A DEUSA ROMANA OCCASIO (A OCASIÃO) E O DEUS GREGO KAIROS, O MOMENTO OPORTUNO — A OPORTUNIDADE TEM CABELOS PELA FRENTE E É CALVA POR TRÁS
A DEUSA ROMANA OCCASIO (A OCASIÃO) E O DEUS GREGO KAIROS, O MOMENTO OPORTUNO — A OPORTUNIDADE TEM CABELOS PELA FRENTE E É CALVA POR TRÁS
KAIROS NÃO PASSOU — EU O AGARREI PELA FRENTE
Kairós, Occasio e o instante que jamais retorna
Revista & Escolas de Mistérios
Investigação Constante da Verdade
“Agora ou nunca”
Existem momentos que parecem iguais a todos os outros.
O relógio continua andando. Os ponteiros avançam. Os dias sucedem as noites. O calendário troca uma data pela outra.
Mas, de repente, alguma coisa acontece.
Uma oportunidade aparece.
Uma pessoa cruza nosso caminho.
Uma decisão precisa ser tomada.
Uma palavra precisa ser dita.
Uma porta se abre.
E existe um instante — talvez apenas alguns segundos — em que aquilo que fizermos poderá modificar todo o curso dos acontecimentos.
Depois, a porta se fecha.
O momento desaparece.
E então percebemos que o tempo não é feito apenas de horas, dias, anos e séculos.
Existem momentos que parecem possuir uma densidade diferente.
Os antigos gregos tinham uma palavra para isso:
Kairós — καιρός.
E eu, que passo boa parte da vida correndo atrás de Cronos, não poderia deixar Kairós passar.
Hoje eu o agarrei pela frente.
1. CRONOS CORRE. KAIROS ESPERA O MOMENTO CERTO
Nossa linguagem moderna costuma transformar o tempo em uma única coisa.
Uma sequência.
Ontem → hoje → amanhã.
Mas os gregos antigos possuíam maneiras diferentes de pensar o tempo.
Chrónos (χρόνος) está relacionado ao tempo enquanto duração, sucessão, medida e passagem.
É o tempo que podemos contar.
Segundos.
Minutos.
Horas.
Anos.
É o tempo do calendário e do relógio.
Kairós é outra coisa.
É o momento oportuno.
O momento adequado.
A circunstância decisiva.
Aquele ponto específico em que uma ação, uma palavra ou uma escolha possui uma força que talvez não possua antes — ou depois.
Por isso, podemos imaginar:
Cronos pergunta: “Quanto tempo passou?”
Kairós pergunta: “O que aconteceu neste momento?”
Não são necessariamente inimigos.
São duas maneiras diferentes de experimentar o tempo.
A pesquisa contemporânea sobre o conceito mostra que kairos também esteve profundamente relacionado à retórica grega: saber quando falar, como falar e em que circunstâncias uma determinada palavra poderia produzir seu efeito máximo.
E talvez essa seja uma das maiores ironias da existência humana:
podemos possuir conhecimento suficiente para saber o que fazer e ainda assim fracassar por não saber quando fazê-lo.
2. QUANDO UMA IDEIA GANHOU UM ROSTO
Para os gregos, Kairós não permaneceu apenas como uma abstração.
Ele chegou a ser personificado.
Fontes antigas apresentam Kairós como uma figura divina ou daimônica associada à oportunidade e ao momento favorável. Uma tradição o relacionava a Zeus; Pausânias registrou inclusive um altar dedicado a Kairós em Olímpia.
Mas é a sua representação artística que tornou essa ideia praticamente inesquecível.
No século IV a.C., o célebre escultor Lisipo (Lysippos) criou uma representação de Kairós.
A estátua original desapareceu.
Mas sua descrição sobreviveu graças principalmente a textos antigos, entre eles o famoso epigrama atribuído a Posídipo de Pela.
E então surge uma das imagens mais inteligentes produzidas pela imaginação clássica.
Kairós corre.
Ele não caminha tranquilamente.
Ele está sempre partindo.
Possui asas nos pés.
Está apoiado nas pontas dos pés.
E carrega uma lâmina.
Tudo nele transmite velocidade, instabilidade e perigo.
