São Tomás de Aquino, Súcubos e Íncubos: Os Demônios Sexuais da Idade Média e Seus Paralelos em Todas as Religiões e Mitologias

 

 




Súcubos e Íncubos: Demônios Sexuais, Geração de Descendentes e a Tradição de São Tomás de Aquino — Um Estudo Comparativo entre a Demonologia Cristã, as Mitologias Antigas e as Religiões do Mundo


Introdução

A origem da crença em entidades espirituais capazes de manter relações sexuais com seres humanos atravessa praticamente toda a história da humanidade. Desde a Mesopotâmia até o cristianismo medieval, passando pelo Egito, Grécia, Roma, Índia, China, Japão, Islã e tradições indígenas, encontram-se narrativas descrevendo espíritos, demônios, deuses ou seres sobrenaturais que visitariam homens e mulheres durante o sono, provocando sonhos eróticos, doenças, gravidez, nascimento de heróis, linhagens extraordinárias ou mesmo vampirização da energia vital.

Entre todas essas tradições, poucas exerceram tanta influência sobre o pensamento ocidental quanto os escritos de São Tomás de Aquino (1225–1274). Na Summa Theologiae, especialmente na Prima Pars, questão 51, artigo 3 (Utrum daemones possint generare?), Tomás aborda diretamente a questão dos íncubos e súcubos. Sua conclusão tornou-se uma das formulações mais influentes da demonologia medieval: demônios não possuem corpo natural e, portanto, não geram vida por si mesmos, mas poderiam agir utilizando matéria biológica humana obtida por meios extraordinários.

Essa interpretação, posteriormente ampliada por inquisidores e demonólogos dos séculos XV e XVI, alimentou centenas de processos inquisitoriais, tratados teológicos e crenças populares.

Mas até que ponto essa ideia era exclusivamente cristã?

Ou ela representava apenas uma adaptação medieval de crenças muito mais antigas?

Esta investigação procura responder essa pergunta através da comparação entre dezenas de tradições religiosas, textos antigos, obras filosóficas, tratados medievais, pesquisas históricas e estudos contemporâneos.


PARTE II — SÃO TOMÁS DE AQUINO E A DOUTRINA DOS SÚCUBOS E ÍNCUBOS

Capítulo I

São Tomás de Aquino e a Construção da Demonologia Medieval

São Tomás de Aquino (1225–1274) é considerado o maior filósofo e teólogo da Escolástica. Seu objetivo nunca foi escrever um livro sobre demônios, mas construir um sistema filosófico que harmonizasse Aristóteles com a doutrina cristã.

A questão dos íncubos e súcubos aparece dentro da Summa Theologiae, especialmente na Prima Pars, Questão 51, Artigo 3 (Utrum daemones possint generare? — "Se os demônios podem gerar descendência").

Para compreender seu pensamento, é necessário lembrar que Tomás parte de quatro premissas fundamentais:

  • Deus criou apenas anjos bons.
  • Alguns anjos rebelaram-se e tornaram-se demônios.
  • Os demônios continuam sendo inteligências puramente espirituais.
  • Espíritos não possuem órgãos reprodutores.

Esse último ponto torna-se decisivo.

Ao contrário da crença popular medieval, Tomás afirma que os demônios não possuem capacidade biológica própria para reprodução.

Isso já representa uma diferença importante entre a teologia escolástica e muitas lendas populares.


Capítulo II

A Questão 51 da Summa Theologiae

No artigo dedicado aos íncubos e súcubos, Tomás faz uma pergunta extremamente específica:

"Podem os demônios gerar filhos?"

Ele apresenta inicialmente argumentos favoráveis.

Um deles baseia-se justamente nos relatos populares da Idade Média.

Muitas pessoas afirmavam:

  • mulheres engravidadas por demônios;
  • homens atacados durante o sono;
  • crianças consideradas "filhas do Diabo";
  • monges tentados por entidades femininas.

Tomás cita inclusive uma tradição já conhecida desde Santo Agostinho:

"É opinião comum, confirmada por muitos testemunhos, que certos demônios, chamados íncubos, costumam unir-se às mulheres."

Entretanto, logo em seguida, ele começa a desmontar essa interpretação literalmente biológica.

Segundo sua filosofia:

"Nenhum espírito pode produzir sêmen."

Essa frase é fundamental.

Ela elimina a hipótese de uma reprodução propriamente demoníaca.


Capítulo III

Como Tomás Explica a Gravidez Atribuída aos Demônios

Aqui encontramos uma das passagens mais conhecidas de toda a demonologia medieval.

Segundo Tomás:

Um demônio poderia agir primeiro como súcubo, assumindo aparência feminina.

Nessa condição, recolheria o sêmen de um homem.

Posteriormente, assumiria forma masculina, tornando-se um íncubo.

Depois introduziria esse mesmo sêmen em outra mulher.

Assim escreve Tomás:

"O mesmo demônio que age como súcubo para um homem pode tornar-se íncubo para uma mulher."

Essa frase tornou-se uma das mais famosas da demonologia cristã.

Observe o detalhe.

Segundo Tomás:

não existe criação de vida pelo demônio.

Existe apenas transporte.

Ele continua:

"A geração pertence ao sêmen humano, não ao demônio."

Portanto:

a criança seria biologicamente humana.

Jamais meio demônio.

Essa conclusão contrasta fortemente com inúmeras lendas populares que falavam em híbridos demoníacos.


Capítulo IV

O Funcionamento Filosófico Segundo Tomás de Aquino

A teoria de Tomás baseia-se totalmente na física aristotélica.

Os anjos seriam:

  • inteligências;
  • sem matéria;
  • sem metabolismo;
  • sem reprodução.

Logo:

não possuem DNA;

não possuem sangue;

não possuem células;

não possuem órgãos.

Consequentemente:

não poderiam produzir gametas.

Nem óvulos.

Nem espermatozoides.

Segundo Tomás:

o demônio apenas movimentaria matéria já existente.

Sua função seria semelhante à de um intermediário invisível.

Essa explicação procura preservar dois princípios:

  1. somente Deus cria vida;

  2. somente seres humanos geram seres humanos.

Assim, Tomás evita atribuir aos demônios um poder criador equivalente ao divino.


Capítulo V

A Influência dessa Doutrina na Europa

Apesar da cautela filosófica de Tomás, suas ideias acabaram sendo reinterpretadas de maneira muito mais radical pelos demonólogos dos séculos XV e XVI.

Autores posteriores passaram a citar sua autoridade para justificar inúmeras crenças.

Entre elas:

  • gravidez demoníaca;
  • pactos sexuais com o Diabo;
  • nascimento de bruxas;
  • crianças trocadas (changelings);
  • visitas noturnas.

Essas ideias aparecem posteriormente em obras como:

  • Malleus Maleficarum (1487);
  • Compendium Maleficarum;
  • Démonomanie des Sorciers;
  • tratados inquisitoriais franceses;
  • tratados espanhóis;
  • literatura alemã sobre bruxaria.

Entretanto, muitas dessas obras extrapolaram significativamente o que Tomás realmente escreveu.

Enquanto ele defendia que o demônio não gera vida, muitos autores posteriores passaram a sugerir descendências demoníacas quase literais.


