A LENDA DE HIRAM ABIFF: UMA ANÁLISE AMPLA E APROFUNDADA EM TODAS AS VERSÕES CONHECIDAS
Introdução
Poucas narrativas exerceram influência tão profunda sobre a Maçonaria quanto a lenda de Hiram Abiff. Muito além de um simples episódio ritualístico, ela tornou-se o eixo central do Terceiro Grau maçônico e um dos maiores símbolos iniciáticos da tradição ocidental. Em torno dessa narrativa desenvolveram-se interpretações filosóficas, herméticas, cabalísticas, rosacruzes, templárias e até comparações com os antigos mistérios do Egito, da Grécia, da Mesopotâmia e da Índia.
Curiosamente, o personagem Hiram apresenta duas dimensões distintas. A primeira é histórica e bíblica. Os livros de 1 Reis e 2 Crônicas mencionam Hirão (Hiram), rei de Tiro, aliado de Salomão, bem como um mestre artesão chamado Huram-Abi (ou Hiram Abiff), especialista em bronze, ouro, prata, pedra e madeira, enviado para participar da construção do Primeiro Templo de Jerusalém. Esses textos, contudo, nada dizem sobre seu assassinato, sobre três companheiros rebeldes, sobre uma Palavra Perdida ou sobre uma ressurreição simbólica.
A segunda dimensão é ritualística e iniciática. A partir do início do século XVIII, especialmente após a fundação da Grande Loja de Londres, a figura do artesão bíblico foi transformada em protagonista de um drama iniciático que passou a representar a fidelidade ao dever, a preservação do conhecimento sagrado, o triunfo da verdade sobre a violência e a esperança na imortalidade da alma. Desde então, a lenda foi sendo enriquecida por sucessivas interpretações, adquirindo significados muito além daqueles encontrados nas Escrituras.
O presente estudo tem por objetivo reunir, comparar e analisar criticamente as principais versões conhecidas da lenda de Hiram Abiff, identificando suas origens documentais, suas transformações históricas e seus diferentes significados filosóficos.
A metodologia empregada distingue rigorosamente três categorias de fontes:
- Fontes primárias, como os livros bíblicos, os antigos manuscritos maçônicos (Old Charges) e os primeiros rituais conhecidos.
- Fontes secundárias, compostas por estudos históricos e acadêmicos sobre a formação da Maçonaria moderna.
- Fontes esotéricas e interpretativas, representadas por autores como Gérard de Nerval, Éliphas Lévi, Albert Pike, Albert G. Mackey, Jean-Marie Ragon, Arthur Edward Waite, Manly P. Hall, René Guénon, entre outros.
Essa distinção é fundamental, pois uma das maiores dificuldades encontradas na literatura maçônica consiste justamente na frequente mistura entre fatos historicamente documentados e interpretações simbólicas posteriores.
Outro aspecto importante é que não existe uma única "Lenda de Hiram". Ao longo de quase trezentos anos de desenvolvimento da Maçonaria especulativa surgiram diversas versões, algumas bastante próximas entre si e outras profundamente diferentes. Em certos ritos, Hiram é visto principalmente como um mestre construtor; em outros, torna-se um arquétipo do iniciado perfeito; em correntes herméticas, representa o próprio Logos; em interpretações cabalísticas, simboliza a Sabedoria aplicada; já em leituras comparativas do século XIX, passa a ser associado a Osíris, Adônis, Tamuz, Orfeu e até ao Cristo como figura de morte e regeneração.
Por esse motivo, este trabalho não procura determinar qual versão seria a "verdadeira". Em vez disso, busca compreender como a narrativa evoluiu, quais tradições influenciaram sua formação e de que maneira cada autor reinterpretou o mito segundo sua própria visão filosófica, religiosa ou iniciática.
Também serão examinadas as hipóteses relativas às possíveis influências da Cabala judaica, do Hermetismo alexandrino, dos Mistérios egípcios, do Neoplatonismo, do Gnosticismo, da tradição rosacruz e das lendas templárias. Sempre que possível, essas interpretações serão confrontadas com a documentação histórica disponível, distinguindo claramente aquilo que é comprovado daquilo que pertence ao campo da especulação filosófica.
Por fim, este estudo adota uma postura historiográfica crítica. A intenção não é confirmar nem refutar crenças iniciáticas, mas compreender como uma figura secundária da narrativa bíblica transformou-se em um dos maiores símbolos da tradição esotérica ocidental. Essa perspectiva permite analisar a lenda de Hiram Abiff simultaneamente como documento histórico, narrativa ritualística, mito iniciático e construção simbólica em constante evolução.
No próximo capítulo iniciaremos o levantamento cronológico das fontes mais antigas relacionadas a Hiram, começando pelos registros bíblicos e avançando para os primeiros documentos maçônicos conhecidos, a fim de estabelecer a base histórica sobre a qual a tradição posterior foi construída.
