DE USP A YALE — BUCHA, SKULL AND BONES, PROJETO JANUS E AS DUAS FACES DO PODER

 






Júlio Frank, Cel. Golbery e a hipótese de redes de elite atravessando universidades, partidos e gerações políticas



INTRODUÇÃO

DUAS FACES DO MESMO PODER? — ESQUERDA, DIREITA E O TEATRO DA ALTERNÂNCIA POLÍTICA

Existe uma pergunta que atravessa a história política moderna e que, de tempos em tempos, reaparece sob diferentes nomes:

até que ponto aquilo que chamamos de disputa política representa uma verdadeira disputa pelo poder — e até que ponto representa apenas uma disputa pelo direito de administrar um sistema de poder que já existia antes dos partidos, dos candidatos e das eleições?

Esta pergunta não nasceu nas redes sociais, nem pertence exclusivamente às chamadas teorias conspiratórias contemporâneas.

Muito antes de existir a atual polarização entre esquerda e direita, autores já questionavam a capacidade das organizações políticas de permanecerem fiéis aos princípios que proclamavam.

Em 1911, o sociólogo alemão-italiano Robert Michels publicou Political Parties, obra que se tornaria um clássico da ciência política. Estudando organizações políticas que se apresentavam como democráticas e igualitárias, inclusive partidos socialistas, Michels identificou aquilo que chamou de “lei de ferro da oligarquia”: à medida que uma organização cresce, especializa-se e se burocratiza, o poder tende a concentrar-se nas mãos de uma minoria dirigente. �

Wikipedia +1

A conclusão de Michels era desconfortável.

Uma organização pode nascer prometendo representar a maioria e, com o passar do tempo, desenvolver uma classe dirigente própria.

Ou seja:

a bandeira pode mudar; a estrutura de poder pode permanecer.

Décadas depois, nos Estados Unidos, o sociólogo C. Wright Mills aprofundaria uma questão semelhante em The Power Elite, publicado em 1956. Mills não descreveu simplesmente uma conspiração secreta. Sua preocupação era estrutural: a existência de uma elite situada nas posições superiores das instituições políticas, econômicas e militares americanas e a crescente interpenetração desses três mundos. Para ele, a existência formal de eleições e partidos não significava necessariamente que todas as decisões fundamentais estivessem igualmente abertas à influência da população. �

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E aqui começa a surgir uma questão particularmente interessante para a investigação que estamos desenvolvendo.

Se existem elites econômicas, militares, jurídicas, acadêmicas e políticas que atravessam diferentes governos, partidos e administrações, será que a alternância eleitoral necessariamente significa alternância completa do poder?

Ou será que existe uma diferença entre:

mudar o governo

e

mudar a estrutura que produz o governo?

Essa distinção é fundamental.

A pergunta americana

Nos Estados Unidos, a pergunta assume uma forma particularmente visível.

Democratas e Republicanos disputam eleições há gerações.

Alternam-se na Presidência.

Controlam diferentes períodos do Congresso.

Defendem posições diferentes em inúmeras questões.

Possuem bases eleitorais diferentes.

E, portanto, não são partidos idênticos.

Seria historicamente incorreto afirmar simplesmente que não existem diferenças reais entre eles.

Mas isso não encerra a questão.

A pergunta mais profunda seria:

Quais são os limites dentro dos quais Democratas e Republicanos podem efetivamente disputar o poder?

Essa pergunta já apareceu, sob diferentes formas, na literatura política americana.

Em 1968, o jornalista e crítico político I. F. Stone escreveu sobre o sistema bipartidário americano observando que, em determinados períodos, as diferenças entre Democratas e Republicanos podiam parecer muito menos fundamentais do que a retórica eleitoral fazia acreditar. Stone chegou a caracterizar ambos, naquele contexto histórico, como partidos inseridos na defesa da propriedade privada, embora divergissem quanto à forma e ao grau de sua atuação. �

The New York Review of Books

Não se trata, portanto, de afirmar que Democratas e Republicanos são literalmente a mesma organização.

A questão é outra:

podem duas forças que se apresentam como adversárias permanecer simultaneamente dentro de determinados limites estruturais que nenhuma delas pretende ultrapassar?

Essa é uma pergunta muito mais difícil.

E muito mais interessante.

O TEATRO NÃO PRECISA SIGNIFICAR QUE TUDO É FALSO

É importante esclarecer o significado da palavra “teatro” utilizada nesta investigação.

Quando falamos em “teatro político”, não estamos necessariamente afirmando que todas as eleições são falsas, que todos os candidatos são atores ou que ninguém acredita naquilo que defende.

O teatro pode existir em outro nível.

Os atores podem ser reais.

As disputas podem ser reais.

As paixões populares podem ser reais.

As eleições podem ser reais.

Os resultados podem ser reais.

Mas o palco pode possuir limites.

E esses limites podem ser determinados por estruturas econômicas, institucionais, jurídicas, militares, midiáticas e financeiras que sobrevivem à troca dos governos.

É justamente nesse ponto que a hipótese das elites permanentes começa a encontrar a literatura sociológica.

DA ESQUERDA E DIREITA À “ELITE PERMANENTE”

A hipótese que orienta esta matéria nasceu, no meu caso, de uma observação.

Ao estudar diferentes países, diferentes períodos históricos e diferentes grupos políticos, surge uma impressão recorrente:

os nomes mudam.

as bandeiras mudam.

os discursos mudam.

os partidos mudam.

os candidatos mudam.

mas determinadas redes de poder parecem sobreviver.

Nos Estados Unidos:

Democratas ↔ Republicanos.

No Reino Unido:

Conservadores ↔ Trabalhistas.

Na França:

direita ↔ esquerda ↔ centro.

Na Itália:

diferentes coalizões e rearranjos partidários.

Na América Latina:

esquerda ↔ centro ↔ direita.

No Brasil:

PT ↔ PSDB ↔ bolsonarismo ↔ lulismo ↔ centro ↔ direita ↔ esquerda.

As nomenclaturas mudam conforme a época.

Mas a pergunta permanece:

Quem permanece quando todos os governos mudam?

BRASIL: UMA PERGUNTA AINDA MAIS COMPLEXA

No Brasil, essa questão ganha uma dimensão particularmente interessante quando colocamos lado a lado universidades, sociedades seletivas, elites econômicas, Forças Armadas, magistratura, burocracia estatal, partidos políticos e grandes grupos empresariais.

É justamente nesse ponto que a investigação sobre a Bucha, a tradição das sociedades universitárias seletivas e a hipótese do Projeto Janus se conecta à investigação internacional.

Porque, se determinadas elites conseguem identificar jovens promissores dentro das universidades e construir redes que acompanham suas trajetórias profissionais, então a questão deixa de ser exclusivamente partidária.

Ela passa a ser:

quem forma as futuras elites?

Quem seleciona os futuros:

magistrados?

militares?

empresários?

acadêmicos?

jornalistas?

diplomatas?

políticos?

ministros?

dirigentes de grandes instituições?

E, sobretudo:

essas redes desaparecem quando seus membros entram em partidos diferentes?

Ou continuam funcionando apesar da mudança das bandeiras?

O PROBLEMA DA DUALIDADE

É nesse momento que o símbolo de Janus, o deus romano de duas faces, torna-se uma metáfora particularmente poderosa.

Uma face olha para um lado.

A outra olha para o lado oposto.

Uma poderia representar:

esquerda.

A outra:

direita.

Uma:

oposição.

A outra:

governo.

Uma:

Democratas.

A outra:

Republicanos.

Mas ambas pertencem à mesma cabeça.

É exatamente aqui que nossa investigação precisa ser cuidadosa.

Janus é uma metáfora; não é, por si só, uma prova de que uma organização criou artificialmente dois campos políticos.

A hipótese precisa ser investigada através de documentos, biografias, vínculos institucionais, financiamento, sociedades universitárias, nomeações, redes profissionais e trajetórias individuais.

A MINHA HIPÓTESE NÃO NASCEU DOS LIVROS — MAS OS LIVROS ME FIZERAM RECONHECER O PADRÃO

É aqui que entra uma diferença importante entre esta investigação e simplesmente repetir uma teoria encontrada em algum livro.

Eu não parti da conclusão.

Parti da observação.

Ao comparar acontecimentos, instituições, personagens e redes de poder, encontrei interpretações semelhantes em autores que haviam chegado a conclusões próprias décadas ou até mais de um século antes.

Michels havia observado a tendência oligárquica dentro dos partidos.

Mills havia estudado a convergência entre poder político, econômico e militar.