Análise Comparativa

Quando se compara a posição de São Tomás com outras tradições religiosas, surgem diferenças importantes.

Na Mesopotâmia, os espíritos Lilû e Ardat-Lili eram considerados capazes de manter relações sexuais com humanos.

Na tradição judaica posterior, Lilith tornou-se uma figura associada à sedução noturna.

Na Grécia antiga, Lâmia e Empusa possuíam funções semelhantes.

Na tradição islâmica aparecem narrativas envolvendo certos jinn que podem seduzir ou atormentar seres humanos em sonhos, embora as interpretações variem entre escolas.

Em muitas dessas tradições, a narrativa é mais mitológica do que filosófica.

Tomás de Aquino, por outro lado, procura racionalizar essas crenças segundo a metafísica aristotélica, negando que espíritos possam criar vida biologicamente.


Probabilidades à Luz da Ciência Atual

Do ponto de vista da ciência contemporânea, as principais hipóteses para os relatos históricos incluem:

  • Paralisia do sono: episódios em que a pessoa desperta parcialmente durante o sono REM, sente uma presença, pressão no peito e, por vezes, experiências táteis ou sexuais. Esse fenômeno é bem documentado na medicina e pode explicar muitos relatos tradicionalmente atribuídos a íncubos e súcubos.

  • Sonhos lúcidos e sonhos eróticos: experiências vívidas que podem ser interpretadas, conforme o contexto cultural, como encontros com entidades sobrenaturais.

  • Alucinações hipnagógicas e hipnopômpicas: percepções visuais, auditivas ou táteis que ocorrem na transição entre vigília e sono.

  • Fatores psicológicos e culturais: crenças religiosas, culpa, repressão sexual e expectativas culturais podem influenciar a interpretação dessas experiências.

Quanto à hipótese de um ser incorpóreo transportar material genético humano entre indivíduos para produzir uma gravidez, não há evidências empíricas reproduzíveis que a sustentem. A biologia moderna explica a fecundação pela união de gametas em condições fisiológicas conhecidas, e não existem dados experimentais que confirmem a intervenção de entidades espirituais nesse processo.

Assim, sob o ponto de vista histórico, os textos de São Tomás de Aquino têm enorme importância para compreender a evolução da demonologia medieval e da filosofia cristã. Sob o ponto de vista científico atual, porém, suas explicações são entendidas como parte do conhecimento e da cosmologia disponíveis no século XIII, não como descrições confirmadas de fenômenos biológicos ou físicos.



PARTE III — RELATÓRIO DE INVESTIGAÇÃO HISTÓRICA

Capítulo VI

As Fontes Utilizadas por São Tomás de Aquino

Para compreender corretamente a teoria dos súcubos e íncubos em São Tomás de Aquino, é necessário responder a uma pergunta fundamental:

De onde ele tirou essas ideias?

Ao contrário do que muitos imaginam, Tomás de Aquino não inventou essa doutrina. Ele reuniu, organizou e reinterpretou tradições muito mais antigas, buscando conciliá-las com a filosofia aristotélica e a teologia cristã.

Entre suas principais influências estão:

  • A Bíblia (especialmente Gênesis e Jó).
  • Os escritos de Santo Agostinho.
  • As obras de São Gregório Magno.
  • O tratado De Civitate Dei (A Cidade de Deus).
  • Aristóteles.
  • Pseudo-Dionísio Areopagita.
  • Tradições populares medievais amplamente difundidas.

Um dos autores mais importantes para Tomás foi Santo Agostinho (354–430).

No livro XV de A Cidade de Deus, Agostinho afirma:

"É uma opinião muito difundida, e muitos a confirmam por experiência própria ou pelo testemunho de outros dignos de fé, que certos demônios, chamados íncubos, costumam molestar mulheres."

Essa passagem não é apresentada como prova definitiva, mas como um testemunho da tradição de sua época. Tomás a utiliza como ponto de partida para uma análise filosófica, perguntando não se os relatos existiam, mas como poderiam ser explicados sem contrariar os princípios da criação divina.

Outro autor importante foi Isidoro de Sevilha (c. 560–636), cuja obra Etimologias reúne diversas crenças sobre espíritos, demônios e seres sobrenaturais, incluindo descrições de entidades que visitariam pessoas durante o sono.

Além disso, Tomás conhecia os textos de Aristóteles, especialmente a Metafísica e Da Geração dos Animais, que influenciaram sua concepção de reprodução, forma, matéria e causalidade.

Sua proposta, portanto, foi uma tentativa de integrar relatos tradicionais com um sistema filosófico coerente.


Capítulo VII

A Interpretação Medieval dos Sonhos, das Visões e das Experiências Noturnas

Na Idade Média, a fronteira entre o mundo físico e o espiritual era concebida de forma muito diferente da visão contemporânea.

Acreditava-se que:

  • anjos podiam aparecer em forma humana;
  • demônios podiam assumir corpos aparentes;
  • sonhos podiam conter mensagens divinas ou demoníacas;
  • doenças podiam ter causas espirituais.

Dentro desse contexto, experiências como:

  • sensação de peso sobre o peito ao acordar;
  • incapacidade temporária de se mover;
  • sensação de uma presença invisível;
  • sonhos de natureza sexual extremamente vívidos;

eram frequentemente interpretadas como ataques de íncubos ou súcubos.

Tomás de Aquino não descreve esses episódios como meras ilusões, mas admite que demônios poderiam agir sobre a imaginação e os sentidos externos, produzindo percepções muito convincentes.

Ele escreve, em síntese, que os demônios podem influenciar a imaginação humana e mover os humores corporais, sem criar novas faculdades na alma. Essa distinção é importante: para Tomás, a ação demoníaca ocorre sobre os sentidos e a imaginação, não sobre a essência espiritual da pessoa.

Essa ideia dialoga com o conhecimento médico medieval, baseado na teoria dos quatro humores, segundo a qual alterações físicas poderiam modificar emoções, sonhos e percepções.

À luz da ciência atual, muitos desses relatos podem ser interpretados como episódios de paralisia do sono, alucinações hipnagógicas ou sonhos lúcidos. No entanto, do ponto de vista histórico, a interpretação medieval refletia a cosmologia e a medicina disponíveis na época.

No próximo segmento, aprofundaremos a comparação entre essas concepções medievais e narrativas semelhantes presentes na Mesopotâmia, no judaísmo, na Grécia, no Egito, no Islã, na Índia e em outras tradições, analisando convergências, diferenças e possíveis origens culturais compartilhadas.



PARTE IV — ESTUDO COMPARATIVO DAS ORIGENS DOS SÚCUBOS E ÍNCUBOS

Capítulo VIII

A Mesopotâmia: O Berço da Crença em Demônios Sexuais

Ao investigar historicamente a origem da crença em súcubos e íncubos, a maioria dos historiadores das religiões aponta para a antiga Mesopotâmia como a fonte mais antiga documentada.

Entre aproximadamente 3000 e 2000 a.C., os sumérios já descreviam entidades espirituais associadas ao sono, à fertilidade, à doença e à sexualidade.

Entre elas destacam-se:

  • Lilû (espírito masculino);
  • Ardat-Lili (espírito feminino);
  • Lamashtu;
  • Gallû;
  • Utukku.