A Lenda de Hiram
Os franco-maçons tiveram sua lenda secreta: a de Hiram Abiff, ou Hirão Abi, posteriormente completada pela de Ciro e pela de Zorobabel.
Eis a lenda de Hiram.
Quando Salomão mandou construir o Templo, confiou seus planos a um arquiteto chamado Hiram. Este arquiteto, para pôr ordem nos trabalhos, dividiu os trabalhadores segundo suas habilidades. Como era muito grande o número deles, a fim de reconhecê-los, quer para empregá-los segundo seus méritos, quer para remunerá-los conforme seu trabalho, deu a cada categoria — aprendizes, companheiros e mestres — palavras de passe e senhas particulares.
Três companheiros quiseram usurpar a posição de mestres, sem o devido merecimento. Puseram-se de emboscada nas três portas principais do Templo e, quando Hiram se apresentou para sair, um deles pediu-lhe a palavra de ordem dos mestres, ameaçando-o com sua régua.
Hiram respondeu:
"Não foi assim que recebi a palavra que me pedis."
O companheiro, furioso, golpeou Hiram com sua régua, causando-lhe a primeira ferida.
Hiram correu para outra porta, onde encontrou o segundo companheiro. Este lhe fez a mesma pergunta e recebeu a mesma resposta. Dessa vez, Hiram foi ferido com um esquadro; outros afirmam que foi com uma alavanca.
Na terceira porta encontrava-se o terceiro assassino, que abateu o mestre com uma machadinha.
Os três companheiros esconderam, em seguida, o cadáver sob um montão de escombros e plantaram sobre esse túmulo improvisado um ramo de acácia, fugindo depois, como Caim após a morte de Abel.
Salomão, porém, não vendo regressar seu arquiteto, despachou nove mestres para procurá-lo. O ramo de acácia revelou-lhes o local onde estava o cadáver. Eles o retiraram de sob os escombros e, como ali permanecera durante bastante tempo, exclamaram ao levantá-lo:
"Mach Benach!"
Expressão que significa:
"A carne solta-se dos ossos."
A Hiram foram prestadas as últimas honras e, em seguida, Salomão enviou vinte e sete mestres à procura dos assassinos.
É assim que a alavanca popular, ou a esquadria de uma louca igualdade, torna-se instrumento da tirania nas mãos da multidão e atenta, mais infelizmente ainda do que a régua, contra a realeza da sabedoria e da virtude.
O terceiro, por fim, elimina Hiram com a machadinha, como fazem os instintos brutais quando pretendem impor a ordem em nome da violência e do medo, abafando a inteligência.
O ramo de acácia sobre o túmulo de Hiram é como a cruz sobre nossos altares. É o sinal da ciência que sobrevive à morte; é o raio verde que anuncia uma nova primavera.
Quando os homens perturbam assim a ordem da natureza, a Providência intervém para restabelecê-la, como Salomão interveio para vingar a morte de Hiram.
Aquele que assassinou com a régua morre pelo punhal.
Aquele que feriu com a alavanca, ou com a esquadria, morrerá sob o machado da lei.
É a sentença eterna dos regicidas.
Aquele que triunfou pela machadinha cairá vítima da própria força de que abusou e será estrangulado pelo leão.
O assassino da régua é denunciado pela própria lâmpada que o ilumina e pela fonte onde bebe; isto é, contra ele será aplicada a pena de talião.
O assassino da alavanca será surpreendido quando sua vigilância estiver enfraquecida, como um cão adormecido, e será entregue por seus próprios cúmplices, porque a anarquia é a mãe da traição.
O leão que devora o assassino da machadinha é uma das formas da Esfinge de Édipo.
E aquele que vencer o leão merecerá suceder Hiram em sua dignidade.
O cadáver putrefato de Hiram mostra que as formas mudam, mas que o espírito permanece.
A fonte de água que corre junto ao primeiro cenário recorda o Dilúvio, que puniu os crimes contra a natureza.
O espinheiro ardente e o arco-íris, que conduzem à descoberta do segundo assassino, representam a luz e a vida, denunciando os atentados contra o pensamento.
Por fim, o leão vencido representa o triunfo do espírito sobre a matéria e a submissão definitiva da força à inteligência.
A Lenda de Hiram (continuação)
Desde o começo do trabalho do espírito para edificar o Templo da Unidade, Hiram foi morto muitas vezes e sempre ressuscita.
É Adônis morto pelo javali; é Osíris assassinado por Tífon; é Pitágoras proscrito; é Orfeu despedaçado pelas bacantes; é Moisés abandonado nas cavernas do Monte Nebo; é Jesus morto por Caifás, Judas e Pilatos.