Mas existe um detalhe ainda mais extraordinário.
3. O DEUS QUE SÓ PODE SER AGARRADO PELA FRENTE
Kairós possui cabelos abundantes na parte da frente da cabeça.
Mas atrás...
é calvo.
Não é uma extravagância estética.
É uma lição.
A pessoa que encontra Kairós de frente pode agarrá-lo pelos cabelos.
Mas aquele que deixa o momento passar e tenta agarrá-lo pelas costas encontra apenas uma cabeça lisa.
Não há onde segurar.
A imagem atravessou os séculos porque traduz uma experiência humana universal:
a oportunidade pode ser agarrada quando chega; depois que passa, talvez não exista mais nada para agarrar.
Na descrição literária associada à obra de Lisipo, Kairós explica que seus cabelos estão diante do rosto para que aquele que o encontra possa segurá-lo pelo tufo frontal; sua nuca é calva porque, depois que ele passa correndo, ninguém consegue agarrá-lo por trás.
É difícil encontrar uma metáfora mais precisa para determinadas decisões da vida.
4. KAIROS NÃO É PRESSA
Existe, porém, uma diferença fundamental.
Kairós não significa simplesmente correr.
Não significa transformar todos os segundos da existência em uma emergência.
Não significa viver desesperadamente procurando oportunidades.
É justamente o contrário.
Kairós exige percepção.
Exige reconhecer que determinado momento possui uma qualidade diferente.
Às vezes é preciso esperar.
Às vezes é preciso agir.
Às vezes é preciso falar.
Às vezes é preciso permanecer em silêncio.
A sabedoria está em perceber a diferença.
Por isso, Kairós é muito mais sofisticado do que o nosso popular “aproveite a oportunidade”.
Ele pergunta:
Esta é realmente a hora?
5. DOS GREGOS AOS ROMANOS: KAIROS GANHA OUTRO NOME
E aqui começa uma transformação particularmente interessante.
Quando o mundo romano absorveu a tradição cultural grega, a ideia do momento oportuno também encontrou uma expressão latina:
Occasio.
Occasio pode ser entendida como ocasião, oportunidade, momento propício.
Algumas tradições literárias romanas personificaram essa oportunidade como uma figura feminina.
Assim, aquilo que os gregos haviam chamado Kairós aparece no mundo romano associado a Occasio.
Não estamos simplesmente diante de uma “nova deusa” criada do nada.
Estamos diante da romanização de uma ideia antiga.
A oportunidade ganhou uma nova identidade cultural.
E seus atributos continuaram reconhecíveis.
Asas.
Velocidade.
Instabilidade.
Cabelos na frente.
Calvície atrás.
A mensagem permanecia praticamente intacta:
agarre enquanto puder.
Estudos sobre a tradição latina identificam explicitamente a equivalência conceitual entre o Kairós grego e a Occasio romana.
6. OCCASIO — A MULHER QUE PASSA VOANDO
Uma descrição particularmente interessante aparece no poeta latino Ausônio (Ausonius).
Occasio se apresenta como uma deusa rara, conhecida por poucos.
Ela pergunta por que permanece sobre uma esfera.
A resposta é reveladora:
ela não consegue permanecer imóvel.
Por que usa sandálias aladas?
Porque está sempre voando.
Por que esconde o rosto com os cabelos?
Porque não quer ser reconhecida.
E por que é calva atrás?
Porque ninguém poderá agarrá-la depois que tiver passado.
A tradição latina acrescenta uma dimensão extremamente interessante ao símbolo.
A oportunidade não é apenas rápida.
Ela é rara.
Não aparece necessariamente quando queremos.
Não permanece esperando.
E nem sempre se apresenta de maneira óbvia.
Pode passar diante de nós sem sequer reconhecermos sua identidade.
E então desaparece.
7. OCCASIO E A SOMBRA DO ARREPENDIMENTO
Existe ainda outra personagem que torna essa história muito mais profunda:
Poenitentia — o arrependimento.
Em uma tradição artística posterior, Occasio aparece associada ao arrependimento.
A ideia é quase cruel em sua simplicidade:
primeiro passa a oportunidade; depois chega o arrependimento.