Esses nomes aparecem em tábuas cuneiformes, encantamentos e textos mágico-religiosos.

Lilû

Lilû era considerado um espírito masculino do vento.

Alguns textos afirmam que ele visitava mulheres durante o sono.

Seu comportamento apresenta notável semelhança com o que mais tarde seria chamado de íncubo.

Ardat-Lili

Ardat-Lili era descrita como um espírito feminino.

Os textos afirmam que ela:

  • seduzia homens durante o sono;
  • provocava sonhos eróticos;
  • retirava energia vital;
  • impedia casamentos;
  • provocava infertilidade.

A semelhança com o súcubo medieval é evidente.

Muitos assiriólogos acreditam que o conceito europeu de súcubo deriva parcialmente dessas tradições mesopotâmicas, embora tenha sofrido profundas transformações ao longo dos séculos.

Lamashtu

Lamashtu era uma figura demoníaca associada:

  • ao ataque de mulheres grávidas;
  • ao aborto;
  • à morte de recém-nascidos;
  • às doenças infantis.

Embora não seja propriamente um súcubo, representa outro exemplo de entidade ligada à sexualidade e à reprodução.


Capítulo IX

Lilith: Da Mesopotâmia ao Judaísmo

Uma das figuras mais conhecidas relacionadas aos súcubos é Lilith.

Sua evolução histórica é complexa.

Primeira fase

Na Mesopotâmia, "Lilitu" designava uma categoria de espíritos femininos associados ao vento e à noite.

Não existia ainda uma personagem única chamada Lilith.

Segunda fase

Durante o exílio babilônico dos judeus (século VI a.C.), essas tradições provavelmente influenciaram parte do imaginário judaico.

No livro de Isaías (34:14), aparece um termo hebraico frequentemente traduzido como "Lilith" ou "criatura da noite", dependendo da versão bíblica.

Terceira fase

Nos séculos posteriores, especialmente no Alfabeto de Ben Sira (obra medieval, não canônica), Lilith passa a ser apresentada como a primeira esposa de Adão.

Segundo essa narrativa:

  • recusou-se a obedecer a Adão;
  • abandonou o Éden;
  • tornou-se mãe de inúmeros demônios;
  • passou a seduzir homens durante a noite;
  • atacaria mulheres grávidas e crianças.

É importante destacar que essa tradição não faz parte do texto bíblico de Gênesis, mas pertence ao folclore judaico medieval.

Ainda assim, ela influenciou fortemente a demonologia cristã e a cultura popular.


Capítulo X

Os Vigilantes, os Nephilim e a Hipótese de Uniões entre Seres Celestes e Humanos

Outro conjunto de tradições frequentemente associado aos íncubos e súcubos encontra-se no Livro de Enoque, obra judaica do período do Segundo Templo.

Segundo essa narrativa:

  • duzentos anjos chamados Vigilantes desceram à Terra;
  • tomaram mulheres humanas;
  • ensinaram conhecimentos proibidos;
  • geraram gigantes chamados Nephilim.

Essa tradição difere profundamente da posição de São Tomás de Aquino.

Para Tomás:

  • anjos são espíritos;
  • espíritos não possuem corpo biológico;
  • portanto, não podem gerar descendentes.

Já o Livro de Enoque descreve uma união física entre seres celestes e mulheres humanas.

Essa divergência mostra que a tradição cristã escolástica reinterpretou narrativas muito mais antigas à luz da filosofia aristotélica.


Relatório Comparativo Parcial

Até este ponto da investigação, observa-se um padrão recorrente em diferentes culturas:

  • Mesopotâmia: espíritos masculinos e femininos associados ao sono e à sexualidade.
  • Judaísmo pós-bíblico: Lilith como figura sedutora e ameaçadora; desenvolvimento de tradições sobre demônios noturnos.
  • Livro de Enoque: anjos que se unem a mulheres humanas e geram gigantes.
  • Cristianismo medieval (São Tomás de Aquino): rejeição da geração direta por demônios, admitindo apenas uma ação indireta por meio de matéria humana.
  • Europa medieval posterior: ampliação popular dessas ideias, muitas vezes atribuindo aos demônios poderes que Tomás explicitamente negava.

Sob a perspectiva da história das religiões, esse padrão sugere que a crença em entidades sobrenaturais ligadas à sexualidade possui raízes muito anteriores ao cristianismo. Entretanto, não há consenso acadêmico de que exista uma única origem para todas essas tradições; é possível que diferentes culturas tenham desenvolvido narrativas semelhantes de forma independente ou por influência cultural ao longo de milênios.

No próximo segmento, ampliaremos a comparação para as tradições da Grécia, Roma, Egito, Pérsia, Islã, Índia, China, Japão e outras culturas, avaliando semelhanças, diferenças e possíveis mecanismos históricos de transmissão dessas crenças.


PARTE V — DOS DEMÔNIOS SEXUAIS NAS GRANDES CIVILIZAÇÕES DA ANTIGUIDADE

Capítulo XI

Grécia Antiga: Lâmia, Empusa, Mormo e as Entidades Sedutoras

Ao comparar a demonologia medieval com a mitologia grega, percebe-se que várias figuras apresentam características semelhantes às atribuídas posteriormente aos súcubos e íncubos. No entanto, é importante destacar que não existe na Grécia Antiga um equivalente exato a essas entidades medievais; trata-se de comparações funcionais, não de identidades.

Lâmia (Λάμια)

A Lâmia teria sido originalmente uma rainha da Líbia amada por Zeus. Segundo o mito, por ciúmes, Hera matou seus filhos ou a levou à loucura. Em versões posteriores, Lâmia transforma-se em um ser monstruoso que seduz homens, alimenta-se de crianças e representa o perigo da sexualidade descontrolada.

Na Antiguidade tardia e na Idade Média, sua imagem aproximou-se da ideia de uma entidade noturna que seduz homens e lhes retira a força vital.

Semelhanças com o súcubo:

  • visitas noturnas;
  • sedução;
  • exaustão da vítima;
  • associação com a morte e o medo.

Diferenças:

  • a Lâmia é um personagem mitológico, não um demônio na concepção cristã;
  • não há uma tradição consistente de que engravidasse homens ou mulheres.

Empusa

A Empusa aparece em textos atribuídos a Aristófanes e em tradições posteriores como uma serva da deusa Hécate.

Era descrita como capaz de:

  • mudar de forma;
  • assumir aparência de jovem bela;
  • atrair viajantes;
  • alimentar-se de sua energia ou carne.

Na literatura bizantina, a Empusa passa a ser ainda mais semelhante ao súcubo medieval.


Mormo

Outra figura ligada ao terror noturno.

Era utilizada para assustar crianças e explicar pesadelos.

Embora menos associada à sexualidade, demonstra que os gregos já concebiam entidades responsáveis por experiências noturnas aterrorizantes.


Comparação com São Tomás

Enquanto Tomás interpreta os ataques noturnos dentro de uma estrutura teológica e metafísica, os gregos os explicavam por meio de seres pertencentes ao universo mitológico, sem uma sistematização filosófica comparável.