Os verdadeiros maçons são, pois, aqueles que persistem em querer construir o Templo segundo o plano de Hiram.
Tal é a grande e principal lenda da Maçonaria. As outras são menos belas e menos profundas.
Não pensamos dever divulgar todos os mistérios e, embora não tenhamos recebido a iniciação senão de Deus e de nossos próprios trabalhos, consideramos o segredo da Alta Maçonaria como também pertencente a nós.
Tendo chegado, por nossos esforços, a um grau científico que nos impõe silêncio, não nos julgamos menos comprometidos por nossas convicções do que por um juramento.
A ciência é uma nobreza que obriga. Não devemos desmerecer a coroa principesca dos Rosa-Cruzes.
Os ritos da Maçonaria destinam-se a transmitir a lembrança das lendas da iniciação e a conservá-las entre nossos irmãos.
Perguntar-se-á, talvez, como, sendo a Maçonaria tão sublime e tão santa, pôde ela ser proscrita e tantas vezes condenada pela Igreja.
Já respondemos a essa questão ao tratar das cisões e das profanações da Maçonaria.
A Maçonaria é a Gnose, e foram os falsos gnósticos que fizeram condenar os verdadeiros.
O que obriga os iniciados a esconderem-se não é o temor da luz. A luz é precisamente aquilo que eles querem, aquilo que procuram e aquilo que adoram.
Temem, porém, os profanadores, isto é, os falsos intérpretes, os caluniadores, os céticos de sorriso estúpido, os inimigos de toda crença e de toda moralidade.
Em nosso tempo, aliás, grande número de homens que se julgam franco-maçons ignoram o verdadeiro sentido de seus ritos e perderam a chave de seus mistérios.
Já não compreendem sequer seus quadros simbólicos, nem entendem os sinais hieroglíficos com que são representados os tapetes de suas lojas.
Esses quadros e esses sinais constituem páginas do livro da ciência absoluta e universal.
Podem ser lidos com o auxílio das chaves cabalísticas e nada têm de oculto para o iniciado que possui as Clavículas de Salomão.
O Templo é a realização e a figura do reino hierárquico da verdade e da razão sobre a Terra.
Hiram é o homem que chegou ao domínio pela ciência e pela sabedoria.
Ele governa pela justiça e pela ordem, dando a cada um segundo suas obras.
Cada grau da Ordem possui uma palavra que exprime sua inteligência.
Existe apenas uma palavra para Hiram, mas essa palavra é pronunciada de três maneiras diferentes.
Para os aprendizes, ela significa a Natureza e explica-se pelo trabalho.
Para os companheiros, significa o Pensamento e explica-se pelo estudo.
Para os mestres, significa a Verdade e explica-se pela sabedoria.
Essa é a palavra utilizada para designar Deus, cujo verdadeiro nome é indizível e incomunicável.
Assim como há três portas no Templo, há também três graus na hierarquia.
Há três raios na luz.
Há três forças na natureza.
Essas forças são figuradas pela régua, que une; pela alavanca, que levanta; e pela machadinha, que firma.
A rebelião dos instintos brutais contra a aristocracia hierática da sabedoria arma-se, sucessivamente, dessas três forças, desviando-as da harmonia.
A Lenda de Hiram (continuação)
A grande associação cabalística, conhecida na Europa sob o nome de Maçonaria, surge de repente no mundo no momento em que o protesto contra a Igreja acaba de desmembrar a unidade cristã.
Os historiadores dessa Ordem não sabem explicar-lhe a origem. Uns atribuem sua formação a uma associação de pedreiros constituída na época da construção da Catedral de Estrasburgo.
À parte essa última opinião, que se refuta por si mesma, podem conciliar-se todas as demais, afirmando-se que os irmãos maçons pediram aos construtores da Catedral de Estrasburgo seu nome e os emblemas de sua arte, organizando-se, pela primeira vez, publicamente na Inglaterra.
Pode-se acrescentar que tiveram os Templários por modelos, os Rosa-Cruzes por pais e os Joanitas por antepassados.
Seu dogma é o de Zoroastro e de Hermes; sua regra é a iniciação progressiva; seu princípio é a igualdade regulada pela hierarquia e a fraternidade universal.
São os continuadores da Escola de Alexandria e herdeiros de todas as iniciações antigas.
São os depositários dos segredos do Apocalipse e do Zohar.
O objeto de seu culto é a verdade, representada pela luz.
Toleram todas as crenças e não professam senão uma única e mesma filosofia.
Não procuram senão a verdade, não ensinam senão a realidade e desejam conduzir, progressivamente, todas as inteligências à razão.
O fim alegórico da Maçonaria é a reconstrução do Templo de Salomão.
Seu fim real é a reconstituição da unidade social por meio da aliança entre a razão e a fé, bem como o restabelecimento da hierarquia conforme a ciência e a virtude, mediante a iniciação e as provas por graus.