I. F. Stone havia questionado as diferenças fundamentais entre os dois grandes partidos americanos em determinados contextos.

Herman e Chomsky analisaram posteriormente como estruturas econômicas e midiáticas poderiam moldar o campo de debate político sem necessidade de censura direta ou de uma conspiração central. �

Wikipedia

E outros autores, de diferentes tradições intelectuais, investigaram a reprodução das elites, a concentração do poder e a capacidade das instituições de limitar ou ampliar a democracia.

Ao encontrar essas obras, a impressão foi de reconhecimento.

A observação havia chegado a uma pergunta semelhante à que outros pesquisadores já haviam formulado.

Isso não significa que todos esses autores defendam a mesma teoria.

Não defendem.

Michels não é Mills.

Mills não é Chomsky.

Stone não é Michels.

E nenhum deles, por si só, prova a hipótese de uma organização secreta controlando simultaneamente esquerda e direita.

Mas existe uma família de perguntas que aproxima essas obras:

Quem realmente toma as decisões?

Quem possui acesso às decisões?

Quem consegue sobreviver à alternância dos governos?

Quem forma os futuros dirigentes?

E até onde a competição entre partidos modifica efetivamente a estrutura do poder?

A GRANDE QUESTÃO DESTA MATÉRIA

É justamente essa pergunta que conduz o relatório que vem a seguir.

Não pretendemos começar dizendo:

“a esquerda e a direita são uma fraude.”

Pretendemos investigar uma hipótese mais precisa:

será que sistemas políticos aparentemente polarizados podem, ao mesmo tempo, preservar redes de poder relativamente estáveis que atravessam partidos, governos, gerações e até diferentes regimes ideológicos?

Para responder, precisamos sair do discurso eleitoral.

Precisamos olhar para trás.

Para as universidades.

Para as sociedades secretas.

Para as fraternidades.

Para os clubes de elite.

Para as famílias.

Para as redes profissionais.

Para os militares.

Para os tribunais.

Para os grandes grupos econômicos.

Para os meios de comunicação.

Para os financiadores.

Para as fundações.

Para as relações entre antigos colegas.

E, principalmente:

para as pessoas que permanecem quando o governo muda.

DE YALE À BUCHA

É por isso que a investigação sobre a Bucha brasileira não deve ser isolada.

Ela precisa ser comparada com a experiência americana.

Yale oferece um caso particularmente interessante porque sociedades seletivas como a Skull and Bones recrutavam estudantes considerados promissores e, posteriormente, alguns de seus membros alcançaram posições extraordinariamente importantes na política, nas empresas e em outras instituições americanas.

Mas isso, por si só, não demonstra controle político.

Pode significar simplesmente que uma sociedade extremamente seletiva recrutava jovens que já pertenciam à elite e que, naturalmente, muitos deles alcançariam posições importantes.

A questão verdadeiramente investigativa é outra:

a rede acrescentava alguma coisa à trajetória desses indivíduos?

E essa mesma pergunta pode ser aplicada à Bucha.

A HIPÓTESE DAS DUAS APOSTAS

E finalmente chegamos à hipótese que será examinada nos próximos capítulos.

Imagine uma organização que não queira depender de um único partido.

Ela poderia acompanhar:

a esquerda e a direita.

Não necessariamente porque acreditasse nas duas.

Mas porque não saberia qual delas venceria amanhã.

Poderia acompanhar:

o jovem estudante e o magistrado já estabelecido.

o militar promissor e o general consolidado.

o jovem empresário e o grande banqueiro.

o candidato e o ministro.

o professor e o futuro dirigente.

Em outras palavras:

em vez de apostar em um único futuro, acompanhar todas as possibilidades de futuro.

Se essa hipótese fosse verdadeira, o poder não estaria necessariamente em escolher quem vence.

Estaria em não perder o acesso a nenhum dos possíveis vencedores.

E talvez seja justamente aí que a comparação entre Brasil, Estados Unidos e Europa se torne mais reveladora.

Porque, se estruturas semelhantes de seleção, fraternidade, recrutamento de elites e redes de antigos membros aparecem em sociedades diferentes, podemos estar diante não de uma única conspiração mundial, mas de algo historicamente mais profundo:

a tendência das elites de criar mecanismos para reproduzir a si mesmas.

Essa é a hipótese que esta matéria pretende investigar.

Não para provar antecipadamente uma conspiração.

Mas para descobrir até onde os documentos permitem chegar.

E talvez, ao final, a pergunta mais importante não seja:

“ESQUERDA OU DIREITA?”

Mas sim:

“QUEM PERMANECE NO PODER QUANDO ESQUERDA E DIREITA SE ALTERNAM?”

E, principalmente:

“QUEM ESTÁ FORMANDO, SELECIONANDO E CONECTANDO AS PESSOAS QUE PODERÃO GOVERNAR AMANHÃ?”

É a partir dessas perguntas que começa nossa investigação sobre **Bucha, E.S.P.A.R.T.A., Janus, Skull and Bones, universidades de elite, redes de poder e a reprodução das elites políticas no Brasil, nos Estados Unidos e na Europa.**


O PROJETO JANUS, A BUCHA E AS DUAS FACES DO PODER NO BRASIL

Introdução

Eis aqui um pequeno exemplo de poder:

Imaginemos que sois o novo rei de um país e desejais ter a segurança de continuar sendo. Então, convocais separadamente duas pessoas das quais tendes a certeza de que elas farão o que lhes disserdes. Para uma, dareis diretrizes “de esquerda” e a financiareis para que ela possa criar um partido.

Com a outra, agireis da mesma forma, fazendo-a criar um partido “de direita”.

Acabais de dar vida a dois partidos de oposição, financiais a propaganda, os votos, as ações e estais exatamente a par de seus mínimos planos. O que significa que controlais os dois. Para que um partido tenha vantagem sobre o outro, só tendes de lhe dar mais dinheiro. Os dois chefes de partido creem ter-vos a seu lado, e sois, assim, “amigo” dos dois.

O povo é, dessa forma, preso nesse vai-e-vem entre “esquerda” e “direita” e sequer pode imaginar que, como rei, podeis ser a origem da dissensão. O povo até vai pedir-vos auxílio e conselho.

A hipótese é simples: o governante não precisa eliminar a oposição se conseguir produzir, financiar ou controlar as duas alternativas que serão apresentadas ao povo. Na hora das eleições, bastaria alterar a distribuição dos recursos, apoios e condições de campanha para determinar qual dos dois lados teria vantagem. Dessa maneira, o eleitor acreditaria estar escolhendo entre duas forças independentes, enquanto ambas poderiam, em tese, servir aos interesses de uma mesma estrutura de poder.

É precisamente essa imagem — duas faces aparentando oposição, mas pertencentes a uma mesma estrutura — que será utilizada nesta investigação como chave simbólica para examinar o chamado Projeto Janus, a E.S.P.A.R.T.A., a Bucha e a formação das elites políticas brasileiras.


Golbery seria o idealizador do Projeto Janus?

Dizem que FHC pertencia a uma sociedade secreta chamada Burschenschaft. Na USP também existia essa sociedade secreta chamada E.S.P.A.R.T.A. Dizem também que o único brasileiro a participar do Grupo Bilderberg é FHC.

FHC era socialista e discípulo de Florestan Fernandes. Lula chegou a fazer campanha para ele pelo PMDB. Como ele tinha o melhor perfil e era de família de militares, foi destacado para tocar o lado direitista do Janus.

Milton Santos, nessa palestra, entre muitas outras coisas, disse assim, meio com ironia, quase como se estivesse brincando, que naquela época, na América Latina e nos demais países emergentes do mundo — Ásia, África e Leste Europeu — os presidentes eram TODOS marionetes do império e que, como biografia comum, tinham em seu passado, em algum ponto de sua vida acadêmica, uma bolsa da Fundação Ford.

Uma das entidades que financiam o Instituto Fernando Henrique Cardoso é a Fundação Ford, mantenedora do CFR.

Parece que FHC também foi membro de uma sociedade secreta na USP, a E.S.P.A.R.T.A., uma sociedade parecida com a Skull and Bones, fundada em 1956.

Sobre a E.S.P.A.R.T.A., dizem que a mesma é herdeira da “Bucha” (Burschenschaft), sociedade secreta da Faculdade de Direito da USP.

A E.S.P.A.R.T.A. funcionava — ou ainda funciona — na Faculdade de Ciências Sociais e teve entre seus membros políticos fundadores do PT e do PSDB.