Capítulo XII

Roma Antiga: Strix, Estriges e os Espíritos Noturnos

Os romanos herdaram muitos elementos da cultura grega, mas desenvolveram tradições próprias.

Entre elas destacam-se as Striges (ou Strix).

Essas criaturas eram descritas como aves demoníacas ou mulheres metamorfoseadas que atacavam pessoas durante a noite.

Algumas características:

  • sugavam sangue;
  • atacavam recém-nascidos;
  • provocavam doenças;
  • alimentavam-se da força vital.

Com o passar dos séculos, as Striges foram incorporadas ao imaginário medieval e influenciaram as lendas de bruxas, vampiros e demônios noturnos.

Embora não fossem descritas como súcubos propriamente ditos, compartilhavam elementos comuns:

  • atuação noturna;
  • ataque a pessoas adormecidas;
  • drenagem da vitalidade.

Capítulo XIII

Egito Antigo: Espíritos, Magia e Sexualidade

O Egito não desenvolveu uma figura equivalente ao súcubo medieval, mas há registros de crenças em espíritos capazes de interferir na vida íntima dos seres humanos.

Os chamados "mortos inquietos" poderiam:

  • causar infertilidade;
  • provocar doenças;
  • interferir em casamentos;
  • atormentar os vivos por meio de sonhos.

Papiros mágicos egípcios apresentam encantamentos destinados a afastar espíritos que perturbariam o sono ou causariam desordens familiares.

Embora o componente sexual não seja tão enfatizado quanto na Mesopotâmia, há paralelos quanto à associação entre sonhos, fertilidade e influência sobrenatural.


Capítulo XIV

Pérsia Antiga e o Zoroastrismo

Na religião zoroastrista, o universo é marcado pela luta entre Ahura Mazda (o Bem) e Angra Mainyu (o Mal).

Diversos daevas (seres malignos) eram associados à corrupção moral, à mentira, à doença e à tentação.

Alguns textos pahlavi mencionam entidades femininas demoníacas relacionadas à luxúria e à sedução, mas elas não desempenham exatamente o mesmo papel dos súcubos medievais.

Ainda assim, estudiosos apontam que a demonologia persa influenciou, em parte, o desenvolvimento posterior das concepções judaicas e cristãs sobre espíritos malignos, especialmente durante e após o exílio babilônico.


Relatório Comparativo Parcial

A análise das tradições da Grécia, Roma, Egito e Pérsia revela um conjunto de padrões recorrentes:

  1. Experiências noturnas: em praticamente todas essas culturas há relatos de entidades associadas ao sono, aos pesadelos ou à sensação de uma presença invisível.

  2. Sexualidade e sedução: a figura feminina sedutora e perigosa aparece em diferentes contextos culturais, embora com funções variadas.

  3. Perda de energia ou vitalidade: muitos desses seres são descritos como enfraquecendo ou adoecendo suas vítimas.

  4. Fertilidade e reprodução: algumas tradições vinculam essas entidades à gravidez, à infertilidade ou ao nascimento de crianças extraordinárias.

Apesar dessas semelhanças, não existe evidência histórica de que todas essas narrativas derivem de uma única tradição original. A hipótese mais aceita entre historiadores das religiões é que houve tanto influências culturais entre civilizações vizinhas quanto o desenvolvimento independente de mitos semelhantes para explicar experiências humanas comuns, como sonhos vívidos, paralisia do sono, ansiedade sexual e mortalidade infantil.

No próximo segmento, a investigação avançará para as tradições do Islã, da Índia, da China, do Japão e de outras culturas asiáticas, examinando como elas interpretam entidades espirituais associadas ao sono, à sedução e à reprodução, e comparando esses relatos com a demonologia cristã medieval e as interpretações da ciência contemporânea.


PARTE VI — A CRENÇA EM ENTIDADES SEXUAIS SOBRENATURAIS NAS RELIGIÕES ORIENTAIS

Capítulo XV

O Islã: Jinn, Qarina e os Casamentos com Espíritos

Ao contrário do cristianismo medieval, o Islã não desenvolveu uma doutrina oficial sobre súcubos e íncubos com esses nomes. Entretanto, a literatura islâmica clássica, o folclore e alguns comentaristas discutem a possibilidade de interação entre seres humanos e jinn (gênios), seres criados por Deus "de fogo sem fumaça", distintos dos anjos e dos humanos.

O Alcorão afirma que os jinn possuem livre-arbítrio, podem crer ou descrer, casar-se entre si e formar comunidades. Contudo, o texto corânico não afirma que eles engravidem seres humanos.

Em obras de juristas e estudiosos medievais há debates sobre alegações de pessoas que afirmavam manter relações com jinn. Alguns autores rejeitaram essas histórias; outros admitiram a possibilidade de contatos espirituais, mas divergiram quanto à natureza desses relatos.

A Qarina

No folclore de várias regiões do Oriente Médio aparece a figura da Qarina (ou Qareen/Qarinah, com variantes regionais). Em algumas tradições populares, ela é descrita como um espírito associado a cada pessoa ou como uma entidade feminina capaz de seduzir homens durante o sono. Essas descrições, porém, não constituem uma doutrina islâmica universal, mas pertencem principalmente ao folclore e a interpretações locais.

Semelhanças com o súcubo:

  • aparições noturnas;
  • sedução;
  • sonhos intensos.

Diferenças:

  • não existe consenso religioso sobre gravidez causada por jinn;
  • as interpretações variam entre escolas teológicas e tradições populares.

Capítulo XVI

A Índia: Yakshinis, Apsaras, Vetalas e Outras Entidades

A tradição hindu é extremamente rica em seres sobrenaturais, mas poucos correspondem exatamente aos súcubos e íncubos medievais.

Yakshinis

As Yakshinis são espíritos femininos da natureza. Em textos tântricos e folclóricos, algumas aparecem como belas mulheres capazes de conceder riqueza, conhecimento ou poderes aos praticantes, enquanto outras podem seduzir ou testar ascetas.

Apsaras

As Apsaras são ninfas celestiais. Em epopeias como o Mahabharata e o Ramayana, elas frequentemente seduzem sábios e heróis, às vezes por ordem dos deuses, para interromper longas penitências.

Embora haja relações amorosas entre apsaras e humanos, essas figuras não são demônios e exercem papéis variados, muitas vezes positivos.

Vetalas

Os Vetalas são espíritos associados a cadáveres e cemitérios. Embora não sejam seres sexuais, influenciaram parte da literatura demonológica asiática por sua capacidade de possuir corpos e interagir com os vivos.


Capítulo XVII

China: Espíritos-Raposa e a Energia Vital

Na tradição chinesa, uma das figuras mais conhecidas é a Huli Jing, a raposa espiritual.

Após muitos anos de existência, acredita-se que algumas raposas adquiram poderes sobrenaturais e possam assumir forma humana.

Em certas narrativas, essas entidades:

  • tornam-se mulheres extremamente belas;
  • seduzem homens;
  • absorvem sua energia vital (qi);
  • prolongam a própria existência.

Em outras histórias, porém, a Huli Jing é benevolente e até ajuda seres humanos.

Essa ambiguidade distingue a tradição chinesa da demonologia medieval europeia, em que súcubos e íncubos são sempre classificados como demônios.


