O Iniciado Deve Falar? O Conhecedor Tem o Imperioso Dever de Revelar Tudo o que For Útil aos Seus Contemporâneos
O Iniciado Deve Falar? O Conhecedor Tem o Imperioso Dever de Revelar Tudo o que For Útil aos Seus Contemporâneos
O iniciado deve falar? Não será o seu papel, mais do que nunca, manifestar-se, falar? É bem evidente que o conhecedor tem o imperioso dever de revelar tudo o que pode ser útil aos seus contemporâneos.
No nosso delirante século, a ordem dos valores está invertida, e o avanço fulgurante da ciência não basta para dissipar a inquietação dos nossos espíritos.
Outrora, o patriarca, o antepassado e o sábio adquiriam a iniciação com o passar dos anos, pois todos esses substantivos significam, em sua boa etimologia, o mais idoso. A deterioração começou quando o sacerdote sucedeu ao patriarca e difundiu sua religião de falsos deuses. O alquimista e o sábio receberam o testemunho do sacerdote caído e, nos nossos tempos, o jovem presunçoso altera o sentido da corrente tradicional. Quer suplantar o sábio, lançando Deus ao descrédito público e o patriarca ao asilo. A partir de agora, é o estudante quem busca a iniciação e, sem dúvida, encontra-se dentro da lógica do tipo de sociedade que instauramos, pois é ele o mais forte, o mais ardente e o mais apto a deixar-se queimar vivo nos fogos do Apocalipse.
Testemunha desse fervilhar no caldeirão da feitiçaria ocidental, Gwyon, o jovem, espera pacientemente, atento para não deixar perder a gota da mistura que lhe outorgará a investidura no globo: o poder de visitar os mundos estelares, de viajar no tempo e de olhar Deus frente a frente, de igual para igual, de deus para deus. Até que recomece a conquista do céu pelos gigantes e a guerra dos deuses, que a humanidade dos milênios vindouros inscreverá no livro das lendas incríveis e impossíveis. E, todavia, com um fundo de verdade, dirá um patriarca.
Acreditamos que os grandes instrutores encerraram o seu ciclo há cerca de três mil anos.
Já no tempo de Pitágoras e de Platão, o conhecimento, deturpado pelos sacerdotes e por seus mistérios, subsistia apenas entre raros iniciados. As descobertas científicas certamente tornaram obsoletos muitos dos segredos dos grandes antepassados, mas a principal causa da degradação dos tempos atuais provém da direção diabólica que se imprimiu ao nosso modelo de civilização. Se ainda existem guias no invisível ou em santuários ignorados, o homem do século XX tem o direito de duvidar de seu poder absoluto.
E quanto ao iniciado, qual é o seu papel nessa aventura? Que forças irrisórias espera ele lançar no meio de uma refrega em que os combatentes sequer se apercebem de sua presença? Não será o seu papel, mais do que nunca, manifestar-se, falar? É bem evidente que o conhecedor tem o imperioso dever de revelar tudo o que pode ser útil aos seus contemporâneos.
Foi por essa razão que Pitágoras quis iniciar-se nas práticas dos Asclepíades, a fim de conhecer os medicamentos e os métodos de cura que esses sacerdotes curandeiros, caídos no empirismo, escondiam e deterioravam sob o véu da transmissão por ritos. Da mesma forma, em 460 a.C., Hipócrates arrancou a ciência do corpo humano das mãos dos sacerdotes e dos santuários para torná-la patrimônio de todos. O Juramento de Hipócrates nada tem a ver com o mistério de que gostam de se rodear os charlatães.
O que exigia de seus discípulos era o seguinte:
"Juro considerar como meu pai aquele que me iniciou na medicina; como meus filhos, os seus filhos e os seus condiscípulos; não me deixar seduzir por preço algum para praticar envenenamentos e abortamentos; evitar qualquer suspeita ao tratar das mulheres; conservar o mais absoluto silêncio quanto aos segredos das famílias; tornar-me digno da estima geral."
Como se pode ver, a medicina é a única ciência em que se encontra mencionada a palavra "iniciado" e onde, por outro lado, são regra o juramento, a transmissão do conhecimento, o sentido moral e a proteção biológica da espécie. É fora de dúvida que a medicina seja um dos principais ramos da iniciação, se não o primeiro.
Relatório Complementar: A Tradição das Sociedades Iniciáticas e a Transmissão Reservada do Conhecimento da Antiguidade ao Ocidente
A ideia de que determinados conhecimentos deveriam ser transmitidos apenas a um grupo restrito de pessoas é muito mais antiga do que as sociedades secretas medievais. Desde o surgimento das primeiras civilizações, o saber religioso, astronômico, matemático, médico e político esteve frequentemente concentrado nas mãos de sacerdotes, escribas e iniciados. Contudo, é importante distinguir entre instituições que realmente existiram e são historicamente documentadas e interpretações posteriores que lhes atribuíram um caráter "secreto" mais amplo do que as evidências permitem.
