda ruptura institucional: o golpe de 1964 havia derrubado o governo constitucional de João Goulart; quatro anos depois, o AI-5 destruiu grande parte dos limites institucionais que ainda restavam dentro do próprio regime instaurado em 1964.

Nesse sentido, não é necessário demonstrar que os atentados de Aladino foram planejados para produzir o AI-5 para compreender a expressão.

Existe, porém, uma segunda hipótese, muito mais específica:

a de que setores da extrema-direita e da linha dura tenham utilizado ações violentas — inclusive atentados atribuídos à esquerda — para produzir ou intensificar a sensação de ameaça necessária ao fechamento do regime.

É essa segunda hipótese que transforma o caso Aladino Félix em algo muito mais importante do que uma simples história de terrorismo de extrema-direita.

5. A lógica política do “inimigo necessário”

A chave para compreender a hipótese está na produção de um inimigo político.

Uma ditadura necessita justificar permanentemente a excepcionalidade de seus mecanismos de repressão. Quando a ameaça diminui, surge uma contradição: por que manter poderes extraordinários?

A produção de atentados permite inverter essa lógica:

violência → medo → identificação do inimigo → pressão por segurança → fortalecimento dos setores radicais → ampliação dos poderes de exceção.

Se, além disso, a autoria dos ataques puder ser atribuída ao adversário político, a operação adquire uma segunda função:

o próprio atentado passa a servir como propaganda política.

No caso estudado, essa hipótese ganha relevância porque as investigações posteriores indicaram que integrantes da extrema-direita praticaram atentados que poderiam ser interpretados como ações da esquerda.

Isso cria uma situação particularmente perversa: o grupo que produz a ameaça pode, simultaneamente, beneficiar-se politicamente da ameaça que produziu.

6. Aladino Félix como operador intermediário

Aladino ocupa uma posição singular nessa estrutura.

Ele não era um general, não comandava formalmente o aparelho de Estado e tampouco representava institucionalmente as Forças Armadas.

Era, entretanto, um personagem capaz de transitar entre diferentes universos:

esoterismo → messianismo → anticomunismo → conspiração → extrema-direita → ação paramilitar.

Sua importância histórica pode estar justamente nessa posição intermediária.

De um lado, existia uma organização informal de militantes e policiais que acreditavam em sua liderança. De outro, aparecem nos documentos personagens militares que mantinham contato com ele.

O historiador Daniel Faria observa que os documentos e relatórios analisados apresentam fortes indícios de que o grupo era conhecido por autoridades e que havia relações entre seus integrantes e setores do governo. O autor, porém, também trata criticamente a própria narrativa produzida pelos documentos, evitando transformar automaticamente indícios em prova de uma cadeia de comando completa.

Essa distinção é fundamental.

Uma coisa é demonstrar que havia contatos, conhecimento ou proteção. Outra, muito mais forte, é provar que Costa e Silva ou a cúpula do governo ordenaram diretamente os atentados.

A documentação disponível sustenta a primeira questão com muito mais segurança do que a segunda.

7. O papel de Paulo Trajano

O general Paulo Trajano da Silva aparece como uma peça particularmente importante.

Segundo os documentos analisados nas investigações, Trajano tinha relação pessoal com Aladino e atuava como possível elo entre o grupo e setores militares. O próprio Trajano, em depoimento de setembro de 1968, defendeu o aproveitamento político da situação para endurecer o regime.

Há ainda um elemento posterior particularmente revelador.

Quando o caso chegou à Justiça Militar, o tratamento dispensado aos envolvidos tornou-se objeto de forte controvérsia. A Agência Pública, com base nos documentos do processo, relata que o Superior Tribunal Militar posteriormente absolveu os demais acusados e reduziu a pena de Aladino para oito meses, desconsiderando na condenação os atentados e concentrando a punição no furto de armas.

Isso não prova, por si só, uma operação estatal de terrorismo.

Mas levanta uma pergunta histórica decisiva:

por que um grupo que havia praticado uma série de ações violentas recebeu tratamento tão diferente daquele aplicado aos grupos armados de esquerda?

Essa assimetria é uma das peças que alimentam a hipótese de proteção política ou institucional.

8. O SNI e a importância da documentação posterior

Outro elemento importante são os documentos produzidos posteriormente pelo Serviço Nacional de Informações (SNI).