É uma sequência que todos conhecemos.
“Eu deveria ter falado.”
“Eu deveria ter ido.”
“Eu deveria ter aceitado.”
“Eu deveria ter recusado.”
“Eu deveria ter começado naquele dia.”
“Eu deveria ter percebido.”
O arrependimento frequentemente aparece quando Kairós já desapareceu na esquina.
E então tentamos agarrá-lo pela nuca.
Mas a nuca está calva.
8. A OCASIÃO QUE MORA NO LIMIAR
Existe uma imagem antiga particularmente poderosa associada à representação de Kairós:
o limiar.
Não é coincidência.
O limiar é o lugar entre dois estados.
Dentro e fora.
Antes e depois.
Passado e futuro.
Possibilidade e realidade.
Uma decisão também é um limiar.
Antes de escolher, existem possibilidades.
Depois de escolher, uma delas tornou-se realidade e as outras começaram a desaparecer.
É justamente nesse espaço que Kairós se torna filosoficamente interessante.
Ele não representa simplesmente o tempo.
Representa o ponto de transformação dentro do tempo.
O instante em que algo pode deixar de ser possibilidade para tornar-se acontecimento.
9. KAIROS CHEGA ÀS AMÉRICAS
E aqui está a pergunta que me interessa particularmente.
O que uma antiga divindade grega e sua equivalente romana têm a dizer para nós, habitantes das Américas do século XXI?
Muito.
Talvez mais do que imaginamos.
Vivemos em uma civilização dominada por Cronos.
Cronos está em toda parte.
No relógio do celular.
Nos prazos.
Nos contratos.
Nos boletos.
Nos calendários.
Nas metas.
Nos cronogramas.
Na produtividade.
Na velocidade das redes sociais.
Na obsessão pelo futuro.
Estamos permanentemente contando o tempo.
Mas será que ainda sabemos reconhecer o momento?
Essa é uma pergunta muito mais perigosa.
Porque podemos passar décadas acumulando tempo e, mesmo assim, perder justamente os momentos que davam significado a esse tempo.
10. O NOVO MUNDO TAMBÉM CONHECE O “AGORA OU NUNCA”
Nas Américas, usamos expressões diferentes para a mesma intuição.
“É agora.”
“Agora ou nunca.”
“Não deixe passar.”
“Pegue a oportunidade.”
“Carpe diem.”
“O trem passou.”
“Perdeu o bonde.”
“Cavalo encilhado não passa duas vezes.”
As culturas mudam.
As línguas mudam.
Os deuses mudam.
Mas a experiência humana permanece extraordinariamente semelhante.
A oportunidade aparece.
Nós hesitamos.
Pensamos demais.
Esperamos condições perfeitas.
Pedimos mais informações.
Esperamos amanhã.
E, enquanto pensamos...
Kairós passa.
11. O PERIGO DE ESPERAR O MOMENTO PERFEITO
Existe uma armadilha ainda mais sofisticada.
Às vezes não perdemos Kairós por imprudência.
Perdemos por excesso de prudência.
Queremos ter certeza absoluta.
Queremos todas as informações.
Queremos saber antecipadamente o resultado.
Queremos eliminar todo risco.
Queremos esperar o momento perfeito.
Mas o momento perfeito talvez seja justamente aquele que nunca chega.
Kairós não promete certeza.
Ele oferece uma janela de possibilidade.
É preciso interpretar a situação e decidir.
Por isso, o conceito possui uma dimensão ética.
Reconhecer a oportunidade não significa agarrar qualquer coisa que apareça.
Significa distinguir entre uma ocasião que merece ação e uma tentação que deveria ser recusada.
Nem toda oportunidade é boa.
E nem toda oportunidade deve ser aproveitada.
A verdadeira sabedoria está em saber qual oportunidade merece ser agarrada.
12. A LÂMINA DE KAIROS
E então voltamos àquele estranho objeto que Kairós carrega:
uma lâmina.
Por que uma lâmina?
Porque a oportunidade possui uma qualidade cortante.
Ela separa.
Antes.
Depois.
Possibilidade.
Realidade.
Indecisão.
Decisão.
Um instante pode cortar uma vida em duas partes.