Nada é mais belo, como se vê; nada é maior do que essas ideias e essas aspirações.
Infelizmente, porém, as doutrinas da unidade e da submissão à hierarquia não se conservaram na Maçonaria universal.
Logo surgiu uma Maçonaria dissidente, oposta à Maçonaria ortodoxa, e as maiores calamidades da Revolução Francesa foram apresentadas como consequência dessa cisão.
Tal é a primeira lenda.
Eis, agora, sua explicação.
Salomão é a personificação da ciência e da sabedoria supremas.
O Templo é a realização e a figura do reino hierárquico da verdade e da razão sobre a Terra.
Hiram é o homem que chegou ao domínio pela ciência e pela sabedoria.
Ele governa pela justiça e pela ordem, dando a cada um segundo suas obras.
A Lenda de Hiram (conclusão)
Ensinar a imortalidade da alma. Esse ainda é o principal propósito do terceiro grau da Maçonaria. Esse é o escopo e o objetivo de seu ritual.
O Mestre Maçom representa o homem em suas três fases — infância, idade adulta e velhice —, tão fugidias quanto as sombras, porém ressuscitado do túmulo da iniquidade e despertado para uma outra e melhor existência.
Por sua lenda e por todo o seu ritual, está implícito que fomos redimidos da morte do pecado.
O Mestre Maçom representa o homem salvo do túmulo da iniquidade e ressuscitado para a fé da salvação.
Referências Bibliográficas
NERVAL, Gérard de. A Lenda de Hiram: História da Rainha da Manhã e de Solimão, Príncipe dos Génios. Lisboa: Hugin Editores, 2001.
HULSE, David Allen. The Key of It All – Book Two: Western Mysteries. St. Paul: Llewellyn Publications. [s.d.].
MONTESANO, Domenico V. Ripa. Vademecum di Loggia. Roma: Edizione Gran Loggia Phoenix, 2009.
MACKEY, Albert Gallatin. A Lexicon of Freemasonry. Charleston, South Carolina, 1845.
CAPÍTULO I
As Fontes Mais Antigas: O Hiram Histórico e o Surgimento da Tradição Maçônica
1.1 Introdução
Antes de examinar as diversas versões da lenda de Hiram Abiff desenvolvidas pela Maçonaria, é indispensável responder a uma pergunta fundamental: existiu realmente um Hiram histórico?
A resposta é mais complexa do que parece. As evidências documentais indicam que sim, existiu um artesão chamado Huram-Abi (também grafado Hiram-Abi, Hiram Abiff ou Hirão Abi, conforme a tradução e a tradição). Contudo, o personagem histórico mencionado nas Escrituras difere profundamente do herói ritualístico criado pela Maçonaria especulativa.
A investigação deve começar pelos documentos mais antigos disponíveis: os textos bíblicos e os registros históricos do antigo Oriente Próximo.
1.2 Hiram, rei de Tiro
As referências mais antigas não tratam do artesão, mas do rei fenício de Tiro.
Segundo os livros de 1 Reis e 2 Crônicas, Hiram foi um dos mais importantes aliados políticos e comerciais de Salomão durante o século X a.C.
Tiro era, naquele período, a maior potência marítima do Mediterrâneo oriental. Os fenícios dominavam a navegação, a metalurgia, a carpintaria naval e o comércio internacional, estabelecendo colônias que se estendiam desde Chipre até o extremo ocidental do Mediterrâneo, incluindo Cartago e a Península Ibérica.
Os textos bíblicos relatam que Hiram forneceu a Salomão:
- madeira de cedro do Líbano;
- madeira de cipreste;
- artesãos especializados;
- ouro;
- mão de obra qualificada para a construção do Primeiro Templo.
Essa aliança fortaleceu politicamente ambos os reinos.
1.3 O verdadeiro Huram-Abi
É no relato da construção do Templo que aparece o personagem que mais tarde seria transformado na figura central da tradição maçônica.
O livro de 2 Crônicas 2:13–14 descreve Huram-Abi como um mestre artesão de extraordinária habilidade.
Segundo o texto bíblico, ele era:
- filho de uma viúva da tribo de Dã (em algumas tradições, da tribo de Naftali);
- filho de um pai fenício de Tiro;
- especialista em ouro, prata, bronze, ferro, pedra e madeira;
- gravador;
- escultor;
- fundidor;
- artista capaz de executar qualquer projeto.
Essa descrição revela um verdadeiro mestre das artes construtivas, compatível com a tradição fenícia de excelência técnica.
Entretanto, é importante destacar um aspecto essencial: a Bíblia encerra praticamente aqui sua narrativa sobre Huram-Abi. Não há qualquer menção a conspiração, assassinato, palavra secreta ou ressurreição simbólica.