1. Suméria: o nascimento do conhecimento sacerdotal
Na antiga Suméria (c. 3500–2000 a.C.), não existem evidências de sociedades secretas organizadas nos moldes das ordens medievais ou modernas. Entretanto, o conhecimento era altamente restrito.
Os sacerdotes dos grandes templos eram responsáveis por:
- astronomia;
- matemática;
- calendário;
- medicina;
- escrita cuneiforme;
- administração do Estado.
Aprender escrita exigia anos de formação nas edubbas, as "casas das tabuletas", acessíveis apenas a uma pequena elite de escribas.
O próprio sistema religioso sumério pressupunha que certos conhecimentos pertenciam exclusivamente aos deuses e eram revelados apenas aos escolhidos.
Entre os exemplos mais conhecidos estão:
- Enki, deus da sabedoria;
- os ME, princípios divinos que continham todas as artes e conhecimentos da civilização;
- sacerdotes especializados em rituais de purificação e exorcismo.
Embora não existam provas de uma sociedade secreta formal, havia uma clara divisão entre iniciados e população comum.
2. Egito Antigo: os grandes centros iniciáticos
É no Egito que aparece um dos modelos mais influentes de transmissão reservada do conhecimento.
Os templos eram simultaneamente:
- universidades;
- observatórios;
- hospitais;
- bibliotecas;
- centros religiosos.
Apenas sacerdotes autorizados tinham acesso integral aos textos sagrados.
Os templos de:
- Karnak;
- Luxor;
- Abidos;
- Dendera;
- Edfu;
funcionavam como centros de formação sacerdotal.
Segundo as evidências arqueológicas, havia diferentes graus de sacerdócio.
Os iniciados aprendiam:
- astronomia;
- geometria;
- medicina;
- alquimia primitiva;
- matemática;
- arquitetura;
- rituais religiosos;
- interpretação simbólica.
Autores gregos posteriores, como Heródoto e Plutarco, afirmam que muitos filósofos gregos estudaram no Egito. Embora alguns detalhes sejam debatidos, há amplo consenso de que houve forte influência egípcia sobre o pensamento grego.
3. Babilônia
Também não conhecemos sociedades secretas organizadas na Babilônia.
O que existia era uma poderosa classe sacerdotal.
Os sacerdotes controlavam:
- observações astronômicas;
- interpretação dos eclipses;
- matemática;
- medicina;
- adivinhação;
- bibliotecas reais.
A astronomia babilônica tornou-se uma das mais avançadas da Antiguidade.
Grande parte desse conhecimento permaneceu restrita ao clero e aos escribas.
4. Os Mistérios da Grécia
É na Grécia que aparecem claramente as chamadas escolas de mistérios.
Entre elas destacam-se:
Mistérios de Elêusis
Duraram quase dois mil anos.
Os iniciados juravam absoluto silêncio.
A pena por revelar os rituais podia ser a morte.
Sabemos muito pouco sobre as cerimônias justamente porque esse juramento foi amplamente respeitado.
Escola Pitagórica
A comunidade fundada por Pitágoras talvez seja o exemplo mais conhecido de organização iniciática da Antiguidade.
Ela possuía:
- graus de iniciação;
- longos períodos de silêncio;
- disciplina moral;
- ensino reservado;
- símbolos próprios;
- provas para admissão.
Os discípulos externos recebiam apenas parte do ensinamento.
Os membros internos tinham acesso às doutrinas mais profundas.
Órficos
Os órficos constituíam uma fraternidade religiosa.
Transmitiam ensinamentos sobre:
- alma;
- reencarnação;
- purificação espiritual.
Também possuíam ritos reservados aos iniciados.
Academia de Platão
Embora não fosse uma sociedade secreta, parte do ensino filosófico mais elevado era reservado aos discípulos preparados para compreender conceitos considerados difíceis.
5. O Império Romano
O Império Romano herdou praticamente todas essas tradições.
Entre as mais importantes estavam:
Mistérios de Ísis
Importados do Egito.
Possuíam:
- iniciações;
- purificações;
- juramentos;
- graus.
Mitraísmo
Talvez a maior sociedade iniciática romana.
O culto de Mitra possuía sete graus iniciáticos:
- Corax;
- Nymphus;
- Miles;
- Leo;
- Perses;
- Heliodromus;
- Pater.
Os rituais eram realizados em templos subterrâneos chamados mithraea.
A iniciação ocorria progressivamente.
Mistérios Dionisíacos
Também utilizavam iniciações e cerimônias reservadas.