Antes daquela conversa.
Depois daquela conversa.
Antes daquela viagem.
Depois daquela viagem.
Antes daquela descoberta.
Depois daquela descoberta.
Antes daquela decisão.
Depois daquela decisão.
A lâmina é, portanto, uma metáfora poderosa.
O tempo não apenas passa.
Alguns momentos cortam.
13. KAIROS, OCCASIO E A ILUSÃO DE QUE TEREMOS OUTRA CHANCE
Talvez a maior lição dessas antigas figuras seja justamente aquela que menos gostamos de ouvir.
Nem tudo retorna.
Algumas oportunidades retornam.
Outras não.
Uma pessoa pode voltar.
Uma oportunidade profissional pode reaparecer.
Uma ideia pode ser retomada.
Mas certos momentos históricos são absolutamente únicos.
Uma determinada combinação de pessoas, circunstâncias, conhecimento e possibilidade pode existir apenas uma vez.
É por isso que Kairós é tão diferente de Cronos.
Cronos pode continuar.
Kairós pode desaparecer.
14. E SE KAIROS ESTIVER PASSANDO AGORA?
Talvez seja essa a pergunta que deveríamos fazer.
Não:
“Quanto tempo ainda tenho?”
Mas:
“Que momento estou vivendo?”
O primeiro pergunta pertence a Cronos.
O segundo pertence a Kairós.
Cronos mede nossa existência.
Kairós pergunta o que estamos fazendo com ela.
Cronos nos informa que envelhecemos.
Kairós pergunta se reconhecemos aquilo que realmente importa.
Cronos nos diz que amanhã chegará.
Kairós pergunta:
“E se for hoje?”
15. EU NÃO PODERIA DEIXAR KAIROS PASSAR
Existe uma pequena ironia no fato de eu escrever esta matéria justamente hoje.
Passei anos pesquisando mitologias, religiões, símbolos, deuses, civilizações e tradições.
E é impossível estudar tudo.
Se eu quisesse conhecer profundamente todos os deuses da Suméria, do Egito, da Grécia, de Roma e da Índia, provavelmente precisaria de algumas vidas.
Cronos não me concederia esse privilégio.
Mas então apareceu Kairós.
E desta vez eu não quis deixar passar.
Porque existe uma regra simples na representação antiga:
se você encontrar Kairós de frente, agarre-o pelos cabelos.
Não espere que ele volte.
Não tente agarrá-lo pelas costas.
A parte de trás está calva.
Por isso, hoje, neste instante, neste preciso momento...
eu agarrei Kairós pela frente.
E coloquei esta matéria no ar.
EPÍLOGO — O DEUS QUE NÃO PRECISA DE TEMPLO
Talvez Kairós seja uma das divindades mais estranhas que sobreviveram da Antiguidade.
Não precisa de um grande templo.
Não exige sacrifícios.
Não pede ouro.
Não precisa sequer que acreditemos nele como entidade sobrenatural.
Basta observar a própria existência.
Porque Kairós pode ser compreendido como uma imagem daquilo que todos nós encontramos:
o momento que chega.
O momento que exige atenção.
O momento que exige coragem.
O momento que passa.
E, quando passa, deixa para trás uma pergunta.
Às vezes vem acompanhada de satisfação:
“Ainda bem que eu fiz.”
Outras vezes vem acompanhada de arrependimento:
“Por que eu não fiz?”
Talvez seja essa a verdadeira mensagem escondida na cabeça calva de Kairós.
O futuro não pode ser agarrado.
O passado não pode ser agarrado.
Só existe uma parte do tempo que podemos tocar:
o instante que está diante de nós.
E ele tem cabelos.
Agarre-o.
KAIROS E OCCASIO — UMA PEQUENA CHAVE PARA ENTENDER O SÍMBOLO
Kairós — tradição grega: o momento oportuno, decisivo ou adequado.
Occasio — tradição latina: personificação da ocasião ou oportunidade, associada conceitualmente ao Kairós grego.
Asas — velocidade e fugacidade.
Pontas dos pés / esfera — instabilidade e movimento.
Cabelos na frente — oportunidade que pode ser agarrada quando se aproxima.