1.4 O silêncio das fontes antigas
Durante muitos séculos, pesquisadores procuraram referências paralelas sobre Huram-Abi em documentos fenícios, assírios, babilônicos e egípcios.
Até o momento, porém, nenhuma inscrição arqueológica conhecida descreve o assassinato do mestre construtor.
Também não existem registros contemporâneos que mencionem:
- três companheiros rebeldes;
- uma palavra perdida;
- um ramo de acácia marcando uma sepultura;
- um ritual de exaltação;
- um julgamento dos assassinos.
Esse silêncio documental é um dos principais argumentos dos historiadores para considerar que a narrativa ritualística da Maçonaria foi elaborada muitos séculos depois dos acontecimentos bíblicos.
1.5 O Primeiro Templo de Jerusalém
Segundo a tradição bíblica, a construção do Primeiro Templo ocorreu aproximadamente entre 966 e 959 a.C., embora as datas variem conforme a cronologia adotada.
O edifício representava o centro religioso do antigo Reino de Israel e simbolizava a presença divina entre o povo hebreu.
A descrição arquitetônica encontrada em 1 Reis revela forte influência fenícia.
Diversos estudiosos observam semelhanças entre o Templo de Salomão e templos descobertos em cidades como:
- Hazor;
- Megido;
- Ain Dara (na atual Síria);
- Tell Tayinat.
Essas comparações sugerem que os construtores fenícios exerceram papel decisivo na concepção arquitetônica do Templo.
1.6 A arqueologia e o Templo de Salomão
A arqueologia contemporânea enfrenta uma limitação importante: o local tradicionalmente identificado como o Monte do Templo, em Jerusalém, possui enorme significado religioso para judeus, cristãos e muçulmanos.
Em razão dessa sensibilidade, escavações arqueológicas diretas na área são extremamente restritas.
Por isso, boa parte do conhecimento sobre o Primeiro Templo depende de:
- estudos comparativos;
- escavações em sítios vizinhos;
- análises arquitetônicas;
- textos antigos;
- achados indiretos.
Essa situação explica por que muitos aspectos da construção permanecem objeto de debate entre arqueólogos e historiadores.
1.7 Quando nasce a lenda?
Um dos fatos mais surpreendentes da investigação histórica é que a famosa lenda de Hiram Abiff não aparece nos documentos maçônicos medievais mais antigos.
Os chamados Old Charges, produzidos entre os séculos XIV e XVII, descrevem a história da arte da construção, remontando-a a personagens como Euclides, Noé e Salomão.
Entre os manuscritos mais importantes estão:
- Regius (c. 1390);
- Cooke (c. 1410);
- Grand Lodge nº 1 (c. 1583);
- Sloane;
- Dumfries;
- Edinburgh Register House.
Nenhum deles apresenta a narrativa do assassinato de Hiram tal como é conhecida atualmente.
Esse silêncio documental é um dos elementos mais relevantes para compreender a evolução da tradição.
1.8 A transformação de um personagem bíblico em um mito iniciático
Entre o final do século XVII e o início do século XVIII, a Maçonaria passou por profundas transformações.
As antigas corporações de construtores deram lugar à chamada Maçonaria especulativa, voltada para ensinamentos filosóficos e morais.
Nesse novo contexto, Huram-Abi deixou de ser apenas um habilidoso artesão mencionado na Bíblia e passou a representar um ideal iniciático.
Gradualmente, sua figura foi enriquecida com elementos simbólicos que não pertenciam ao relato bíblico: a fidelidade absoluta ao dever, o sigilo iniciático, o sacrifício pela verdade e a esperança na regeneração espiritual.
Foi desse processo que nasceu a lenda de Hiram Abiff, cuja forma mais conhecida começaria a aparecer nos primeiros rituais maçônicos do século XVIII.
Conclusão do capítulo
A análise das fontes mais antigas revela uma distinção fundamental entre o Hiram histórico e o Hiram ritualístico. O primeiro é um mestre artesão descrito em poucos versículos bíblicos, cuja habilidade técnica o tornou indispensável na construção do Primeiro Templo de Jerusalém. O segundo é uma criação simbólica da Maçonaria especulativa, desenvolvida muitos séculos depois para expressar valores iniciáticos como fidelidade, sabedoria, sacrifício e renovação espiritual.
No capítulo seguinte, iniciaremos o exame das primeiras versões ritualísticas conhecidas da lenda, acompanhando seu surgimento nos documentos maçônicos do século XVIII e identificando como a figura bíblica foi transformada no protagonista de um dos mitos centrais da tradição maçônica.
CAPÍTULO II
O Nascimento da Lenda de Hiram Abiff: Os Primeiros Rituais Maçônicos e a Evolução do Mito
2.1 Introdução
Após examinar as fontes bíblicas e verificar que elas não descrevem o assassinato de Hiram, surge uma questão inevitável: quando e onde nasceu a lenda de Hiram Abiff?