6. A transmissão para a Idade Média
Após a cristianização do Império Romano, muitas dessas formas de organização desapareceram ou foram transformadas.
No entanto, permaneceu a ideia de que certos conhecimentos exigiam:
- preparação moral;
- disciplina;
- juramento;
- hierarquia.
Esse modelo reaparece nas ordens monásticas.
7. Monges Cistercienses
A Ordem de Cister foi fundada em 1098.
Embora não fosse uma sociedade secreta, possuía:
- rígida disciplina;
- transmissão interna do conhecimento;
- formação gradual;
- bibliotecas;
- produção intelectual.
Muitos historiadores destacam que os cistercienses desempenharam papel importante no contexto em que surgiria a Ordem do Templo.
Contudo, a afirmação de que foram os "fundadores dos Templários" não é aceita como consenso histórico. O que se sabe é que Bernardo de Claraval apoiou decisivamente a consolidação da Ordem do Templo.
8. Os Cavaleiros Templários
A Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão reuniu elementos:
- militares;
- religiosos;
- administrativos.
Os membros faziam votos de:
- pobreza;
- castidade;
- obediência.
A organização possuía:
- capítulos internos;
- hierarquia;
- regras próprias;
- cerimônias de admissão.
Ao longo dos séculos surgiram inúmeras lendas sobre conhecimentos secretos preservados pelos templários, mas muitas delas carecem de comprovação documental.
9. O Renascimento
No Renascimento reaparecem diversas fraternidades iniciáticas inspiradas na Antiguidade:
- hermetistas;
- alquimistas;
- cabalistas cristãos;
- rosacruzes.
Todas retomam a ideia de que o conhecimento profundo exige preparação intelectual e moral.
10. A Maçonaria
A Maçonaria herdou muitos desses elementos organizacionais:
- iniciação;
- juramento;
- graus;
- símbolos;
- alegorias;
- transmissão ritualística.
A maior parte dos historiadores considera que sua estrutura moderna foi consolidada entre os séculos XVII e XVIII, inspirando-se em tradições medievais e renascentistas, e não como uma continuidade direta e comprovada das escolas do Egito ou da Grécia.
Conclusão
Ao longo de aproximadamente cinco mil anos, observa-se um padrão recorrente em diferentes civilizações: conhecimentos considerados sagrados, especializados ou de grande valor eram frequentemente transmitidos de forma seletiva, mediante preparação, disciplina e, em muitos casos, juramentos de confidencialidade. Na Suméria e na Babilônia, esse papel coube sobretudo às elites sacerdotais e aos escribas; no Egito, aos templos e sacerdócios; na Grécia, às escolas filosóficas e aos cultos de mistérios; e, no Império Romano, aos diversos cultos iniciáticos.
Na Idade Média e no Renascimento, ordens religiosas, confrarias e fraternidades preservaram modelos semelhantes de organização hierárquica e transmissão gradual do conhecimento. Embora seja comum traçar paralelos entre essas tradições, os historiadores alertam que nem sempre há evidências de uma continuidade institucional direta. O que existe com maior segurança é uma continuidade de ideias: a noção de que certos conhecimentos exigem formação ética, intelectual e simbólica antes de serem plenamente compreendidos. Essa concepção atravessou milênios e influenciou profundamente as ordens iniciáticas do Ocidente.
Abaixo está uma bibliografia em formato ABNT (NBR 6023:2018), composta por obras acadêmicas e fontes clássicas amplamente utilizadas no estudo das escolas de mistérios, sociedades iniciáticas, religião do Egito Antigo, Mesopotâmia, Grécia, Roma e ordens medievais.
Bibliografia (ABNT)
ASSMANN, Jan. The Mind of Egypt: History and Meaning in the Time of the Pharaohs. Cambridge: Harvard University Press, 2002.
ASSMANN, Jan. Death and Salvation in Ancient Egypt. Ithaca: Cornell University Press, 2005.
BERNAL, Martin. Black Athena: The Afroasiatic Roots of Classical Civilization. New Brunswick: Rutgers University Press, 1987.
BURKERT, Walter. Ancient Mystery Cults. Cambridge: Harvard University Press, 1987.
BURKERT, Walter. Greek Religion. Cambridge: Harvard University Press, 1985.
COLLINS, Billie Jean (Org.). A History of the Ancient Near East. Oxford: Blackwell Publishing, 2004.
CRAWFORD, Harriet. Sumer and the Sumerians. 2. ed. Cambridge: Cambridge University Press, 2004.
ELIADE, Mircea. História das Crenças e das Ideias Religiosas. 3 v. Rio de Janeiro: Zahar, 2010.
ELIADE, Mircea. Ritos de Iniciação e Sociedades Secretas. Lisboa: Edições 70, 1998.
FRANKFORT, Henri. Kingship and the Gods. Chicago: University of Chicago Press, 1948.