Pessoas que reconhecidamente fizeram parte da E.S.P.A.R.T.A.:

  • Perseu Abramo (fundador do PT);
  • Florestan Fernandes (fundador do PT);
  • Fernando Henrique Cardoso (fundador do PSDB).

O projeto de poder deles se chamava Janus.

Janus era o deus de duas faces dos romanos. No contexto da Guerra Fria, a E.S.P.A.R.T.A. se preparava para dois cenários: um socialista e outro capitalista. Resolveu, então, criar duas elites, garantindo que seus interesses sobreviveriam em qualquer regime.


Burschenschaft e Bucha

“Burschenschaft” significa conjunto de “Burschen”. No singular, a palavra é “Bursche” (“menino”, “rapaz”); “Burschenschaft” seria uma forma tradicional de corporação estudantil, uma liga de estudantes.

A Burschenschaft Paulista, ou Bucha, foi uma sociedade secreta, liberal e filantrópica que defendia ideias liberais e republicanas. Consta que a “Bucha” funcionou por muitos decênios e que congregou uma série de políticos e intelectuais.

Seu êxito inspirou a criação da Tugendbund na Faculdade de Direito do Recife; da Landsmannschaft, na Escola Politécnica de São Paulo; e da Jugendschaft, na Faculdade de Medicina de São Paulo.

Dentre os 133 participantes da Convenção de Itu, em 1873, que resultou na criação do Partido Republicano Paulista, predominavam bucheiros, membros da Bucha.

Dos presidentes civis da República Velha, apenas Epitácio Pessoa não foi membro da Bucha.

Em síntese, a Bucha funcionou como as fraternidades secretas Phi Beta Kappa e Skull & Bones, da Yale University, nos Estados Unidos. E, segundo alguns autores, também se relacionou com diversas lojas maçônicas.


Júlio Frank

Em 1831, surgiu em São Paulo a Bucha, uma “confraria de camaradas” criada pelo professor alemão Johann Julius Gottfried Ludwig Frank, conhecido por Júlio Frank, da Faculdade de Direito do Largo São Francisco.

A origem de Júlio Frank até hoje é mantida sob o mais reservado segredo. Sabe-se que ele chegou ao Brasil clandestinamente em 1821.

Alguns historiadores o identificam como o estudante Karl Ludwig Sand, que, na Alemanha, fora condenado à morte por assassinato político em 1820 e, por influência das sociedades secretas alemãs, outra pessoa teria sido executada em seu lugar. Daí sua clandestinidade.

Em seus primeiros anos no Brasil, Frank viveu como professor de línguas em Sorocaba, área de influência do senador Vergueiro, fundador de Rio Claro e Limeira. Natural de Portugal e um dos primeiros advogados do Brasil, na época Vergueiro era diretor da Faculdade de Direito de São Paulo, para a qual contratou Júlio Frank como professor de Filosofia e História.

O principal objetivo da Bucha era ajudar os estudantes pobres que frequentavam o curso de Direito e promover encontros e debates literários, seguindo o modelo da Burschenschaft alemã. Usava o Centro Acadêmico XI de Agosto da faculdade como fachada.

Burschenschaft significa confraria de camaradas.

Frank trouxe a tradição das sociedades secretas da Alemanha, e todas as ações da Bucha deveriam ocorrer sob o mais rigoroso sigilo. Só ingressavam na Bucha alunos escolhidos pelos seus integrantes, de acordo com os méritos morais e intelectuais que demonstravam.

Ao longo dos anos, a Bucha tornou-se uma das mais poderosas sociedades secretas do país, à medida que seus membros alcançavam os principais postos governamentais, tanto no Império como na República.

Entre eles estavam Rui Barbosa, Barão do Rio Branco, Afonso Pena, Prudente de Morais, Campos Sales, Rodrigues Alves, Washington Luís, Júlio Mesquita Filho, Cândido Mota, Arthur Bernardes, Álvares de Azevedo e Castro Alves.

Além da Bucha, rumores sugeriam a existência de outras fraternidades em faculdades tradicionais que surgiram com a aura de sociedades secretas, como a Landsmannschaft, na Escola Politécnica de São Paulo; a Tugendbund, na Faculdade de Direito de Olinda/Recife; e a Jugendschaft, na Faculdade de Medicina de São Paulo.


A estrutura da Bucha

Notícia publicada na edição de 12/05/2013 do Jornal Cruzeiro do Sul, na página 2 do caderno A — o conteúdo da edição impressa na internet é atualizado diariamente após as 12h.

A Bucha tinha uma estrutura bem definida e funcionava sob a liderança de um “chaveiro” (líder/grão-mestre), apoiado por um “Conselho de Apóstolos” e um “Conselho dos Invisíveis”.

O ritual de admissão de um candidato era como o de um clube fechado. Para o ingresso na sociedade, era necessário que a admissão fosse proposta por outros membros e, uma vez aceito, o novo “bucheiro” deveria pagar mensalidades proporcionais à sua hierarquia.

A hierarquia, começando do nível mais baixo, estruturava-se em “catecúmenos”, “crentes” e “apóstolos” — estes, no total de 12, considerados os membros mais importantes.

O “bucheiro” iniciado deveria fazer o seguinte juramento:

“Juro pela minha honra jamais revelar a quem quer que seja o que me vai ser confiado hoje. Serei o mais infame dos homens se faltar a esse meu juramento.”


Gustavo Barroso e a denúncia contra a Bucha

Na década de 1930, o historiador integralista-católico Gustavo Barroso fez uma denúncia contra a Bucha, acusando-a de satanismo, numa campanha tumultuada.

Seus críticos costumam dizer que Barroso agiu assim para ganhar espaço político. Seria sua pretensão conquistar o primeiro posto no integralismo, ocupado por Plínio Salgado. Gustavo Barroso era apenas o segundo nome do partido.

Apesar de pressionado, Plínio Salgado conseguiu driblar as teses racistas e extremistas de Barroso, que historicamente acabaram vencidas.

A polêmica foi gerada em torno da denúncia de Barroso de que a sociedade adorava a figura alquímica de Baphomet.

Durante a República Velha, a Bucha se mostrou uma das sociedades com maior influência dentro do contexto nacional, de tal forma que Getúlio Vargas, uma vez, teria confessado a Ademar de Barros:

“Não se pode governar o Brasil sem esta gente.”



RELATÓRIO COMPLEMENTAR

UNIVERSIDADES, SOCIEDADES SECRETAS E A REPRODUÇÃO DAS ELITES

Brasil, Estados Unidos e Europa


Introdução — E se o verdadeiro objetivo não fosse controlar o estudante, mas identificar o futuro dirigente?

Existe uma hipótese recorrente na história das sociedades secretas e semissecretas:

algumas organizações não precisariam colocar imediatamente pessoas no poder; bastaria identificar, ainda na juventude, aqueles que provavelmente chegariam ao poder e construir com eles uma relação que pudesse durar décadas.

O mecanismo seria relativamente simples.

Uma universidade reúne jovens de diferentes famílias, classes sociais e regiões.

Entre milhares de estudantes, alguns demonstram características particularmente valorizadas:

  • inteligência;
  • capacidade de liderança;
  • ambição;
  • capacidade de organização;
  • facilidade de comunicação;
  • talento acadêmico;
  • habilidade política;
  • influência social;
  • capacidade empresarial;
  • contatos familiares;
  • liderança esportiva;
  • liderança estudantil;
  • capacidade militar;
  • potencial para ocupar cargos públicos.

Uma organização seletiva poderia então escolher alguns deles.

Não necessariamente para transformá-los em agentes conscientes de uma conspiração.

Poderia simplesmente estabelecer:

confiança + amizade + segredo + reciprocidade + contatos + oportunidades.

Décadas depois, alguns desses estudantes poderiam tornar-se:

juízes, promotores, procuradores, delegados, militares, empresários, banqueiros, jornalistas, professores, ministros, parlamentares, governadores ou presidentes.

Nesse momento, a organização já não precisaria recrutar pessoas.

Ela teria antigos membros espalhados pelas instituições.

É exatamente essa hipótese que este relatório pretende investigar comparativamente.


CAPÍTULO 1 — A UNIVERSIDADE COMO FÁBRICA DE ELITES

A universidade moderna não é apenas um lugar onde se transmite conhecimento.

Historicamente, determinadas universidades também funcionaram como espaços de formação das elites dirigentes.

Isso é particularmente evidente no caso das universidades tradicionais britânicas e norte-americanas.