Durante muito tempo, escritores maçônicos sustentaram que a narrativa remontava ao próprio Templo de Salomão ou que teria sido preservada secretamente desde a Antiguidade. A pesquisa historiográfica moderna, porém, aponta um cenário diferente. A maioria dos especialistas conclui que a lenda, em sua forma ritualística, foi elaborada entre o final do século XVII e as primeiras décadas do século XVIII, acompanhando o surgimento da Maçonaria especulativa.
Essa conclusão não diminui a importância do mito; ao contrário, permite compreender como tradições bíblicas, operativas, herméticas e filosóficas foram reunidas em uma nova narrativa iniciática.
2.2 Os manuscritos operativos: uma tradição sem Hiram Abiff
Os chamados Old Charges ("Antigos Deveres") constituem o conjunto documental mais importante da Maçonaria operativa medieval. Esses manuscritos reuniam normas de conduta, relatos lendários sobre a origem da construção e instruções para os membros das corporações de pedreiros.
Entre os mais conhecidos destacam-se:
- Manuscrito Regius (c. 1390);
- Manuscrito Cooke (c. 1410);
- Manuscrito Grand Lodge n.º 1 (c. 1583);
- Manuscrito Sloane;
- Manuscrito Dumfries;
- Manuscrito Edinburgh Register House.
Todos esses documentos fazem referência a personagens como Noé, Euclides e Salomão, mas nenhum apresenta a história do assassinato de Hiram ou a cerimônia do Terceiro Grau. Esse silêncio documental é um dos principais argumentos para situar a origem da lenda em um período posterior.
2.3 A transição da Maçonaria operativa para a especulativa
Entre os séculos XVII e XVIII, as antigas corporações de construtores começaram a admitir membros que não exerciam a profissão de pedreiro. Esses novos integrantes — conhecidos como "aceitos" (accepted masons) — eram nobres, intelectuais, comerciantes e estudiosos interessados na dimensão filosófica e simbólica da Ordem.
Esse processo culminou, em 1717, com a fundação da Grande Loja de Londres, marco tradicional da Maçonaria especulativa moderna.
Nesse novo contexto, tornou-se necessário desenvolver rituais capazes de transmitir ensinamentos morais e filosóficos. A figura do artesão bíblico Huram-Abi revelou-se especialmente adequada para esse propósito e foi gradualmente transformada no protagonista de um drama iniciático.
2.4 O Manuscrito Graham (1726)
Um dos documentos mais importantes para compreender essa evolução é o Graham Manuscript, datado de 1726.
Embora ainda não apresente a lenda clássica de Hiram Abiff, ele contém elementos que parecem antecipar o Terceiro Grau. O manuscrito narra episódios envolvendo Noé e seus filhos, descrevendo uma tentativa simbólica de recuperar um conhecimento perdido após sua morte.
Pesquisadores observaram que alguns temas presentes nesse texto — como a perda de um segredo, a busca por um substituto e a transmissão simbólica do conhecimento — reapareceriam, poucos anos depois, na lenda de Hiram.
Por esse motivo, muitos estudiosos consideram o Manuscrito Graham uma etapa intermediária entre a tradição operativa medieval e os rituais especulativos do século XVIII.
2.5 Samuel Prichard e Masonry Dissected (1730)
O documento que marca o surgimento da forma clássica da lenda é geralmente identificado como Masonry Dissected, publicado em 1730 por Samuel Prichard.
A obra apresenta uma descrição dos rituais maçônicos conhecidos na época e inclui, pela primeira vez de maneira clara, elementos que se tornariam permanentes no Terceiro Grau, como:
- o mestre construtor Hiram;
- três companheiros que exigem um segredo;
- a recusa em revelar a palavra reservada;
- o assassinato do mestre;
- a busca pelo corpo;
- o ramo de acácia;
- a recuperação simbólica do cadáver;
- a substituição da Palavra Perdida.
Embora a autoria e a finalidade da obra tenham sido objeto de debates, ela é considerada um marco documental para a história da Maçonaria.
2.6 A formação gradual do Terceiro Grau
Os historiadores observam que o Terceiro Grau não surgiu pronto. Ao contrário, foi resultado de um processo gradual de elaboração ritual.
Entre aproximadamente 1725 e 1760, vários elementos foram sendo incorporados, modificados e reinterpretados. Nesse período consolidaram-se aspectos que hoje são considerados característicos da cerimônia de Mestre Maçom.
Essa evolução demonstra que a lenda não nasceu como uma narrativa fixa, mas como uma tradição em construção, moldada pelas necessidades simbólicas e pedagógicas da Maçonaria especulativa.