FRANKFORT, Henri et al. Before Philosophy: The Intellectual Adventure of Ancient Man. Chicago: University of Chicago Press, 1946.
HERÓDOTO. Histórias. Tradução de Mário da Gama Kury. Brasília: Editora Universidade de Brasília, diversas edições.
HORNUNG, Erik. The Secret Lore of Egypt: Its Impact on the West. Ithaca: Cornell University Press, 2001.
JACQ, Christian. A Sabedoria Viva do Antigo Egito. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1999.
KRAMER, Samuel Noah. History Begins at Sumer. 3. ed. Philadelphia: University of Pennsylvania Press, 1981.
LIVY. The History of Rome. London: Penguin Classics, diversas edições.
PLATÃO. A República. Tradução de Maria Helena da Rocha Pereira. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, diversas edições.
PLUTARCO. Ísis e Osíris. São Paulo: Madras, diversas edições.
RUSSELL, Bertrand. História da Filosofia Ocidental. São Paulo: Companhia Editora Nacional, diversas edições.
SHAW, Ian. The Oxford History of Ancient Egypt. Oxford: Oxford University Press, 2000.
TAYLOR, Joan E. The Essenes, the Scrolls, and the Dead Sea. Oxford: Oxford University Press, 2012.
THE EPIC OF GILGAMESH. Tradução de Andrew George. London: Penguin Classics, 1999.
THE EGYPTIAN BOOK OF THE DEAD. Tradução de Raymond Faulkner. San Francisco: Chronicle Books, 1994.
THE PYRAMID TEXTS. Tradução de Samuel A. B. Mercer. New York: Longmans, Green and Co., 1952.
THE COFFIN TEXTS. Tradução de R. O. Faulkner. Warminster: Aris & Phillips, 1973.
VERNANT, Jean-Pierre. Mito e Pensamento entre os Gregos. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990.
WILKINSON, Richard H. The Complete Gods and Goddesses of Ancient Egypt. London: Thames & Hudson, 2003.
Escolas de Mistérios Gregas
BOARDMAN, John. The Greeks Overseas. London: Thames & Hudson, 1999.
GUTHRIE, W. K. C. Orpheus and Greek Religion. Princeton: Princeton University Press, 1952.
KINGSLEY, Peter. Ancient Philosophy, Mystery and Magic. Oxford: Oxford University Press, 1995.
Pitágoras e Pitagóricos
IAMBLICHUS. Life of Pythagoras. Atlanta: Society of Biblical Literature, 1989.
PORPHYRY. The Life of Pythagoras. Grand Rapids: Phanes Press, 1987.
KAHN, Charles H. Pythagoras and the Pythagoreans. Indianapolis: Hackett Publishing, 2001.
Religiões de Mistério Romanas
BEARD, Mary; NORTH, John; PRICE, Simon. Religions of Rome. 2 v. Cambridge: Cambridge University Press, 1998.
CLAUSS, Manfred. The Roman Cult of Mithras. Edinburgh: Edinburgh University Press, 2000.
CUMONT, Franz. The Mysteries of Mithra. New York: Dover Publications, 1956.
Templários e Ordens Medievais
BARBER, Malcolm. The New Knighthood: A History of the Order of the Temple. Cambridge: Cambridge University Press, 1994.
BARBER, Malcolm. The Trial of the Templars. 2. ed. Cambridge: Cambridge University Press, 2006.
DEMURGER, Alain. The Last Templar. London: Profile Books, 2004.
DEMURGER, Alain. Vie et Mort de l'Ordre du Temple. Paris: Seuil, 1985.
NICHOLSON, Helen. The Knights Templar. Stroud: Sutton Publishing, 2001.
Cistercienses
LECLERCQ, Jean. The Love of Learning and the Desire for God. New York: Fordham University Press, 1982.
LAWRENCE, C. H. Medieval Monasticism. London: Routledge, 2015.
Hermetismo, Alquimia e Tradição Esotérica
FAIVRE, Antoine. Access to Western Esotericism. Albany: State University of New York Press, 1994.
YATES, Frances A. Giordano Bruno and the Hermetic Tradition. Chicago: University of Chicago Press, 1964.
YATES, Frances A. The Rosicrucian Enlightenment. London: Routledge, 1972.
Essa bibliografia reúne mais de 40 obras de referência, priorizando autores reconhecidos na Egiptologia, Assiriologia, História Antiga, História das Religiões, Filosofia Antiga e História Medieval. Ela fornece uma base sólida para um estudo aprofundado sobre a transmissão reservada do conhecimento e as tradições iniciáticas desde a Suméria e o Egito até as ordens religiosas e iniciáticas do Ocidente.


Comentários
Postar um comentário
COMENTE AQUI