Segundo a documentação divulgada nas investigações jornalísticas, um relatório do SNI de 1969 registrou suspeitas de que oficiais graduados da Força Pública teriam encoberto a autoria de um atentado contra o quartel da própria corporação. O documento também descrevia integrantes do grupo como participantes de uma estrutura que pretendia ampliar seu acesso ao armamento policial.

Isso possui enorme importância historiográfica.

Se o próprio aparelho de informações do regime posteriormente registrou suspeitas de envolvimento ou proteção de integrantes da corporação, então a narrativa inicial — segundo a qual a violência seria simplesmente obra de inimigos externos ao regime — torna-se muito mais difícil de sustentar.

A questão deixa de ser apenas:

“Quem colocou as bombas?”

E passa a ser:

“Quem sabia que as bombas estavam sendo colocadas, quem permitiu que isso continuasse e quem se beneficiou politicamente da interpretação desses atentados?”

Essa segunda pergunta é central para compreender o “golpe dentro do golpe”.

9. A hipótese do “autogolpe”

O termo “autogolpe” deve ser utilizado com cautela.

Não há base suficiente para afirmar categoricamente que toda a operação tenha sido concebida e comandada diretamente pelo governo como uma conspiração única, perfeitamente coordenada, destinada desde o início a produzir o AI-5.

O que os documentos permitem formular é uma hipótese mais sofisticada:

setores radicais do regime poderiam ter se beneficiado de uma dinâmica de violência política que ajudaram a tolerar, estimular ou proteger, utilizando posteriormente o ambiente criado por essa violência para defender o fechamento institucional.

Nesse modelo, nem todos os participantes precisariam conhecer o objetivo final.

Aladino poderia acreditar em sua própria missão messiânica.

Os policiais poderiam acreditar que estavam defendendo a “Revolução de 1964”.

Militares poderiam enxergar os atentados como instrumentos úteis contra uma suposta conspiração.

E setores da cúpula poderiam utilizar o ambiente de medo para justificar medidas que já desejavam implementar.

Essa hipótese é historicamente mais plausível do que imaginar necessariamente uma conspiração absolutamente centralizada.

10. O elemento mais perturbador: a violência como justificativa para mais violência

O caso Aladino permite visualizar um mecanismo clássico de radicalização autoritária:

  1. Cria-se ou amplifica-se a percepção de ameaça.
  2. A sociedade passa a exigir segurança.
  3. O governo apresenta as instituições existentes como insuficientes.
  4. Os setores mais radicais ganham força.
  5. Medidas excepcionais são apresentadas como inevitáveis.
  6. As novas medidas produzem uma estrutura ainda mais repressiva.

O resultado é uma espécie de círculo político:

ameaça → medo → repressão → reação → nova ameaça → mais repressão.

O problema histórico surge quando parte da ameaça inicial não vem do inimigo declarado, mas de grupos que compartilham a mesma orientação ideológica do regime.

É precisamente essa possibilidade que torna os atentados de Aladino Félix relevantes para o estudo do AI-5.

11. O AI-5 não surgiu apenas das bombas

É importante evitar uma explicação monocausal.

O AI-5 não pode ser explicado exclusivamente pelos atentados de Aladino Félix.

Em 1968, o Brasil vivia uma crise política muito mais ampla: mobilização estudantil, greves operárias, conflitos entre governo e oposição, crescimento da repressão, radicalização de setores militares e aumento da tensão política.

Além disso, havia ações armadas de esquerda e outros conflitos que foram utilizados pelo regime em sua justificativa de segurança nacional.

Por isso, a formulação historicamente mais segura é:

Os atentados de extrema-direita associados a Aladino Félix não foram necessariamente a causa única do AI-5; porém, existem fortes indícios de que contribuíram para a construção do ambiente de medo e de desordem utilizado pelos setores favoráveis ao fechamento do regime.

O estudo acadêmico de Daniel Faria coloca justamente a questão nesses termos: os documentos apontam para pressões internas visando ao fechamento do regime e para possíveis relações entre terrorismo, autoridades e a preparação política que desembocaria no AI-5.

12. O paradoxo histórico

O paradoxo é extraordinário:

um grupo de extrema-direita que dizia defender a Revolução de 1964 realizou ações violentas que poderiam ser apresentadas como prova da existência de uma ameaça revolucionária de esquerda.

Em outras palavras, a violência de um setor radical da direita poderia ser incorporada à narrativa oficial de combate à esquerda.