2.7 Quem criou a lenda?
Essa é uma das questões mais debatidas pelos historiadores.
Até hoje, não existe consenso sobre quem foi o autor da narrativa.
Entre as hipóteses mais discutidas encontram-se:
- criação coletiva no ambiente das primeiras lojas inglesas;
- desenvolvimento gradual por vários ritualistas;
- adaptação de tradições medievais dos construtores;
- influência de temas bíblicos, herméticos e clássicos.
Na ausência de documentação conclusiva, a autoria permanece desconhecida. O mais provável é que a lenda seja fruto de uma elaboração coletiva, aperfeiçoada ao longo de várias décadas.
2.8 As influências literárias e simbólicas
Embora a narrativa seja original em sua forma ritualística, diversos pesquisadores identificam nela influências provenientes de diferentes tradições.
Entre as possíveis inspirações destacam-se:
- o relato bíblico da construção do Templo;
- narrativas de mestres fiéis perseguidos;
- temas clássicos de morte e renascimento;
- simbolismos presentes em tradições herméticas e neoplatônicas;
- elementos da cultura das antigas corporações de ofício.
É importante ressaltar que essas relações são interpretativas. Em muitos casos, não existem documentos que comprovem uma influência direta, mas apenas semelhanças temáticas ou estruturais.
2.9 A consolidação da lenda
Ao longo do século XVIII, a história de Hiram Abiff espalhou-se rapidamente pelas lojas maçônicas da Inglaterra, Escócia, Irlanda e, posteriormente, da Europa continental e das Américas.
Durante esse processo, diferentes ritos passaram a desenvolver versões próprias da narrativa. Alguns enfatizaram seu aspecto moral; outros destacaram interpretações filosóficas, cabalísticas, herméticas ou cristãs.
Foi justamente essa diversidade que permitiu o surgimento de autores como Gérard de Nerval, Éliphas Lévi, Albert Pike e Albert G. Mackey, que reinterpretaram a lenda sob perspectivas muito distintas, ampliando seu alcance simbólico.
Conclusão do capítulo
As evidências históricas indicam que a lenda de Hiram Abiff não pertence ao relato bíblico original nem aos manuscritos operativos medievais conhecidos. Sua formulação ritualística surgiu no contexto da Maçonaria especulativa do século XVIII, consolidando-se por meio de sucessivas revisões e interpretações.
Essa conclusão não reduz sua importância. Pelo contrário, mostra como um personagem bíblico relativamente discreto foi transformado em um dos maiores arquétipos iniciáticos da tradição ocidental. A força da lenda reside justamente em sua capacidade de integrar elementos históricos, simbólicos e filosóficos em uma narrativa que continua a inspirar diferentes escolas e ritos.
No próximo capítulo, iniciaremos uma comparação sistemática entre as principais versões da lenda de Hiram Abiff, destacando suas diferenças estruturais, seus acréscimos simbólicos e a contribuição específica de autores como Samuel Prichard, Albert G. Mackey, Éliphas Lévi, Gérard de Nerval e Albert Pike.
CAPÍTULO III
As Principais Versões da Lenda de Hiram Abiff: Uma Análise Comparativa das Tradições Maçônicas
3.1 Introdução
A partir da década de 1730, a lenda de Hiram Abiff passou a ocupar posição central na Maçonaria especulativa. Entretanto, uma análise detalhada dos rituais, exposições maçônicas, obras esotéricas e estudos históricos demonstra que nunca existiu uma única versão universalmente aceita.
Ao contrário, a narrativa evoluiu continuamente durante quase três séculos. Cada rito, autor e corrente filosófica acrescentou novos elementos, modificou personagens, reinterpretou símbolos e atribuiu diferentes significados à morte de Hiram.
Do ponto de vista historiográfico, essas versões podem ser agrupadas em cinco grandes tradições:
- A tradição inglesa primitiva.
- A tradição francesa.
- A tradição norte-americana.
- A tradição hermética e ocultista.
- As interpretações contemporâneas.
Essas tradições não são mutuamente exclusivas; frequentemente dialogam entre si e compartilham elementos comuns, embora enfatizem aspectos distintos.
3.2 A tradição inglesa: o drama iniciático
A forma mais antiga conhecida da lenda ritualística aparece nas primeiras exposições inglesas do século XVIII.
Nessa tradição, Hiram é apresentado principalmente como o mestre construtor do Templo de Salomão, responsável por dirigir os trabalhos e transmitir os conhecimentos aos operários conforme sua qualificação.
O núcleo da narrativa é relativamente simples:
- Hiram recusa revelar a Palavra do Mestre antes do tempo devido.
- Três companheiros tentam obtê-la pela força.
- O mestre prefere morrer a violar seu compromisso.
- Seu corpo é ocultado.