Durante muito tempo, universidades como Oxford, Cambridge, Harvard, Yale, Princeton e outras instituições de elite receberam uma parcela desproporcional dos futuros dirigentes políticos, jurídicos, empresariais e acadêmicos.

O fenômeno cria uma oportunidade extraordinária para qualquer organização que queira construir uma rede de longo prazo.

Não é necessário procurar adultos já poderosos.

Pode-se procurar jovens que provavelmente serão poderosos.

É uma diferença fundamental.


CAPÍTULO 2 — O CASO AMERICANO: YALE

Se existe um exemplo que merece ser investigado nesse contexto, é Yale.

A Universidade Yale desenvolveu, ao longo do século XIX, uma estrutura particularmente rica de sociedades estudantis altamente seletivas.

Entre elas estavam:

  • Skull and Bones;
  • Scroll and Key;
  • Wolf's Head;
  • Book and Snake;
  • Berzelius;
  • Elihu.

Uma pesquisa acadêmica sobre as sociedades secretas universitárias norte-americanas observa que Yale chegou a possuir cerca de vinte sociedades secretas em determinados períodos históricos. Algumas eram extremamente seletivas e desenvolviam rituais, espaços próprios e vocabulário interno.

A Skull and Bones foi fundada em 1832.

Ela selecionava tradicionalmente apenas quinze estudantes da turma por ano.

A seleção acontecia quando os estudantes ainda estavam na universidade.

Isso significa que o processo de recrutamento ocorria antes de suas carreiras adultas.

Esse detalhe é fundamental.


CAPÍTULO 3 — “TAP”: O RECRUTAMENTO DOS FUTUROS LÍDERES

O mecanismo pelo qual membros eram selecionados ficou conhecido como “tap”.

Os integrantes da sociedade escolhiam estudantes da geração seguinte.

Segundo estudo publicado no Journal of Medical Biography, entre os estudantes tradicionalmente selecionados estavam:

  • capitães de equipes esportivas;
  • editores do jornal estudantil;
  • presidentes de fraternidades;
  • campeões esportivos;
  • líderes estudantis;
  • estudantes considerados excepcionais.

A descrição é particularmente interessante porque sugere que a seleção não dependia exclusivamente de desempenho acadêmico.

A organização procurava lideranças reconhecidas dentro da própria universidade.

Isso se aproxima bastante da hipótese que estamos investigando.

O modelo seria:

identificar liderança → selecionar → integrar → construir vínculos → preservar a rede.


CAPÍTULO 4 — O “EXPERIMENTO” NATURAL DE YALE

Aqui surge uma questão estatística extraordinariamente interessante.

Se uma universidade já seleciona estudantes de alto desempenho, é natural que muitos deles se tornem pessoas importantes posteriormente.

Portanto, simplesmente constatar:

“Muitos membros da Skull and Bones ficaram poderosos”

não prova que a sociedade tenha causado esse poder.

Esse é o primeiro grande problema metodológico.

Yale já selecionava pessoas destinadas a ocupar posições privilegiadas.

A Skull and Bones, por sua vez, selecionava os indivíduos considerados particularmente promissores dentro daquele universo.

Assim, pode existir uma dupla seleção:

elite social → Yale → sociedade seletiva → elite adulta.

A questão científica passa a ser:

o grupo apenas identificava pessoas que já seriam poderosas ou acrescentava uma vantagem adicional por meio da rede de relações?

Essa é uma pergunta muito mais interessante do que simplesmente perguntar se a sociedade “controlava” alguma coisa.


CAPÍTULO 5 — A LISTA DOS “BONESMEN”

A documentação pública sobre a Skull and Bones mostra que seus membros incluíram pessoas que posteriormente ocuparam posições de grande importância.

Entre os nomes conhecidos estão:

  • William Howard Taft;
  • George H. W. Bush;
  • George W. Bush;
  • John Kerry;
  • Prescott Bush;
  • Averell Harriman;
  • Henry Luce;
  • Archibald MacLeish;
  • membros das famílias Rockefeller, Vanderbilt, Ford, Phelps, Pillsbury, Walker e Whitney.

O estudo publicado pelo Journal of Medical Biography destaca a presença de integrantes da Skull and Bones em importantes círculos políticos, acadêmicos e institucionais dos Estados Unidos.

Esse fato não é controverso.

A interpretação é.


CAPÍTULO 6 — DE ESTUDANTE A PRESIDENTE

O caso dos presidentes americanos é particularmente impressionante.

Três graduados de Yale que chegaram à presidência dos Estados Unidos foram membros da Skull and Bones:

William Howard Taft
George H. W. Bush
George W. Bush.

Isso não significa que Skull and Bones tenha escolhido esses presidentes.

Eles chegaram à política por caminhos complexos, envolvendo:

  • família;
  • dinheiro;
  • educação;
  • Partido Republicano;
  • redes empresariais;
  • carreira pública;
  • circunstâncias históricas;
  • eleições.

Mas a coincidência é suficientemente extraordinária para justificar investigação.


CAPÍTULO 7 — A TEORIA DA “REDE DE ANTIGOS”

É aqui que aparece uma das interpretações mais interessantes.

A organização poderia ter uma função que vai muito além da universidade.

O verdadeiro patrimônio da sociedade não seria o estudante.

Seria o ex-estudante.

Imagine uma organização que, ao longo de cem anos, consiga estabelecer relações entre:

  • empresários;
  • advogados;
  • juízes;
  • militares;
  • banqueiros;
  • jornalistas;
  • professores;
  • políticos;
  • funcionários públicos;
  • diplomatas;
  • dirigentes universitários.

O poder não estaria necessariamente em uma ordem central.

Estaria na rede.

Um antigo colega poderia telefonar para outro.

Um advogado conheceria um juiz.

Um político conheceria um empresário.

Um empresário conheceria um banqueiro.

Um professor conheceria um futuro ministro.

Um militar conheceria outro militar.

E assim sucessivamente.

Nenhuma ordem explícita seria necessária.


CAPÍTULO 8 — A HIPÓTESE MAIS SOFISTICADA: PODER SEM COMANDO

Essa talvez seja a principal conclusão que emerge da comparação internacional.

Uma rede de elite não precisa funcionar como uma organização militar.

Não precisa necessariamente existir uma sala onde alguém diga:

“Faça isso.”

O sistema pode funcionar por:

confiança.

reciprocidade.

reputação.

amizade.

interesses compartilhados.

memória institucional.

favores acumulados.

acesso privilegiado.

Esse mecanismo é muito mais difícil de detectar.

E também é muito mais plausível sociologicamente.


CAPÍTULO 9 — O ESTUDO ACADÊMICO SOBRE YALE E JOHNS HOPKINS

Uma fonte particularmente interessante é o estudo histórico sobre Yale, Skull and Bones e a criação da Johns Hopkins.

O autor observa que Daniel Coit Gilman e William Henry Welch, figuras centrais na construção da Johns Hopkins, pertenciam a sociedades secretas de Yale.

O estudo argumenta que a importância dessas redes não deveria ser simplesmente ignorada porque as organizações eram secretas.

O autor chega a relacionar as sociedades a antigos “old-boy networks” — redes de antigos colegas capazes de influenciar trajetórias profissionais.

Esse conceito é fundamental para nosso relatório.

Porque ele desloca a discussão:

de “conspiração” para “rede”.


CAPÍTULO 10 — A REDE PODE IR MUITO ALÉM DA UNIVERSIDADE

Agora podemos avançar para a hipótese solicitada.

Suponhamos que uma organização tivesse interesse em preservar influência por várias décadas.

Ela poderia ter dois níveis de atuação.

Primeiro nível — recrutamento universitário

Selecionar:

  • estudantes;
  • atletas;
  • líderes estudantis;
  • jovens intelectuais;
  • filhos de famílias influentes;
  • estudantes com grande potencial profissional.

Segundo nível — integração de adultos já estabelecidos

A organização poderia manter relações com:

  • juízes;
  • promotores;
  • delegados;
  • militares;
  • empresários;
  • banqueiros;
  • jornalistas;
  • políticos;
  • diplomatas;
  • professores;
  • altos funcionários públicos.

Nesse modelo, a universidade seria apenas uma das portas de entrada.


CAPÍTULO 11 — O PONTO MAIS IMPORTANTE: RECRUTAR QUEM JÁ ESTÁ NO PODER

Essa hipótese é ainda mais interessante.

Imagine uma organização que não dependa exclusivamente de universidades.

Ela poderia identificar pessoas que já chegaram a posições estratégicas.

Um delegado promissor.

Um juiz influente.

Um oficial militar respeitado.

Um empresário poderoso.