Esse mecanismo permitiria que o regime apresentasse o endurecimento como reação defensiva.

A pergunta fundamental passa então a ser:

o AI-5 foi apenas uma reação a uma sociedade que se radicalizava ou também foi o resultado de uma disputa interna pelo controle e pela direção futura da própria ditadura?

A documentação disponível favorece fortemente a segunda dimensão como elemento explicativo, sem eliminar a primeira.

13. “Golpe dentro do golpe”: uma formulação mais precisa

A expressão pode, portanto, ser entendida em três níveis:

Primeiro golpe — 1964

A derrubada de João Goulart e a ruptura da ordem constitucional.

Segundo golpe — 1968

A vitória dos setores que desejavam eliminar os limites institucionais ainda existentes dentro do próprio regime, culminando no AI-5.

A engrenagem subterrânea

A possibilidade de que atentados, grupos paramilitares, agentes ligados às forças de segurança e setores da linha dura tenham contribuído para criar o ambiente político que tornou esse segundo fechamento possível.

É nesse terceiro nível que a história de Aladino Félix ganha importância excepcional.

14. Conclusão

A história de Aladino Félix não deve ser tratada apenas como uma excentricidade da ufologia brasileira nem como a biografia de um personagem isolado.

Ela revela um ponto de contato entre messianismo, conspiração, extrema-direita, estruturas policiais, setores militares, terrorismo e disputa pelo poder dentro da própria ditadura.

Os documentos reunidos posteriormente indicam que seu grupo esteve envolvido em uma série significativa de atentados em 1968 e que existiam conexões com integrantes das forças de segurança e militares. Também existem indícios de que os ataques foram politicamente úteis para a criação de um ambiente de medo e para a defesa do endurecimento do regime.

Entretanto, uma análise historicamente rigorosa deve distinguir indício, conexão, cumplicidade, proteção institucional e ordem direta. A documentação é suficientemente forte para sustentar uma investigação sobre a relação entre os atentados da extrema-direita e o processo de fechamento político de 1968; é mais difícil, porém, demonstrar uma cadeia de comando direta que partisse da cúpula do governo e chegasse aos autores de cada atentado.

É justamente essa zona entre o que está comprovado, o que é fortemente indicado pelos documentos e o que permanece como hipótese que torna o episódio tão importante.

O verdadeiro significado do “Golpe dentro do Golpe” pode não estar apenas no decreto do AI-5 de 13 de dezembro de 1968, mas no processo anterior pelo qual o medo foi transformado em instrumento político, a violência em argumento de autoridade e a crise em justificativa para destruir os últimos limites institucionais do regime.

Nesse sentido, Aladino Félix aparece como uma peça de uma engrenagem muito maior: um personagem situado na fronteira entre o delírio messiânico e a ação política, entre o terrorismo privado e as estruturas de segurança, e entre a iniciativa individual e uma possível estratégia de setores interessados na radicalização da ditadura.

A questão histórica decisiva permanece, portanto:

até que ponto os atentados foram apenas ações de um grupo extremista que pretendia agradar à linha dura — e até que ponto foram tolerados, instrumentalizados ou incorporados por setores do próprio Estado como parte da preparação para o “golpe dentro do golpe”?

Essa pergunta não está completamente encerrada. Mas os documentos hoje disponíveis tornam impossível analisar o AI-5 apenas pela narrativa simplificada de que o regime simplesmente reagiu, de maneira espontânea e inevitável, à violência de seus adversários.


Fontes principais para aprofundamento

  • Daniel Faria, “A história de uma história: terrorismo extraterrestre a favor do governo, Brasil 1968”, História da Historiografia, v. 12, n. 31, 2019. O artigo examina documentos, relatórios militares e notícias sobre Aladino Félix e discute precisamente a relação entre terrorismo, política e fechamento do regime.

  • Agência Pública, “Atentados de direita fomentaram AI-5”, investigação baseada em depoimentos, relatórios oficiais e documentos processuais.

  • UOL/Agência Pública, documentação sobre Aladino Félix, Paulo Trajano e o tratamento dado ao grupo pela Justiça Militar.

  • Instituto Humanitas Unisinos, síntese documental sobre os atentados de direita e a hipótese de preparação do “golpe dentro do golpe”.

  • Associação Brasileira de Imprensa, retrospectiva sobre o AI-5 de 13 de dezembro de 1968 e sua caracterização como “golpe dentro do golpe”.

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