Calvície atrás — depois que passa, não há onde segurá-la.
Lâmina — o caráter decisivo e cortante do momento.
Limiar — passagem entre aquilo que ainda pode acontecer e aquilo que já aconteceu.
Poenitentia — o arrependimento que permanece quando a oportunidade desaparece.
UMA ÚLTIMA PERGUNTA
Se Kairós passasse diante de você hoje...
você o reconheceria?
E, mais importante:
você teria coragem de agarrá-lo pela frente?
Revista & Escolas de Mistérios
Investigação Constante da Verdade
Sim. Para essa matéria, vale fazer uma bibliografia realmente robusta, separando as fontes primárias — os autores antigos que efetivamente mencionam Kairós/Occasio — das obras modernas de mitologia, história da arte, filologia, retórica e estudos sobre a ideia de tempo.
Há também uma correção importante para a nossa matéria: Kairós não possui uma mitologia extensa como Zeus, Apolo ou Afrodite. O Oxford Classical Dictionary observa justamente que ele tem pouca ou nenhuma “mitologia” narrativa própria; sua importância está sobretudo na personificação da oportunidade, no culto, na literatura, na retórica e na representação artística.
Bibliografia primária — fontes da Antiguidade
1. PAUSÂNIAS — Descrição da Grécia
É provavelmente uma das fontes mais importantes para a matéria.
Pausânias, no século II d.C., registra um altar dedicado a Kairós em Olímpia e informa que Íon de Quios havia composto um hino a Kairós, no qual ele era apresentado como o filho mais jovem de Zeus.
Referência ABNT:
PAUSANIAS. Description of Greece. Translated by W. H. S. Jones. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1918-1935. 5 v. (Loeb Classical Library).
Passagem essencial:
Livro V, 14.9 — altar de Kairós em Olímpia.
Essa passagem deve obrigatoriamente entrar na bibliografia da sua matéria.
2. POSÍDIPO DE PELA — Antologia Grega
Aqui encontramos uma das fontes mais preciosas para compreender a famosa representação de Kairós.
O epigrama de Posídipo descreve a estátua de Lisipo e explica justamente os elementos que tornaram Kairós famoso:
- cabelos na parte frontal;
- calvície atrás;
- pés alados;
- velocidade;
- impossibilidade de agarrá-lo depois que passa.
O Oxford Classical Dictionary identifica o epigrama de Posídipo na Anthologia Planudea 4.275 como uma das principais fontes para a interpretação da estátua de Lisipo.
Referência:
POSIDIPPUS. Epigrams. In: PATON, W. R. (ed.). The Greek Anthology. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1916-1918. 5 v. (Loeb Classical Library).
Também:
POSIDIPPUS. The New Posidippus: A Hellenistic Poetry Book. Edited by Kathryn Gutzwiller. Oxford: Oxford University Press, 2005.
3. CALÍSTRATO — Descrições
Uma fonte extraordinária para a nossa matéria.
Calístrato descreve diretamente a estátua de Kairós atribuída a Lisipo e interpreta seus elementos simbólicos: as asas nos pés representam a velocidade; os cabelos frontais indicam que a oportunidade pode ser agarrada quando se aproxima; depois que passa, a oportunidade desaparece.
Referência:
CALLISTRATUS. Descriptions. In: FAIRBANKS, Arthur (trad.). Philostratus the Elder; Philostratus the Younger; Callistratus. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1931. (Loeb Classical Library).
4. FÁEDRO — Fábulas
Fáedro preserva uma tradição latina extremamente importante sobre a figura da Occasio/Tempus.
A tradição apresenta a oportunidade como uma figura que deve ser agarrada pela frente e que não pode ser recuperada depois que passa.
Referência:
PHAEDRUS. Phaedri Fabulae Aesopiae. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1965.
É particularmente interessante porque ajuda a demonstrar que a imagem de Kairós não ficou restrita ao mundo grego.
5. AUSÔNIO — Epigrammata
Esta é provavelmente a fonte romana mais importante para Occasio.
No Epigrama XII, Ausônio apresenta explicitamente a figura de Occasio e Poenitentia — Ocasião e Arrependimento.