Um parlamentar em ascensão.

Um jornalista capaz de moldar opinião.

Um burocrata com acesso a informações.

Nesse caso, a organização não estaria apenas criando uma elite.

Estaria mapeando a elite existente.

E poderia construir relações com ambos:

quem provavelmente chegará ao poder

e

quem já está no poder.


CAPÍTULO 12 — “ESTUDAR TODAS AS PROBABILIDADES”

Essa formulação do problema é particularmente interessante.

Imagine uma organização que não saiba quem será o próximo presidente.

Em vez de apostar tudo em um único candidato, poderia cultivar relações com diferentes setores.

Não precisaria necessariamente apoiar todos eleitoralmente.

Bastaria manter canais de comunicação.

O resultado seria uma espécie de:

“diversificação política”.

No mundo financeiro, diversificar reduz risco.

Aplicada à política, a lógica seria:

não apostar tudo em uma única ideologia.

Isso nos leva novamente ao símbolo de Janus.

Uma face olhando para um lado.

Outra face olhando para o outro.


CAPÍTULO 13 — A DIFERENÇA ENTRE “DUPLA APOSTA” E CONSPIRAÇÃO

Aqui é necessário fazer uma distinção muito importante.

Uma elite pode apoiar pessoas de diferentes partidos sem existir uma conspiração.

Grandes empresários fazem isso.

Sindicatos fazem isso.

Igrejas fazem isso.

Universidades fazem isso.

Grupos de interesse fazem isso.

Instituições financeiras fazem isso.

Organizações civis fazem isso.

A lógica é simples:

“Não sei quem vencerá, portanto mantenho relações com diferentes campos.”

Isso é completamente diferente de:

“Eu criei os dois lados para controlar o resultado.”

A primeira hipótese é perfeitamente compatível com a ciência política.

A segunda exige provas extraordinárias.


CAPÍTULO 14 — O BRASIL: A BUCHA COMO MODELO COMPARÁVEL

É aqui que a Bucha ganha nova importância.

A Bucha brasileira surgiu na Academia de Direito de São Paulo em 1831, inspirada nas Burschenschaften alemãs.

Sua estrutura era seletiva.

Seus membros eram escolhidos.

Existiam mecanismos de iniciação e sigilo.

O objetivo inicial incluía auxílio a estudantes pobres.

E seus membros posteriormente ocuparam posições importantes na política e na administração brasileira.

A comparação com Yale, portanto, não precisa ser:

Bucha = Skull and Bones.

Seria mais correto dizer:

Bucha e Skull and Bones pertencem a uma família mais ampla de instituições universitárias seletivas que podem transformar relações estudantis em redes de longa duração.

Essa comparação é historicamente muito mais defensável.


CAPÍTULO 15 — O BRASIL E OS ESTADOS UNIDOS: UMA MATRIZ COMUM?

Podemos construir uma tabela conceitual:

Elemento Brasil Estados Unidos
Universidade de elite Largo de São Francisco Yale
Sociedade seletiva Bucha Skull and Bones
Recrutamento Estudantes escolhidos “Tap”
Sigilo Sim Sim
Ritual Sim Sim
Rede de antigos membros Sim Sim
Formação de elites Muito evidente Muito evidente
Presença na política Muito documentada Muito documentada
Controle eleitoral Não demonstrado Não demonstrado
Continuidade secreta atual Incerta Incerta
“Governo secreto” Hipótese Hipótese

A semelhança estrutural é real.

A conclusão conspiratória não.


CAPÍTULO 16 — AS SOCIEDADES SECRETAS NÃO ERAM EXCLUSIVAS DE YALE

É importante não transformar Skull and Bones em uma anomalia.

Sociedades secretas e clubes altamente seletivos existiram em diferentes universidades americanas.

Um estudo histórico da Dartmouth Library explica que as fraternidades e sociedades estudantis secretas foram parte importante da cultura universitária americana do século XIX. Algumas sociedades de “senior class” buscavam selecionar estudantes considerados especialmente importantes ou prestigiosos.

Uma dissertação da University of South Carolina estudou especificamente sociedades secretas universitárias e observa que essas organizações possuíam longa história nos campi americanos desde Phi Beta Kappa, fundada em 1776.

Portanto, Skull and Bones não deve ser isolada do fenômeno maior.


CAPÍTULO 17 — PHI BETA KAPPA E A TRADIÇÃO DAS SOCIEDADES SELETIVAS

A Phi Beta Kappa surgiu em 1776 e pertence a uma tradição diferente das sociedades conspiratórias modernas.

Seu exemplo demonstra algo importante:

sociedades secretas universitárias não são necessariamente organizações políticas clandestinas.

Muitas nasceram como associações intelectuais, fraternais ou sociais.

O segredo podia proteger:

  • rituais;
  • símbolos;
  • cerimônias;
  • relações internas;
  • identidade dos membros.

Com o tempo, porém, uma rede composta por indivíduos importantes poderia adquirir significado político independentemente de seu objetivo original.

Essa distinção é essencial.


CAPÍTULO 18 — A EUROPA: A MATRIZ ALEMÃ

A comparação europeia é ainda mais importante para compreender a Bucha.

As Burschenschaften alemãs constituem uma tradição universitária anterior à Bucha.

Elas surgiram no ambiente político e intelectual alemão do início do século XIX.

A própria Faculdade de Direito da USP reconhece que Júlio Frank criou a sociedade brasileira inspirando-se nesse modelo.

Portanto:

Alemanha → tradição estudantil → Brasil → Bucha

é uma conexão histórica documentada.

Já:

Illuminati → Burschenschaft → Bucha

é outra questão.

A segunda sequência não possui o mesmo grau de comprovação.


CAPÍTULO 19 — OXFORD E OS CLUBES DE ELITE

A comparação não termina na Alemanha.

No Reino Unido, Oxford desenvolveu uma cultura de clubes e sociedades altamente seletivos.

Um estudo publicado pela Oxford University Press/Bristol University Press sobre sociedades estudantis de elite britânicas e americanas mostra como determinados clubes universitários eram compostos por elites extremamente selecionadas e como alguns membros posteriormente chegaram a funções políticas importantes.

O padrão é novamente:

universidade → seleção social → rede → carreira.

O fenômeno, portanto, não é exclusivamente americano.


CAPÍTULO 20 — O “OLD BOY NETWORK”

Na cultura britânica existe uma expressão particularmente importante:

Old-boy network.

Ela descreve redes informais formadas por antigos alunos, colegas de escolas e universidades.

Não é necessário que exista uma sociedade secreta.

O simples fato de alguém saber:

“Ele estudou comigo.”

pode produzir confiança.

Se isso se multiplica durante décadas, surge uma rede.

Quando pessoas dessa rede ocupam:

  • tribunais;
  • ministérios;
  • empresas;
  • jornais;
  • universidades;
  • bancos;
  • forças armadas;

a influência pode tornar-se extraordinária.


CAPÍTULO 21 — O MODELO EUROPEU CONTINENTAL

A Europa continental também possui tradições de:

  • fraternidades estudantis;
  • associações profissionais;
  • sociedades iniciáticas;
  • clubes políticos;
  • organizações maçônicas;
  • redes aristocráticas;
  • associações de ex-alunos.

O fenômeno não é uniforme.

E não existe uma única “sociedade europeia” controlando as demais.

O que existe é uma longa tradição de associação seletiva entre pessoas de posições semelhantes.

Essa tradição antecede inclusive a democracia moderna.


CAPÍTULO 22 — A QUESTÃO DA MAÇONARIA

A Maçonaria precisa ser tratada separadamente.

Durante séculos, organizações maçônicas proporcionaram aos seus membros:

  • sociabilidade;
  • fraternidade;
  • assistência;
  • rituais;
  • redes profissionais;
  • contatos políticos;
  • circulação internacional.

O historiador Mark Carnes estudou a cultura das ordens fraternais americanas e mostra a dimensão social que essas organizações tiveram no século XIX. Freemasons, Odd Fellows e Knights of Pythias, entre outras, chegaram a reunir milhões de homens.

Portanto, a existência de uma rede fraternal não significa automaticamente conspiração.

Mas uma rede fraternal pode, objetivamente, produzir capital social.


CAPÍTULO 23 — CAPITAL SOCIAL

Esse conceito ajuda muito mais do que a palavra “conspiração”.

Capital social significa, em termos simplificados:

quem você conhece, em quem você confia e quem confia em você.

Imagine duas pessoas com competência profissional semelhante.

Uma conhece dez pessoas.