Capítulo XVIII

Japão: Kitsune, Yōkai e Sonhos Sobrenaturais

O Japão preservou muitas narrativas sobre seres espirituais (yōkai).

Entre eles destaca-se a Kitsune, a raposa sobrenatural.

Dependendo da tradição, ela pode:

  • casar-se com humanos;
  • gerar filhos;
  • proteger famílias;
  • ou enganar e seduzir pessoas.

Também existem lendas sobre espíritos femininos que visitam homens durante o sono ou estabelecem vínculos amorosos com mortais.

Entretanto, essas histórias são geralmente interpretadas dentro do universo folclórico xintoísta e budista, e não como uma demonologia sistemática.


Relatório Comparativo Geral

Ao comparar as tradições orientais com a demonologia cristã medieval, surgem diferenças importantes:

Tradição Entidade Sedução Relação com humanos Gravidez humana atribuída
Cristianismo medieval Súcubo/Íncubo Sim Sim Admitida por alguns autores medievais, mas reinterpretada por Tomás de Aquino como uso de sêmen humano
Islã (folclore) Alguns jinn/Qarina Sim (em certas tradições) Sim Não há consenso nem doutrina oficial
Hinduísmo Yakshinis/Apsaras Sim Sim Ocorre em alguns mitos, mas sem equivalência direta aos súcubos
China Huli Jing Sim Sim Pode haver descendência em lendas, sem caráter demonológico cristão
Japão Kitsune Sim Sim Há lendas de casamento e filhos, em contexto folclórico

Análise Histórica

A comparação mostra que a ideia de entidades sobrenaturais capazes de seduzir humanos é extraordinariamente difundida. Contudo, o conceito específico de súcubo e íncubo como formulado na demonologia cristã medieval é uma construção própria desse contexto, ainda que tenha incorporado elementos de tradições mais antigas.

Sob a ótica da história comparada das religiões, estudiosos apontam que essas narrativas podem refletir:

  • a tentativa de explicar sonhos eróticos e experiências noturnas antes do desenvolvimento da medicina moderna;
  • preocupações culturais com sexualidade, fertilidade e descendência;
  • influências recíprocas entre civilizações ao longo de séculos.

Já a ciência contemporânea não encontrou evidências verificáveis de entidades sobrenaturais que provoquem fecundação humana. Fenômenos como paralisia do sono, sonhos lúcidos, alucinações hipnagógicas e fatores psicológicos oferecem explicações naturalistas para muitos relatos históricos, sem esgotar, porém, o interesse histórico, cultural e religioso dessas tradições.


PARTE VII — A HIPÓTESE DOS HÍBRIDOS: EXISTIRAM DESCENDENTES DE SÚCUBOS E ÍNCUBOS?

Capítulo XIX

O Grande Debate da Idade Média

Uma das maiores questões enfrentadas pelos teólogos medievais era:

Poderiam existir filhos de demônios?

Essa pergunta surgiu principalmente por causa de duas passagens bíblicas.

A primeira encontra-se em Gênesis 6:1–4:

"Os filhos de Deus viram que as filhas dos homens eram formosas e tomaram para si mulheres dentre todas as que escolheram... Naqueles dias havia gigantes na terra..."

Durante séculos, essa passagem foi interpretada de diferentes maneiras.

As principais interpretações históricas são:

Primeira interpretação

Os "filhos de Deus" seriam anjos caídos.

Essa interpretação aparece no Livro de Enoque, no Livro dos Jubileus, em autores judeus do período do Segundo Templo e em alguns escritores cristãos antigos.

Segundo essa tradição:

  • anjos desceram à Terra;
  • tomaram esposas humanas;
  • nasceram gigantes (Nephilim);
  • ensinaram metalurgia, astrologia, magia e artes proibidas.

Essa interpretação foi extremamente influente nos primeiros séculos da era cristã.


Segunda interpretação

Os "filhos de Deus" seriam descendentes de Sete.

As "filhas dos homens" seriam descendentes de Caim.

Essa interpretação tornou-se predominante após Santo Agostinho.

Foi justamente essa posição que São Tomás de Aquino adotou.

Ela elimina completamente qualquer possibilidade de reprodução entre anjos e seres humanos.


Capítulo XX

O Problema Filosófico da Reprodução Angelical

Tomás de Aquino dedica várias passagens da Summa Theologiae para explicar por que anjos não podem reproduzir-se.

Sua lógica é rigorosamente aristotélica.

Ele afirma:

Um espírito puro não possui:

  • metabolismo;
  • células;
  • sangue;
  • órgãos;
  • matéria orgânica.

Logo:

não produz sêmen.

Nem óvulos.

Nem cromossomos.

Nem hereditariedade.

Portanto:

um anjo não pode ser pai biológico.

Da mesma forma:

um demônio também não.

Essa conclusão elimina qualquer possibilidade biológica de um "filho do Diabo".


Capítulo XXI

Então Como Surgiu a Lenda dos Filhos dos Demônios?

A resposta encontra-se na cultura popular medieval.

Durante séculos acreditou-se que certas pessoas apresentavam características incomuns:

  • força extraordinária;
  • violência extrema;
  • deformidades congênitas;
  • gigantismo;
  • epilepsia;
  • doenças mentais;
  • comportamentos considerados "anormais".

Sem conhecimentos de genética, endocrinologia ou neurologia, muitas comunidades interpretavam esses casos como evidências de uma origem sobrenatural.

Além disso, acusações de relações com demônios eram frequentemente utilizadas em contextos de perseguição a supostas bruxas, conflitos locais e tentativas de explicar fenômenos sem causa conhecida.

Hoje, a medicina reconhece que essas condições podem ter causas genéticas, hormonais, neurológicas ou ambientais, sem necessidade de recorrer a uma explicação sobrenatural.


Capítulo XXII

Comparação com as Mitologias do Mundo

Quando ampliamos a investigação para outras culturas, encontramos narrativas de descendência entre seres sobrenaturais e humanos.

Mitologia Grega

Zeus teria gerado:

  • Héracles;
  • Perseu;
  • Minos;
  • Helena.

Poseidon teria gerado:

  • Teseu, segundo algumas tradições.

Esses personagens eram considerados semidivinos.


Mitologia Egípcia

Os faraós eram frequentemente apresentados como filhos dos deuses, especialmente de Amon-Rá, em uma narrativa que legitimava seu poder.


Mitologia Hindu

Diversos heróis do Mahabharata nasceriam da união entre divindades e mulheres humanas.

Entre eles:

  • Arjuna;
  • Bhima;
  • Yudhishthira.

Mitologia Japonesa

Existem lendas sobre Kitsune e outros seres espirituais que se casam com humanos e têm descendentes, normalmente com funções simbólicas e folclóricas.


Mitologia Celta

As fadas (Aos Sí) aparecem em histórias envolvendo uniões com mortais e o nascimento de crianças extraordinárias.


Povos Indígenas das Américas

Diversas tradições relatam ancestrais que descendem de seres celestes, animais ou espíritos, funcionando como narrativas de origem e identidade coletiva.


Capítulo XXIII

A Ciência Moderna e as Hipóteses Naturais

Do ponto de vista científico, não há evidências reproduzíveis de que entidades espirituais possam fornecer material genético, fecundar seres humanos ou gerar híbridos biológicos.