Occasio declara:
“Sum dea quae rara, et paucis OCCASIO nota.”
Ou seja, apresenta-se como uma deusa rara e conhecida por poucos.
Ela está sobre uma roda porque não consegue permanecer parada; possui asas porque é veloz; cobre o rosto com os cabelos; e é calva na nuca para não ser agarrada enquanto foge.
Essa passagem é ouro para a sua matéria.
Referência ABNT:
AUSONIUS, Decimus Magnus. Epigrams. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1919. (Loeb Classical Library).
6. ÉSQUILO, SÓFOCLES, EURÍPIDES E HOMERO
Aqui precisamos fazer uma distinção importante.
Não devemos colocar simplesmente “Homero, Ésquilo, Sófocles e Eurípides — Kairós” na bibliografia como se todos tivessem desenvolvido uma mitologia de Kairós.
O conceito kairós aparece dentro do vocabulário grego muito antes de sua personificação artística como divindade.
Portanto, para uma pesquisa realmente profunda, vale estudar o conceito nos textos gregos:
HOMERO
HOMER. Iliad.
HOMER. Odyssey.
O conceito de momento adequado, oportunidade e circunstância aparece no universo semântico da literatura grega, ainda que isso seja diferente da figura divina Kairós.
7. HESÍODO
HESIOD. Works and Days.
Hesíodo é fundamental para compreender a mentalidade grega sobre:
- tempo;
- estações;
- trabalho;
- oportunidade;
- prudência;
- momento adequado para agir.
Não é uma fonte primária específica sobre o deus Kairós, mas é excelente para construir o contexto cultural grego no qual o conceito se desenvolveu.
8. ÍON DE QUIOS
Este merece uma posição especial.
Pausânias informa que Íon de Quios havia escrito um hino a Kairós.
O problema é que o hino não sobreviveu integralmente.
Isso é importantíssimo para a matéria: podemos dizer que existiu uma tradição poética dedicada a Kairós, mas não podemos reconstruir seu conteúdo além dos testemunhos preservados.
Referência:
ION OF CHIOS. Fragments. In: SNELL, Bruno (ed.). Tragicorum Graecorum Fragmenta. Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht.
9. CÍCERO
Cícero é muito importante para compreender Occasio como conceito latino.
O Thesaurus Linguae Latinae e o Logeion, da Universidade de Chicago, registram occasio tanto como “oportunidade” quanto como Occasio personificada, incluindo referências a Fáedro e Ausônio.
Referências:
CICERO. De inventione. Cambridge, MA: Harvard University Press.
CICERO. De oratore. Cambridge, MA: Harvard University Press.
CICERO. De officiis. Cambridge, MA: Harvard University Press.
Para nossa investigação, Cícero é particularmente interessante porque conecta occasio, retórica, circunstância e ação.
10. QUINTILIANO — Institutio Oratoria
Aqui entramos diretamente no território do Kairós como princípio retórico.
QUINTILIAN. Institutio Oratoria. Cambridge, MA: Harvard University Press. 4 v. (Loeb Classical Library).
Quintiliano é essencial para investigar a questão:
Quando falar?
Como falar?
Em que circunstâncias falar?
Isso nos leva diretamente ao conceito de kairos retórico.
11. ARISTÓTELES
Para compreender Kairós filosoficamente, Aristóteles é indispensável.
ARISTÓTELES. Retórica
ARISTOTLE. On Rhetoric: A Theory of Civic Discourse. 2. ed. Translated by George A. Kennedy. New York: Oxford University Press, 2007.
ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco
ARISTOTLE. Nicomachean Ethics. Cambridge, MA: Harvard University Press. (Loeb Classical Library).
Aristóteles não apresenta simplesmente “Kairós, o deus”, mas oferece um contexto intelectual fundamental para compreender circunstância, escolha, prudência e ação adequada.
12. ISÓCRATES
Para a nossa matéria, Isócrates é particularmente interessante.
ISOCRATES. Isocrates. Cambridge, MA: Harvard University Press. (Loeb Classical Library).
A tradição de pensamento associada a Isócrates ajuda a compreender a ideia de que a sabedoria prática não consiste simplesmente em possuir regras universais, mas em saber julgar circunstâncias concretas.