A outra conhece quinhentas.

A segunda possui uma vantagem estrutural.

Se essas quinhentas pessoas estiverem espalhadas entre:

  • tribunais;
  • empresas;
  • universidades;
  • forças armadas;
  • imprensa;
  • política;

a rede pode adquirir enorme capacidade de influência.

Isso pode acontecer sem qualquer reunião secreta para “controlar o mundo”.


CAPÍTULO 24 — O MODELO DE “CARREIRA EM REDE”

Podemos representar o fenômeno assim:

Universidade

seleção

sociedade/fraternidade

amizade e confiança

formação profissional

carreira

antigos colegas espalhados pelas instituições

troca de informações

indicações

oportunidades

reprodução da rede

Essa última etapa é fundamental.

Os antigos membros podem ajudar os novos.

E os novos membros, décadas depois, podem ajudar uma terceira geração.

Assim nasce uma estrutura que se reproduz.


CAPÍTULO 25 — A HIPÓTESE MAIS FORTE: RECRUTAMENTO CONTÍNUO

Se uma organização realmente quisesse preservar influência durante séculos, não poderia depender de uma única geração.

Precisaria recrutar continuamente.

Isso produz um ciclo:

Geração 1

Cria a organização.

Geração 2

Herdará a estrutura.

Geração 3

Ocupa posições estratégicas.

Geração 4

Recruta novos talentos.

Geração 5

Assume instituições.

E assim por diante.

A organização deixa de depender de indivíduos.

Transforma-se em instituição de reprodução de elite.


CAPÍTULO 26 — E SE O RECRUTAMENTO NÃO FOSSE APENAS UNIVERSITÁRIO?

Essa é a extensão mais importante da hipótese proposta neste relatório.

Imagine três círculos:

Círculo A — futuros dirigentes

Estudantes promissores.

Círculo B — dirigentes em ascensão

Jovens políticos, oficiais, empresários, magistrados e acadêmicos.

Círculo C — dirigentes consolidados

Ministros, generais, juízes, governadores, grandes empresários, banqueiros e figuras com influência institucional.

Uma rede suficientemente sofisticada tentaria manter relações com os três.

Isso seria muito mais eficiente do que depender exclusivamente da universidade.


CAPÍTULO 27 — “MAPEAR TODAS AS PROBABILIDADES”

Aqui chegamos à formulação mais ousada da hipótese.

Uma organização que deseja sobreviver não precisa saber quem vencerá.

Ela precisa saber:

quem pode vencer.

Portanto, poderia acompanhar diferentes possibilidades:

Candidato A

Candidato B

Candidato C

General X

Juiz Y

Empresário Z

Acadêmico W

Não necessariamente para controlar todos.

Mas para não ficar isolada caso qualquer um deles ascenda.

É uma espécie de:

seguro político.


CAPÍTULO 28 — ISSO EXISTE NA POLÍTICA REAL?

Em escala muito menor e sem necessidade de sociedades secretas, algo semelhante é perfeitamente conhecido.

Partidos procuram cultivar jovens líderes.

Empresas financiam diferentes candidatos.

Grupos de interesse mantêm relações com parlamentares de vários partidos.

Universidades formam futuros dirigentes.

Organizações profissionais desenvolvem redes.

Think tanks aproximam acadêmicos e políticos.

Fundações financiam pesquisas.

Clubes empresariais reúnem autoridades.

Tudo isso é observável.

A pergunta investigativa é:

Em que momento uma rede legítima de influência se transforma em uma estrutura clandestina de poder?

Esse é o ponto difícil.


CAPÍTULO 29 — O CASO ANTONY SUTTON

Nenhuma pesquisa sobre esse tema estaria completa sem mencionar Antony C. Sutton.

Sutton publicou America's Secret Establishment: An Introduction to the Order of Skull & Bones.

Seu livro argumenta que a Skull and Bones não deveria ser vista apenas como uma fraternidade universitária, mas como uma rede de longo prazo envolvendo membros que posteriormente se tornaram senadores, juízes, secretários de gabinete, agentes de inteligência, empresários e presidentes.

É uma obra importante para o lado não acadêmico/investigativo da pesquisa.

Mas deve ser lida criticamente.

Sutton interpreta os vínculos de maneira muito mais abrangente e conspiratória que a historiografia convencional.

Seu valor está sobretudo em:

  • reunir nomes;
  • mapear conexões;
  • levantar perguntas;
  • identificar sobreposições institucionais.

Suas conclusões causais, porém, não devem ser automaticamente aceitas.


CAPÍTULO 30 — ALEXANDRA ROBBINS

Outro livro fundamental é:

Alexandra Robbins — Secrets of the Tomb: Skull and Bones, the Ivy League, and the Hidden Paths of Power.

Publicado em 2002, o livro foi construído a partir de documentos da sociedade e entrevistas com dezenas de membros. A editora descreve a obra como uma investigação sobre a estrutura, iniciação e rede da Skull and Bones.

É particularmente útil porque tenta penetrar na própria estrutura interna da organização.

Robbins não precisa provar que a Skull and Bones controla o governo para que seu trabalho seja importante.

O simples mapeamento de:

quem entra → quem sai → quem se torna poderoso

já é uma fonte valiosa para análise.


CAPÍTULO 31 — O ESTUDO ACADÊMICO É MAIS CAUTELOSO

A literatura acadêmica tende a ser mais prudente.

Um estudo publicado pela Cambridge University Press/Bristol University Press trata Skull and Bones como exemplo de uma categoria mais ampla:

elite within elites.

Ou seja:

elites dentro das próprias elites universitárias.

Essa formulação é muito mais interessante do que “governo secreto”.

Porque reconhece a existência de seleção, exclusividade e redes, sem pressupor automaticamente controle político centralizado.


CAPÍTULO 32 — BRASIL E ESTADOS UNIDOS: UMA DIFERENÇA FUNDAMENTAL

Existe, entretanto, uma diferença importante.

Nos Estados Unidos, Yale possui documentação pública muito mais acessível sobre as sociedades.

Os nomes de integrantes foram publicados.

Existem registros históricos.

Existem livros.

Existem estudos.

Existem entrevistas.

No caso da Bucha, o segredo foi muito mais profundo e a documentação é mais fragmentária.

Isso dificulta a comparação.

Mas também torna o fenômeno brasileiro particularmente interessante.


CAPÍTULO 33 — BUCHA E SKULL AND BONES

A comparação mais segura é:

BUCHA

  • origem no século XIX;
  • modelo alemão;
  • seleção de estudantes;
  • assistência;
  • fraternidade;
  • sigilo;
  • formação de redes;
  • forte presença entre elites políticas brasileiras.

SKULL AND BONES

  • Yale;
  • fundada em 1832;
  • seleção extremamente restrita;
  • ritual;
  • segredo;
  • rede de antigos membros;
  • presença de integrantes em posições de grande poder.

As duas possuem características estruturais semelhantes.

Isso não prova uma conexão histórica entre elas.

Mas demonstra que o mecanismo de seleção de elites universitárias não é exclusivamente brasileiro.


CAPÍTULO 34 — O ELEMENTO MILITAR

Aqui podemos ampliar novamente a hipótese.

Uma rede de poder que quisesse acompanhar todas as possibilidades políticas não poderia ignorar as Forças Armadas.

No Brasil da Guerra Fria, isso é especialmente importante.

No universo americano, a ligação entre universidades de elite, inteligência, forças armadas e governo também merece investigação.

O ponto metodológico é:

não procurar apenas políticos.

Procurar:

políticos + militares + magistrados + empresários + acadêmicos + imprensa + inteligência.

É o cruzamento que pode revelar uma rede.


CAPÍTULO 35 — DELEGADOS, JUÍZES E PROMOTORES

O mesmo raciocínio vale para o sistema jurídico.

Uma elite política pode mudar.

Um partido pode perder uma eleição.

Um presidente pode deixar o cargo.

Mas:

juízes permanecem.

procuradores permanecem.

altos funcionários permanecem.

professores permanecem.

empresários permanecem.

instituições permanecem.

Por isso, uma análise realmente profunda de uma suposta rede de poder não deveria limitar-se às eleições presidenciais.

Deveria reconstruir:

quem nomeia quem.

quem estudou com quem.

quem trabalhou com quem.

quem financiou quem.

quem indicou quem.

quem pertenceu a quais organizações.

Esse seria o verdadeiro mapa.


CAPÍTULO 36 — O PODER COMO REDE E NÃO COMO PIRÂMIDE

A imagem popular de uma conspiração é uma pirâmide:

um líder no topo

conselho secreto

subordinados

agentes

Mas redes de elite provavelmente seriam mais eficientes se funcionassem como uma teia.