A genética moderna demonstra que a reprodução humana depende da união de gametas compatíveis da mesma espécie.

Assim, hipóteses de descendência física entre humanos e seres incorpóreos não encontram suporte na biologia, na embriologia ou na genética.

Por outro lado, historiadores, antropólogos e psicólogos consideram que essas narrativas podem ser compreendidas como:

  • mitos fundadores de povos e dinastias;
  • explicações simbólicas para indivíduos considerados extraordinários;
  • tentativas de interpretar experiências subjetivas (como sonhos e visões) à luz das crenças de cada época;
  • mecanismos culturais para lidar com sexualidade, fertilidade, culpa e o desconhecido.

Reflexão Parcial

A comparação entre São Tomás de Aquino, o Livro de Enoque, a mitologia grega, o Egito, a Índia, a China, o Japão e outras tradições revela um tema recorrente: a ideia de que o contato entreu o mundo humano e o sobrenatural poderia produzir indivíduos excepcionais.

Entretanto, é essencial distinguir os diferentes níveis de análise:

  • Histórico: essas crenças existiram e influenciaram profundamente sociedades antigas e medievais.
  • Teológico: diferentes religiões interpretaram esses relatos de maneiras distintas, muitas vezes incompatíveis entre si.
  • Científico: até o momento, não há evidências empíricas que confirmem a existência de híbridos biológicos entre humanos e entidades sobrenaturais.

Essa distinção permite estudar o tema com rigor, respeitando tanto seu valor histórico e religioso quanto os critérios da investigação científica contemporânea.


PARTE VIII — O NASCIMENTO DA DEMONOLOGIA CIENTÍFICA E O LEGADO DE SÃO TOMÁS DE AQUINO

Capítulo XXIV

A Evolução da Demonologia Após São Tomás de Aquino

A morte de São Tomás de Aquino, em 1274, não encerrou o debate sobre súcubos e íncubos. Pelo contrário, suas ideias tornaram-se a base para séculos de discussões teológicas. Embora Tomás tivesse procurado limitar racionalmente o poder atribuído aos demônios, muitos autores posteriores ampliaram suas conclusões e passaram a tratá-las como justificativa para crenças populares muito mais radicais.

Entre os séculos XIV e XVII, a Europa viveu um período de intensa preocupação com a bruxaria, a feitiçaria e a ação demoníaca. Nesse contexto, os conceitos de súcubo e íncubo foram incorporados a tratados demonológicos que influenciaram tribunais eclesiásticos e civis.

Os principais autores desse período incluem:

  • Johannes Nider (1380–1438), autor de Formicarius, uma das primeiras obras a sistematizar relatos de bruxaria.
  • Heinrich Kramer (c. 1430–1505), coautor do Malleus Maleficarum, que descreveu supostos pactos sexuais entre demônios e bruxas.
  • Jacob Sprenger (atribuição tradicional, embora hoje discutida por historiadores), também associado ao Malleus Maleficarum.
  • Jean Bodin (1530–1596), que reforçou a crença em relações demoníacas em sua Démonomanie des Sorciers.
  • Francesco Maria Guazzo (1570–1640), autor do Compendium Maleficarum.

Esses autores frequentemente citavam Tomás de Aquino como autoridade, mas nem sempre reproduziam fielmente sua posição. Em muitos casos, ampliavam o papel dos demônios muito além do que a Summa Theologiae efetivamente afirmava.


Capítulo XXV

O Malleus Maleficarum e a Transformação da Doutrina

Publicado em 1487, o Malleus Maleficarum ("Martelo das Bruxas") tornou-se uma das obras mais influentes da demonologia europeia.

Segundo seus autores:

  • súcubos e íncubos mantinham relações com seres humanos;
  • os demônios recolhiam sêmen de homens e o utilizavam para fecundar mulheres;
  • bruxas poderiam firmar pactos sexuais com o Diabo;
  • essas práticas explicariam certos nascimentos considerados "anômalos".

Embora essa ideia tenha sido inspirada na explicação de Tomás de Aquino sobre o transporte de sêmen humano, o Malleus frequentemente apresentava essas hipóteses como fatos praticamente estabelecidos, sem a cautela filosófica do teólogo dominicano.

Historiadores modernos ressaltam que o Malleus Maleficarum não representava toda a teologia cristã da época. Diversos juristas, teólogos e membros do clero questionaram seus métodos e conclusões.


Capítulo XXVI

A Ciência Contemporânea: Como Explicar os Relatos?

A partir do século XIX, com o desenvolvimento da neurologia, da psicologia e da medicina do sono, muitos fenômenos atribuídos anteriormente a íncubos e súcubos passaram a receber explicações naturais.

Entre os principais mecanismos estudados estão:

1. Paralisia do sono

Caracteriza-se por:

  • despertar parcial durante o sono REM;
  • incapacidade temporária de mover o corpo;
  • sensação intensa de uma presença no quarto;
  • pressão sobre o tórax;
  • medo extremo.

Em diferentes culturas, esse fenômeno recebeu interpretações distintas: na Europa medieval, podia ser atribuído a íncubos e súcubos; em outras regiões, a espíritos, fantasmas ou bruxas.

2. Alucinações hipnagógicas e hipnopômpicas

Ocorrem na transição entre vigília e sono e podem envolver:

  • figuras humanas;
  • vozes;
  • sensação de toque;
  • experiências táteis e sexuais.

Essas experiências podem ser extremamente vívidas, levando algumas pessoas a interpretá-las como encontros reais.

3. Sonhos lúcidos e sonhos eróticos

A neurociência demonstra que sonhos podem gerar respostas fisiológicas intensas, incluindo sensações táteis e reações hormonais, sem que exista um agente externo.

4. Influência cultural

Pesquisas em antropologia mostram que pessoas tendem a interpretar experiências incomuns de acordo com o repertório religioso e cultural disponível. Assim, um mesmo fenômeno subjetivo pode ser entendido como ataque de um súcubo na Europa medieval, ação de um jinn em partes do mundo islâmico ou manifestação de outro ser sobrenatural em diferentes culturas.


Capítulo XXVII

Comparação Final entre Religião, História e Ciência

Após analisar milhares de anos de narrativas sobre entidades que seduzem seres humanos durante o sono, é possível estabelecer algumas conclusões comparativas.

História das religiões: a crença em seres sobrenaturais ligados à sexualidade é muito antiga e aparece em diversas civilizações, embora com nomes e funções diferentes.

Teologia cristã medieval: São Tomás de Aquino procurou enquadrar essas crenças dentro de um sistema filosófico coerente, negando que demônios criassem vida por si mesmos e limitando sua atuação ao uso de matéria humana já existente.

Ciência contemporânea: até o momento, não há evidências experimentais que confirmem a existência de súcubos, íncubos ou híbridos biológicos entre humanos e entidades espirituais. Os fenômenos descritos em muitos relatos históricos podem ser compreendidos, em parte, à luz da neurologia, da psicologia e da medicina do sono.

Isso não diminui a importância desses relatos como documentos históricos. Pelo contrário, eles ajudam a compreender como diferentes sociedades explicaram experiências humanas intensas antes do desenvolvimento da ciência moderna.