Isso aproxima-se enormemente da dimensão filosófica de Kairós.
13. PLUTARCO
PLUTARCH. Moralia. Cambridge, MA: Harvard University Press. (Loeb Classical Library).
Plutarco é útil para investigar a relação entre:
- Fortuna;
- oportunidade;
- destino;
- acaso;
- prudência;
- ação humana.
Isso nos permite ampliar a matéria para uma pergunta fascinante:
Kairós é acaso ou oportunidade?
14. LUCIANO DE SAMÓSATA
LUCIAN. Lucian. Cambridge, MA: Harvard University Press. (Loeb Classical Library).
Luciano é particularmente interessante porque trabalha frequentemente com personificações, alegorias e sátira filosófica.
Além disso, a tradição posterior relacionada à Occasio e ao arrependimento dialoga com a ideia de que, uma vez perdido o momento, desejar voltar ao passado é inútil. A tradição emblemática posterior chegou a explorar explicitamente essa relação.
Estudos modernos fundamentais
15. OXFORD CLASSICAL DICTIONARY
ARAFAT, Karim. Kairos. In: Oxford Research Encyclopedia of Classics. Oxford: Oxford University Press, 2015.
Essa é uma das fontes acadêmicas modernas mais importantes que encontrei para o assunto.
O estudo confirma:
- Kairós como personificação da oportunidade;
- altar em Olímpia;
- relação com Íon de Quios;
- associação com Zeus;
- ausência de uma mitologia narrativa extensa;
- importância da estátua de Lisipo;
- cabelos na frente;
- calvície atrás;
- navalha;
- relação entre oportunidade e ação.
Eu colocaria esta referência entre as primeiras da bibliografia.
16. LIDDELL & SCOTT — Greek-English Lexicon
LIDDELL, Henry George; SCOTT, Robert. A Greek-English Lexicon. Revised and augmented by Henry Stuart Jones. Oxford: Clarendon Press.
É fundamental para estudar o significado de:
καιρός — kairós
porque precisamos distinguir os sentidos linguísticos da palavra da posterior personificação divina.
17. LEWIS & SHORT — A Latin Dictionary
LEWIS, Charlton T.; SHORT, Charles. A Latin Dictionary. Oxford: Clarendon Press.
Fonte indispensável para:
occasio
e para verificar os diferentes significados da palavra no latim clássico.
O Logeion, da Universidade de Chicago, registra occasio como “opportunity” e também registra seu uso personificado como Occasio, a deusa da oportunidade, em Fáedro e Ausônio.
18. JANE ELLEN HARRISON
HARRISON, Jane Ellen. Mythology and Monuments of Ancient Athens. London: Macmillan, 1890.
É uma obra clássica dos estudos da religião grega.
Ela é particularmente interessante porque Harrison interpretou Kairós em relação à ação humana e à capacidade de transformar um tempo passivo em tempo efetivamente aproveitado pela ação.
19. ERWIN PANOFSKY — Studies in Iconology
PANOFSKY, Erwin. Studies in Iconology: Humanistic Themes in the Art of the Renaissance. New York: Oxford University Press, 1939.
Não é uma obra exclusivamente sobre Kairós.
Mas é extremamente importante para compreender como conceitos abstratos da Antiguidade transformaram-se em imagens e alegorias na tradição ocidental.
20. CESARE RIPA — Iconologia
RIPA, Cesare. Iconologia. Roma, 1593.
Aqui entramos em uma etapa fundamental da história de Occasio.
A Renascença recuperou e reinterpretou a iconografia antiga de:
- Fortuna;
- Ocasião;
- Tempo;
- Prudência;
- Arrependimento.
Occasio deixa de ser apenas uma reminiscência da Antiguidade e passa a integrar o grande universo das alegorias europeias.
21. ERASMO DE ROTERDÃ
ERASMUS. Adagia. Toronto: University of Toronto Press.
Os Adagia são extremamente interessantes para investigar a sobrevivência de provérbios clássicos e ideias como:
“ocasião”
“oportunidade”
“momento adequado”
e o famoso princípio de que a oportunidade precisa ser reconhecida antes que desapareça.