Um indivíduo poderia estar ligado simultaneamente a:

  • uma universidade;
  • uma fraternidade;
  • uma empresa;
  • um partido;
  • uma associação profissional;
  • uma instituição militar;
  • um clube;
  • uma fundação.

Assim, não existe necessariamente um único centro.

Existem múltiplos centros conectados.


CAPÍTULO 37 — O MODELO DE JANUS GANHA UMA NOVA INTERPRETAÇÃO

Depois da comparação Brasil–Estados Unidos–Europa, o símbolo de Janus pode ser reinterpretado.

Não necessariamente:

“duas organizações políticas criadas secretamente.”

Mas:

uma rede capaz de manter relações com diferentes possibilidades de futuro.

Uma face olha para o presente.

Outra olha para o futuro.

Uma face acompanha a esquerda.

Outra acompanha a direita.

Uma acompanha os militares.

Outra acompanha os civis.

Uma acompanha a universidade.

Outra acompanha o governo.

Uma acompanha o empresário.

Outra acompanha o magistrado.

Essa estrutura seria muito mais sofisticada.


CAPÍTULO 38 — O PRINCÍPIO DA DIVERSIFICAÇÃO DO PODER

Podemos chamar essa hipótese de:

“Diversificação estratégica de influência.”

Em vez de apostar:

100% em A

a organização apostaria:

20% em A
20% em B
20% em C
20% em D
20% em E.

Se A fracassasse, a rede sobreviveria.

Se B vencesse, existiria uma porta de entrada.

Se C se tornasse ministro, existiria uma conexão.

Se D chegasse ao Supremo, existiria outra.

Se E assumisse o comando militar, haveria outra.

Não seria necessário controlar todos.

Bastaria não ficar sem ninguém.


CAPÍTULO 39 — O QUE É COMPROVÁVEL?

A comparação internacional permite separar quatro níveis.

NÍVEL I — DOCUMENTADO

Existiram sociedades universitárias secretas ou altamente reservadas.

Existiram processos seletivos.

Existiram rituais.

Existiram redes de antigos membros.

Membros dessas organizações chegaram a posições importantes.

Isso é documentado nos Estados Unidos, no Reino Unido e no Brasil.

NÍVEL II — ALTAMENTE PLAUSÍVEL

As redes produziram:

  • amizade;
  • confiança;
  • contatos;
  • capital social;
  • oportunidades;
  • proteção profissional.

NÍVEL III — HIPÓTESE

As redes foram utilizadas deliberadamente para manter influência institucional por gerações.

NÍVEL IV — CONSPIRAÇÃO NÃO COMPROVADA

Uma organização central selecionava sistematicamente futuros presidentes, juízes, generais, delegados e empresários e controlava as decisões políticas nacionais.

Essa última hipótese requer evidências muito mais fortes.


CAPÍTULO 40 — O QUE DEVERÍAMOS PROCURAR?

Se quisermos realmente avançar a investigação, não devemos procurar apenas livros que afirmem a existência da conspiração.

Devemos procurar documentos.

Especialmente:

1. Listas de membros

Quem pertenceu?

2. Correspondência

Quem escreveu para quem?

3. Fotografias

Quem aparece junto?

4. Registros universitários

Quem estudou na mesma época?

5. Nomeações

Quem indicou quem?

6. Doações

Quem financiou quem?

7. Empresas

Quais membros participaram dos mesmos conselhos?

8. Instituições militares

Quem serviu junto?

9. Tribunais

Quem estudou com quem?

10. Partidos

Quem transitou entre diferentes grupos?

Esse método seria muito mais poderoso.


CAPÍTULO 41 — O GRANDE EXPERIMENTO HISTÓRICO

Poderíamos reconstruir uma rede histórica começando em:

1831 — Bucha

e avançando por gerações.

Depois fazer o mesmo para:

1832 — Skull and Bones

E comparar:

  • número de membros;
  • profissões;
  • cargos;
  • famílias;
  • empresas;
  • universidades;
  • partidos;
  • forças armadas;
  • tribunais;
  • governos.

O resultado poderia revelar se estamos diante de uma coincidência sociológica ou de uma estrutura extraordinariamente persistente.


CAPÍTULO 42 — A HIPÓTESE DE “APOSTAR NOS DOIS LADOS”

Essa hipótese, portanto, precisa ser reformulada.

Não devemos começar dizendo:

“As sociedades secretas controlam direita e esquerda.”

Devemos perguntar:

“Redes de elite historicamente mantiveram relações simultâneas com grupos políticos diferentes para preservar sua influência independentemente do resultado eleitoral?”

Essa pergunta é investigável.

E pode ser respondida empiricamente.


CAPÍTULO 43 — A QUESTÃO DA CAUSALIDADE

Existe ainda um problema fundamental.

Suponhamos que encontremos cem membros da Skull and Bones que chegaram ao poder.

Isso prova alguma coisa?

Não necessariamente.

Precisamos saber:

quantos membros não chegaram ao poder?

E:

quantos estudantes de Yale que nunca pertenceram à sociedade também chegaram ao poder?

Essa comparação é indispensável.

Caso contrário, confundimos:

seleção de pessoas excepcionais

com

produção de pessoas excepcionais.


CAPÍTULO 44 — O MESMO PROBLEMA NO BRASIL

A mesma questão precisa ser aplicada à Bucha.

Se seus membros eram estudantes de Direito do Largo de São Francisco, já pertenciam a uma população altamente selecionada.

Era natural que muitos se tornassem:

  • políticos;
  • juízes;
  • advogados;
  • ministros;
  • intelectuais.

Portanto, a grande questão não é:

“Quantos bucheiros chegaram ao poder?”

Mas:

“Quantos chegaram ao poder em comparação com estudantes igualmente privilegiados que não pertenciam à Bucha?”

Essa seria uma pesquisa histórica e estatística muito mais sofisticada.


CAPÍTULO 45 — QUANDO A REDE SE TORNA PODER

Mesmo que a organização não causasse diretamente a ascensão profissional, ela poderia proporcionar algo valioso:

acesso.

E acesso é poder.

Conhecer alguém pode abrir uma porta.

Ser apresentado por alguém pode eliminar uma barreira.

Receber uma recomendação pode acelerar uma carreira.

Ter um colega em determinada instituição pode facilitar a circulação.

Uma rede de centenas de pessoas importantes pode possuir enorme poder sem emitir uma única ordem.


CAPÍTULO 46 — O VERDADEIRO “SEGREDO”

Talvez o segredo das sociedades de elite não seja uma fórmula misteriosa.

Talvez seja algo muito mais banal:

elas criam confiança entre pessoas que posteriormente ocupam posições importantes.

Essa confiança é difícil de medir.

Mas pode durar décadas.

É por isso que sociedades fundadas no século XIX continuam fascinando historiadores.


CAPÍTULO 47 — O CASO AMERICANO COMO ESPELHO DO BRASIL

O estudo comparativo produz uma conclusão importante.

A existência de uma organização como a Bucha não seria uma anomalia brasileira.

Os Estados Unidos tiveram:

  • Phi Beta Kappa;
  • Skull and Bones;
  • Scroll and Key;
  • outras sociedades de elite;
  • fraternidades;
  • clubes universitários;
  • redes de ex-alunos.

O Reino Unido teve:

  • clubes universitários;
  • sociedades de Oxford e Cambridge;
  • redes de antigos alunos;
  • associações de elite.

A Alemanha teve:

  • Burschenschaften;
  • corporações estudantis;
  • associações universitárias.

Portanto, existe um fenômeno transnacional:

a universidade como espaço de formação e reprodução das elites.


CAPÍTULO 48 — MAS EXISTE UMA GRANDE DIFERENÇA

Não devemos transformar:

elite universitária

em

sociedade secreta mundial.

São coisas diferentes.

Uma elite pode reproduzir-se através de:

  • família;
  • dinheiro;
  • educação;
  • casamento;
  • profissão;
  • universidade;
  • religião;
  • clubes;
  • partidos.

Uma sociedade secreta é apenas uma possível ferramenta dentro desse universo.


CAPÍTULO 49 — A QUESTÃO DOS ILLUMINATI

Essa comparação também permite esclarecer uma questão levantada na investigação anterior.

É tentador construir:

Illuminati

Burschenschaften

Bucha

Skull and Bones

E.S.P.A.R.T.A.

Janus

Mas essa cadeia não está demonstrada.