No próximo e último segmento, será apresentada uma síntese comparativa entre todas as mitologias abordadas, seguida de uma reflexão final, conclusão geral e bibliografia completa em formato ABNT, reunindo as principais fontes primárias (como a Summa Theologiae, A Cidade de Deus, o Livro de Enoque e textos mesopotâmicos) e estudos acadêmicos contemporâneos sobre demonologia, história das religiões e antropologia comparada.


PARTE IX — SÍNTESE COMPARATIVA ENTRE TODAS AS MITOLOGIAS E RELIGIÕES

Capítulo XXVIII

Existe uma Origem Comum para a Crença em Súcubos e Íncubos?

Depois de examinar aproximadamente cinco mil anos de registros históricos, surge naturalmente uma questão central:

Todas essas narrativas nasceram de uma única tradição religiosa ou representam crenças desenvolvidas independentemente em diferentes civilizações?

Essa é uma das perguntas mais debatidas por historiadores das religiões, arqueólogos, antropólogos e estudiosos da literatura comparada.

Existem três grandes hipóteses acadêmicas.


Hipótese I

Uma Origem Mesopotâmica

Esta é a hipótese mais aceita entre muitos especialistas em história das religiões.

Ela propõe que a crença começou entre os sumérios e acádios.

A cronologia seria aproximadamente esta:

3500–2500 a.C.

Sumérios

2500–1800 a.C.

Acádios

Assírios

Babilônios

Hebreus durante o Exílio Babilônico

Judaísmo do Segundo Templo

Cristianismo

São Tomás de Aquino

Demonologia Medieval

Os principais argumentos são:

• os textos mais antigos conhecidos pertencem à Mesopotâmia;

• já existiam espíritos masculinos (Lilû);

• já existiam espíritos femininos (Ardat-Lili);

• já existia associação entre sonhos, sexualidade e gravidez;

• o nome Lilith provavelmente deriva dessa tradição linguística.

Essa hipótese possui forte apoio documental devido às tábuas cuneiformes preservadas.


Hipótese II

Desenvolvimento Independente

Alguns antropólogos defendem uma explicação diferente.

Segundo eles:

Todas as culturas possuem:

  • sonhos;

  • pesadelos;

  • sonhos eróticos;

  • paralisia do sono;

  • alucinações hipnagógicas.

Logo,

civilizações completamente isoladas poderiam produzir mitos muito semelhantes.

Essa hipótese explica por que encontramos histórias parecidas:

na América,

na África,

na Oceania,

na Ásia,

sem contato direto entre esses povos.

Ela não exige uma única origem histórica.


Hipótese III

Influências Culturais Sucessivas

Hoje muitos pesquisadores consideram essa hipótese a mais equilibrada.

Segundo ela:

Existia um núcleo muito antigo.

Posteriormente:

cada civilização adaptou essa crença.

Assim:

os sumérios influenciaram os acádios.

Os acádios influenciaram os babilônios.

Os babilônios influenciaram parte do judaísmo pós-exílio.

O judaísmo influenciou o cristianismo.

O cristianismo medieval reinterpretou tudo através da filosofia aristotélica.

Essa hipótese explica simultaneamente:

as semelhanças

e

as diferenças.


Capítulo XXIX

Comparação entre Todas as Civilizações

Civilização Espírito Feminino Espírito Masculino Gravidez Relação Sexual Transformação
Suméria Ardat-Lili Lilû Sim (em algumas tradições) Sim Sim
Babilônia Lilitu Lilu Sim Sim Sim
Judaísmo Medieval Lilith Demônios Sim (folclore) Sim Não enfatizada
Livro de Enoque Vigilantes Sim Sim Não
Cristianismo Medieval Súcubo Íncubo Indireta (Tomás de Aquino) Sim Sim (corpos aparentes)
Grécia Lâmia Não Sim Sim
Roma Strix Não Parcial Sim
Egito Espíritos Espíritos Não Pouco frequente Não
Islã (folclore) Qarina (algumas tradições) Alguns jinn Não consensual Sim (em algumas tradições) Sim
Índia Yakshini Yaksha Casos mitológicos Sim Sim
China Huli Jing Espíritos Em lendas Sim Sim
Japão Kitsune Yōkai diversos Em lendas Sim Sim
Celtas Fadas Fadas Sim (em contos) Sim Sim

Capítulo XXX

A Probabilidade Histórica

Após comparar centenas de documentos antigos, é possível estabelecer alguns níveis de probabilidade do ponto de vista da pesquisa histórica.

Muito provável

✔ A crença em entidades sexuais sobrenaturais existe há pelo menos quatro mil anos.

✔ A Mesopotâmia preserva os registros escritos mais antigos conhecidos sobre espíritos ligados ao sono e à sexualidade.

✔ O judaísmo pós-exílico absorveu elementos culturais da Mesopotâmia durante e após o Exílio Babilônico.

✔ São Tomás de Aquino conhecia tradições anteriores, especialmente por meio de Santo Agostinho, e as reinterpretou segundo a filosofia aristotélica.


Provável

✔ Diversas culturas desenvolveram narrativas semelhantes para explicar experiências como sonhos vívidos, pesadelos e sensações durante o sono.

✔ Houve influência cultural entre povos do Oriente Próximo, Mediterrâneo e Europa medieval.


Possível, mas sem comprovação

• Que todas essas tradições tenham uma única origem histórica.

• Que certos relatos antigos descrevam um mesmo fenômeno interpretado de formas diferentes.

Essas hipóteses permanecem em debate e carecem de evidências conclusivas.


Sem evidência científica

Até o presente momento, não há evidências empíricas reproduzíveis de que:

  • demônios transportem material genético;
  • seres espirituais fecundem mulheres;
  • existam híbridos biológicos entre humanos e entidades sobrenaturais.

Essas afirmações pertencem ao âmbito das crenças religiosas, das tradições folclóricas e da literatura demonológica, não do conhecimento científico estabelecido.


Reflexão Final

O estudo dos súcubos e íncubos revela menos sobre uma suposta biologia dos demônios e mais sobre a forma como diferentes civilizações compreenderam os mistérios da sexualidade, do sono, da fertilidade e do desconhecido. A persistência dessas narrativas ao longo de milênios demonstra sua importância cultural e simbólica, mas também exige distinguir cuidadosamente entre tradição religiosa, interpretação filosófica e evidência científica.

São Tomás de Aquino teve um papel singular nesse processo. Em vez de simplesmente aceitar o imaginário popular, procurou submetê-lo à lógica e à metafísica de seu tempo, restringindo os poderes atribuídos aos demônios. Seu trabalho permanece relevante como documento da história da filosofia e da teologia medieval, ainda que suas explicações reflitam os conhecimentos disponíveis no século XIII e não correspondam às conclusões da ciência contemporânea.

Essa perspectiva histórica permite compreender por que crenças semelhantes surgiram em culturas tão diversas e como elas evoluíram, sem confundir seu valor cultural e religioso com comprovação empírica. No encerramento do dossiê, a bibliografia em formato ABNT reunirá as principais fontes primárias e secundárias que fundamentam essa investigação.