22. EDWARD SPENSER — The Faerie Queene
SPENSER, Edmund. The Faerie Queene. London, 1590.
Aqui encontramos uma demonstração maravilhosa da sobrevivência da figura alegórica de Occasion na literatura inglesa.
Estudos sobre The Faerie Queene identificam a personificação de Occasion como uma tradição que remonta à Antiguidade tardia, especialmente a Ausônio e Fáedro, posteriormente desenvolvida pelos livros de emblemas.
Isso é excelente para ampliar a matéria para o mundo ocidental.
23. WILLIAM SHAKESPEARE
Para uma investigação sobre a sobrevivência cultural do conceito de oportunidade, vale consultar:
SHAKESPEARE, William. The Complete Works. Oxford: Oxford University Press.
Não porque Shakespeare tenha escrito uma narrativa sobre o deus Kairós, mas porque a ideia de ocasião, tempo, oportunidade e decisão atravessa profundamente seu teatro.
24. ESTUDOS SOBRE RETÓRICA E KAIROS
Uma segunda bibliografia poderia ser construída especificamente em torno do conceito de kairos retórico.
Um ponto de partida importante é:
KIRKWOOD, James M. Rhetoric and Kairos.
E também a literatura moderna sobre:
- kairos;
- rhetoric;
- rhetorical situation;
- exigence;
- timing;
- persuasion.
Isso nos permitiria fazer uma ponte extraordinária:
Kairós como divindade → Kairós como conceito filosófico → Kairós como princípio retórico → Kairós como conceito moderno de oportunidade.
25. FONTES DIGITAIS ACADÊMICAS QUE VALEM A PENA
Para continuar a investigação, eu utilizaria principalmente:
- Oxford Classical Dictionary
- Oxford Research Encyclopedias
- Perseus Digital Library
- Loeb Classical Library
- Thesaurus Linguae Latinae
- Thesaurus Linguae Graecae
- Logeion — University of Chicago
- JSTOR
- Project MUSE
- Internet Archive
- Google Books
- Theoi Classical Texts Library, como ferramenta auxiliar, nunca como substituta das edições críticas.
O Logeion, por exemplo, é particularmente útil para nossa pesquisa porque registra diretamente occasio como oportunidade e também como a personificação Occasio.
A bibliografia essencial para a sua matéria
Se você não quiser colocar 40 ou 50 referências no final do artigo, eu faria uma seleção principal com estas:
- PAUSÂNIAS — Descrição da Grécia, V.14.9.
- POSÍDIPO — Antologia Grega, epigrama sobre Kairós/Lisipo.
- CALÍSTRATO — Descrições, VI.
- FÁEDRO — Fábulas, V.8.
- AUSÔNIO — Epigrammata, XII — In simulacrum Occasionis et Poenitentiae.
- ARAFAT, Karim — “Kairos”, Oxford Research Encyclopedia of Classics.
- ARISTÓTELES — Retórica.
- ARISTÓTELES — Ética a Nicômaco.
- ISÓCRATES — Discursos.
- CÍCERO — De Oratore.
- QUINTILIANO — Institutio Oratoria.
- PLUTARCO — Moralia.
- LIDDELL & SCOTT — A Greek-English Lexicon.
- LEWIS & SHORT — A Latin Dictionary.
- PANOFSKY — Studies in Iconology.
- RIPA — Iconologia.
- SPENSER — The Faerie Queene.
E há uma coisa especialmente interessante para o seu artigo: a pesquisa mostra que a imagem de Occasio não desapareceu depois de Roma. Ela atravessou a Antiguidade tardia, a Idade Média e a Renascença, reaparecendo em literatura, livros de emblemas e iconografia europeia. A própria tradição de Occasio acompanhada por Poenitentia/Metanoia é uma chave para entender por que a figura da oportunidade calva atrás se tornou tão duradoura.
Isso abre uma segunda metade fantástica para a matéria: depois de Grécia e Roma, poderíamos investigar “A sobrevivência de Kairós e Occasio na Idade Média, Renascença, literatura inglesa e cultura ocidental moderna” — chegando até a expressão contemporânea “seize the moment” / “aproveite a oportunidade”.

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