Ela constitui uma hipótese genealógica.

A existência histórica independente de cada organização não demonstra descendência institucional entre elas.

Precisaríamos encontrar:

  • documentos;
  • estatutos;
  • cartas;
  • listas;
  • símbolos;
  • registros de transmissão;
  • testemunhos independentes;
  • continuidade organizacional.

Sem isso, a sequência permanece especulativa.


CAPÍTULO 50 — UMA CONCLUSÃO MUITO MAIS INTERESSANTE

Depois de comparar Brasil, Estados Unidos e Europa, talvez a pergunta original deva ser reformulada.

Não:

“Quem controla o mundo através das sociedades secretas?”

Mas:

“Como as elites conseguem reproduzir poder através das gerações?”

E aí encontramos algo muito mais concreto.

Elites reproduzem-se através de:

famílias.

universidades.

profissões.

clubes.

partidos.

empresas.

forças armadas.

tribunais.

amizades.

casamentos.

fundações.

redes de ex-alunos.

fraternidades.

sociedades seletivas.

Algumas dessas estruturas são públicas.

Outras são privadas.

Algumas são secretas.

E algumas podem funcionar sem que seus próprios participantes percebam a dimensão histórica da rede.


CAPÍTULO 51 — O “REI” DA INTRODUÇÃO, NOVAMENTE

Voltamos, finalmente, ao rei imaginário do início.

Ele não precisaria necessariamente criar dois partidos.

Isso seria arriscado.

Bastaria conhecer:

quem são os futuros líderes.

quem são os militares promissores.

quem são os jovens magistrados.

quem são os empresários em ascensão.

quem são os jornalistas influentes.

quem são os acadêmicos brilhantes.

quem são os políticos que podem vencer.

E manter relações com todos.

Nesse modelo, a organização não controla necessariamente as pessoas.

Ela conhece as probabilidades.

E isso talvez seja o aspecto mais fascinante da hipótese.


CAPÍTULO 52 — JANUS COMO METÁFORA DE UMA REDE

Janus deixa então de representar simplesmente:

esquerda + direita.

Passa a representar:

presente + futuro.

governo + oposição.

universidade + Estado.

civil + militar.

empresa + governo.

magistratura + política.

jovem promessa + autoridade estabelecida.

elite emergente + elite consolidada.

Essa interpretação é muito mais ampla.

E permite comparar a hipótese brasileira com o fenômeno das sociedades seletivas americanas e europeias sem afirmar uma conexão que ainda não foi demonstrada.


CAPÍTULO 53 — CONCLUSÃO GERAL

A pesquisa comparativa permite afirmar com segurança que sociedades universitárias seletivas e redes de elite realmente existiram e exerceram funções de socialização, recrutamento, formação de vínculos e reprodução de prestígio no Brasil, nos Estados Unidos e na Europa.

No caso de Yale, existe documentação particularmente forte sobre o sistema de seleção da Skull and Bones, incluindo a escolha de estudantes que já eram líderes universitários. Estudos acadêmicos também identificam a presença de antigos membros em posições de grande influência.

No Brasil, a Bucha apresenta características comparáveis: seleção, segredo, formação de vínculos e extraordinária presença de antigos integrantes entre setores da elite política e intelectual.

Isso permite estabelecer uma comparação histórica legítima.

O que não podemos afirmar, sem documentação adicional, é que essas organizações tenham controlado diretamente eleições, escolhido presidentes ou comandado governos.

A hipótese mais interessante é outra:

uma organização não precisa controlar diretamente o poder para influenciar a trajetória de pessoas que posteriormente ocuparão o poder.

Ela pode simplesmente identificar talentos precocemente, aproximá-los, criar vínculos e preservar a rede.

E, se essa rede atravessar gerações, o resultado poderá parecer, para quem observa de fora, uma estrutura centralizada.

Talvez não exista um “rei”.

Talvez não exista sequer um conselho central.

Talvez exista simplesmente uma rede de pessoas que se conhecem, confiam umas nas outras e se ajudam ao longo de décadas.

Mas existe uma possibilidade ainda mais perturbadora:

e se algumas dessas redes tiverem deliberadamente aprendido a não apostar em um único futuro?

Nesse caso, a estratégia não seria escolher entre esquerda e direita.

Seria:

manter portas abertas para ambas.

Não escolher entre civil e militar.

manter relações com ambos.

Não apostar em um único candidato.

cultivar vários.

Não depender de uma única universidade.

penetrar em várias instituições.

Não esperar que uma pessoa chegue ao poder.

acompanhar centenas de pessoas que podem chegar.

Nesse cenário, o verdadeiro poder não seria necessariamente o controle de um governo.

Seria o controle das possibilidades.

E essa é a hipótese mais profunda que emerge da comparação entre a Bucha, as sociedades secretas de Yale, as fraternidades alemãs e os clubes de elite britânicos.

A pergunta final, portanto, não deveria ser:

“Quem governa?”

Mas:

“Quem conhece antecipadamente as pessoas que poderão governar amanhã?”

E, sobretudo:

“Quem está presente, simultaneamente, nas redes que formam os futuros juízes, militares, empresários, acadêmicos e políticos?”

Essa é a investigação que ainda pode ser feita.

Porque talvez a chave para compreender o poder contemporâneo não esteja apenas nos nomes dos presidentes.

Talvez esteja nas redes que existiam antes de eles chegarem à presidência — e que continuarão existindo depois que eles deixarem o cargo.


BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR

Fontes acadêmicas

CARNES, Mark C. Secret Ritual and Manhood in Victorian America. New Haven: Yale University Press, 1991/2008. Estudo clássico sobre fraternidades e sociedades secretas masculinas nos Estados Unidos.

CRANE, Mackenzie. The Tap: An Examination of the Controversy of Secret Societies on College Campuses. 2015. Dissertação, University of South Carolina.

PUNCH, Maurice. Crime and Deviance in the Colleges: Elite Student Excess and Sexual Abuse. Bristol: Bristol University Press, 2022. Especialmente o capítulo sobre sociedades estudantis de elite britânicas e americanas.

SANTOS, Luis Fernando Messeder dos. A Burschenschaft e a formação da classe dirigente brasileira na República Velha. Dissertação de Mestrado, Universidade Federal Fluminense.

BANDECCHI, Brasil. História de uma História. Anais do Museu Paulista.

CAMPOS NETO, Antonio Augusto Machado de. Memórias de Júlio Frank. Revista da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo.

Livros investigativos e não acadêmicos

ROBBINS, Alexandra. Secrets of the Tomb: Skull and Bones, the Ivy League, and the Hidden Paths of Power. New York: Little, Brown, 2002.

SUTTON, Antony C. America's Secret Establishment: An Introduction to the Order of Skull & Bones. Liberty House Press, 1986; posteriormente reeditado por Trine Day.

LORD, Evelyn. The Hellfire Clubs: Sex, Satanism and Secret Societies. New Haven: Yale University Press, 2010. Embora trate de outro fenômeno, é útil para estudar como sociedades secretas, elites sociais, rumores e mitologia conspiratória se entrelaçaram historicamente.

Fontes institucionais e históricas

Yale Alumni Magazine. The Origins of the Tomb — história pública da sede da Skull and Bones e das sociedades universitárias secretas de Yale.

Dartmouth College Library. Library Bulletin — estudo histórico sobre fraternidades e sociedades seletivas universitárias americanas.

Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. Patrimônio histórico — Júlio Frank e a Bucha.

Universidade de São Paulo. Jornal da USP — história de Júlio Frank e da Bucha.


Nota metodológica final

Este relatório deliberadamente coloca fontes acadêmicas e fontes investigativas lado a lado, mas não lhes atribui o mesmo peso probatório.

A literatura acadêmica é utilizada para estabelecer o que pode ser demonstrado historicamente.

Livros como os de Alexandra Robbins e Antony Sutton são importantes para localizar nomes, conexões e hipóteses que a historiografia convencional muitas vezes não explora da mesma maneira. Robbins, por exemplo, realizou entrevistas com numerosos membros e trabalhou com documentos relacionados à Skull and Bones. Sutton, por sua vez, construiu uma interpretação muito mais abrangente da organização como rede de poder.

A regra fundamental para a continuação da investigação deve ser:

membro comprovado ≠ influência comprovada ≠ coordenação comprovada ≠ controle comprovado.

Essa distinção é justamente o que permitirá que a investigação sobre Bucha, E.S.P.A.R.T.A., Janus, Skull and Bones, universidades de elite e redes de poder avance sem perder o caráter crítico.


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