Bibliografia Completa (Norma ABNT NBR 6023:2018)

A seguir está uma bibliografia abrangente, organizada conforme as normas da ABNT, reunindo fontes primárias (textos antigos, bíblicos, patrísticos e medievais) e fontes secundárias (história, arqueologia, demonologia, antropologia, filosofia, história das religiões e psicologia), adequada para fundamentar um dossiê sobre súcubos, íncubos e a tradição de São Tomás de Aquino.

Fontes Primárias

AQUINO, Tomás de. Suma Teológica. Tradução de Alexandre Corrêa. São Paulo: Loyola, diversas edições.

AQUINAS, Thomas. Summa Theologiae. Latin-English Edition. Cambridge: Blackfriars; New York: McGraw-Hill, 1964–1981.

AGOSTINHO. A Cidade de Deus. Tradução de Oscar Paes Leme. Petrópolis: Vozes, diversas edições.

ARISTÓTELES. Metafísica. São Paulo: Loyola, diversas edições.

ARISTÓTELES. Da Geração dos Animais. São Paulo: Loyola.

A BÍBLIA SAGRADA. Tradução de João Ferreira de Almeida. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil.

CHARLES, R. H. (Ed.). The Book of Enoch. Oxford: Clarendon Press, 1912.

CHARLESWORTH, James H. (Org.). The Old Testament Pseudepigrapha. New York: Doubleday, 1983.

ISIDORO DE SEVILHA. Etimologias. Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos.

KRAMER, Samuel Noah (Org.). Sumerian Mythology. Philadelphia: University of Pennsylvania Press, 1961.

LAMBERT, W. G. Babylonian Creation Myths. Winona Lake: Eisenbrauns, 2013.

PSEUDO-DIONÍSIO AREOPAGITA. Obras Completas. São Paulo: Paulus.

SPRENGER, Jacob; KRAMER, Heinrich. Malleus Maleficarum. Tradução moderna. São Paulo: Madras.

GUAZZO, Francesco Maria. Compendium Maleficarum. New York: Dover Publications.

BODIN, Jean. Démonomanie des Sorciers. Paris: Jacques du Puys, 1580.

NIDER, Johannes. Formicarius. Augsburg, 1475.


História Antiga e Mesopotâmia

BLACK, Jeremy; GREEN, Anthony. Gods, Demons and Symbols of Ancient Mesopotamia. Austin: University of Texas Press, 1992.

BOTTÉRO, Jean. Mesopotâmia: A Escrita, a Razão e os Deuses. Lisboa: Edições 70.

DALLEY, Stephanie. Myths from Mesopotamia. Oxford: Oxford University Press, 2000.

JACOBSEN, Thorkild. The Treasures of Darkness. New Haven: Yale University Press, 1976.

KRAMER, Samuel Noah. History Begins at Sumer. Philadelphia: University of Pennsylvania Press, 1981.

LEICK, Gwendolyn. Mesopotamia: The Invention of the City. London: Penguin Books.


Judaísmo Antigo

SCHÄFER, Peter. Mirror of His Beauty: Feminine Images of God from the Bible to the Early Kabbalah. Princeton: Princeton University Press.

SCHÄFER, Peter. The Origins of Jewish Mysticism. Princeton: Princeton University Press.

PATAI, Raphael. The Hebrew Goddess. Detroit: Wayne State University Press.


Cristianismo e Demonologia

CAVENDISH, Richard. The Black Arts. New York: Perigee Books.

RUSSELL, Jeffrey Burton. The Devil: Perceptions of Evil from Antiquity to Primitive Christianity. Ithaca: Cornell University Press.

RUSSELL, Jeffrey Burton. Satan. Ithaca: Cornell University Press.

RUSSELL, Jeffrey Burton. Lucifer. Ithaca: Cornell University Press.

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KIECKHEFER, Richard. Magic in the Middle Ages. Cambridge: Cambridge University Press.

CLARK, Stuart. Thinking with Demons. Oxford: Oxford University Press.

CORSINI, Eugênio. O Diabo na História. São Paulo: Paulus.


História Medieval

LE GOFF, Jacques. A Civilização do Ocidente Medieval. Lisboa: Editorial Estampa.

LE GOFF, Jacques. O Imaginário Medieval. Lisboa: Editorial Estampa.

DUBY, Georges. A Idade Média. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

HUZINGA, Johan. O Declínio da Idade Média. São Paulo: Cosac Naify.


História das Religiões

ELIADE, Mircea. História das Crenças e das Ideias Religiosas. Rio de Janeiro: Zahar.

ELIADE, Mircea. Tratado de História das Religiões. São Paulo: Martins Fontes.

ELIADE, Mircea. O Sagrado e o Profano. São Paulo: Martins Fontes.

CAMPBELL, Joseph. As Máscaras de Deus. São Paulo: Palas Athena.

CAMPBELL, Joseph. O Herói de Mil Faces. São Paulo: Pensamento.

FRAZER, James George. O Ramo de Ouro. Rio de Janeiro: Guanabara.


Antropologia

LÉVI-STRAUSS, Claude. Antropologia Estrutural. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro.

LÉVI-STRAUSS, Claude. O Pensamento Selvagem. Campinas: Papirus.

MALINOWSKI, Bronislaw. Magia, Ciência e Religião. São Paulo: Perspectiva.


Psicologia

FREUD, Sigmund. A Interpretação dos Sonhos. São Paulo: Companhia das Letras.

JUNG, Carl Gustav. Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo. Petrópolis: Vozes.

JUNG, Carl Gustav. Símbolos da Transformação. Petrópolis: Vozes.


Neurociência e Medicina do Sono

CHEYNE, James Allan. Sleep Paralysis and the Structure of Waking-Nightmare Hallucinations. Dreaming, Washington, DC: American Psychological Association.

HOBSON, J. Allan. Dreaming: An Introduction to the Science of Sleep. Oxford: Oxford University Press.

MAHOWALD, Mark W.; SCHENCK, Carlos H. Insights from Studying Human Sleep Disorders. Nature.


Mitologia Comparada

BULFINCH, Thomas. O Livro de Ouro da Mitologia. Rio de Janeiro: Ediouro.

GRAVES, Robert. Os Mitos Gregos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.

HAMILTON, Edith. Mitologia. São Paulo: Martins Fontes.


Demonologia e Folclore

BRIGGS, Katharine. An Encyclopedia of Fairies. New York: Pantheon Books.

KEIGHTLEY, Thomas. The Fairy Mythology. London: Bell & Daldy.


Observação Metodológica

Ao longo deste dossiê foram distinguidos três níveis de análise:

  • Fontes primárias: textos religiosos, filosóficos e históricos produzidos nas épocas estudadas, que documentam as crenças e argumentos originais.
  • Estudos acadêmicos modernos: obras de historiadores, arqueólogos, antropólogos e especialistas em história das religiões que analisam criticamente essas tradições.
  • Conhecimento científico contemporâneo: pesquisas em neurologia, psicologia, medicina do sono e genética, utilizadas para avaliar hipóteses sobre os fenômenos descritos nas fontes históricas.

Essa abordagem busca diferenciar claramente o conteúdo das tradições religiosas e filosóficas das conclusões sustentadas pelas evidências científicas atuais, permitindo uma análise histórica rigorosa e metodologicamente consistente.


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