- Os mestres enviados por Salomão localizam a sepultura.
- A Palavra Perdida torna-se símbolo do conhecimento que somente pode ser recuperado por meio da iniciação.
Nessa fase inicial, a narrativa possui caráter predominantemente moral, destacando a fidelidade, o dever, o sigilo e a honra.
Ainda não aparecem muitas das interpretações filosóficas desenvolvidas posteriormente.
3.3 A tradição francesa
Durante o século XVIII, a Maçonaria francesa passou por extraordinário desenvolvimento intelectual.
Na França, os rituais começaram a receber forte influência:
- do Hermetismo;
- da Cabala;
- do Martinismo;
- do Iluminismo;
- do Neoplatonismo.
Consequentemente, Hiram deixou de representar apenas um mestre construtor.
Passou a simbolizar:
- o iniciado perfeito;
- o sábio perseguido;
- o sacerdote da Verdade;
- o homem fiel ao conhecimento divino.
Autores franceses ampliaram consideravelmente a riqueza simbólica da narrativa, relacionando Hiram aos grandes mitos da Antiguidade.
3.4 Gérard de Nerval
Entre os escritores franceses que abordaram a tradição hirâmica destaca-se Gérard de Nerval.
Sua obra não pretende reproduzir literalmente o ritual maçônico.
Em vez disso, utiliza a figura de Hiram como elemento de uma narrativa literária e simbólica.
Em sua interpretação aparecem temas como:
- a Rainha da Manhã;
- Solimão;
- os Gênios;
- tradições orientais;
- simbolismo iniciático.
Nerval aproxima a lenda de antigas tradições semíticas e orientais, enriquecendo-a com elementos poéticos e mitológicos.
Sua contribuição é essencialmente literária e filosófica, não ritualística.
3.5 Éliphas Lévi
Com Éliphas Lévi ocorre uma transformação profunda.
Em suas obras, Hiram deixa de ser apenas um personagem da tradição maçônica para tornar-se um arquétipo universal da iniciação.
Segundo Lévi:
Salomão representa:
- a Sabedoria.
O Templo representa:
- a humanidade organizada segundo a razão.
Hiram representa:
- a inteligência criadora.
Os três assassinos simbolizam:
- a ignorância;
- o fanatismo;
- a violência.
O ramo de acácia representa:
- a imortalidade do espírito.
A morte de Hiram deixa de ser apenas um episódio histórico ou ritualístico.
Transforma-se numa representação permanente da luta entre conhecimento e ignorância.
Essa interpretação exerceu enorme influência sobre praticamente toda a literatura ocultista posterior.
3.6 Albert Gallatin Mackey
No século XIX, Albert G. Mackey tornou-se um dos maiores sistematizadores da simbologia maçônica.
Seu objetivo foi organizar historicamente os rituais, explicar seus símbolos e estabelecer uma interpretação coerente da tradição.
Para Mackey:
Hiram representa o Mestre ideal.
Sua morte simboliza:
- fidelidade;
- honra;
- permanência da verdade.
A Palavra Perdida simboliza:
- a impossibilidade de alcançar plenamente a Verdade Absoluta durante a existência terrena.
A iniciação representa:
- a busca contínua pelo aperfeiçoamento moral.
Mackey procura evitar interpretações excessivamente místicas.
Sua abordagem permanece relativamente próxima dos rituais tradicionais.
3.7 Albert Pike
Albert Pike amplia novamente o horizonte filosófico da lenda.
Influenciado por:
- Cabala;
- Hermetismo;
- Neoplatonismo;
- Filosofia clássica;
- Cristianismo esotérico.
Pike interpreta Hiram como símbolo da própria Verdade.
Segundo sua leitura:
Salomão representa:
- a Sabedoria.
Hiram:
- a Verdade.
O Templo:
- a Civilização.
Os assassinos:
- as paixões humanas desordenadas;
- a ambição;
- a intolerância.
Para Pike, o drama de Hiram repete-se continuamente ao longo da história sempre que a ignorância procura destruir a sabedoria.
3.8 A tradição norte-americana
Nos Estados Unidos, especialmente durante o século XIX, a interpretação moral ganhou grande destaque.
Os comentários ritualísticos enfatizam:
- honestidade;
- integridade;
- perseverança;
- disciplina;
- fidelidade aos compromissos.
O aspecto filosófico permanece presente, porém em linguagem mais acessível aos membros das lojas.
3.9 A tradição brasileira
A Maçonaria brasileira recebeu influência simultânea:
- portuguesa;
- francesa;
- inglesa;
- norte-americana.
Consequentemente, os rituais utilizados no Brasil apresentam elementos provenientes de diversas escolas.
Em linhas gerais, Hiram é compreendido como:
- exemplo máximo de fidelidade;
- símbolo da iniciação;
- modelo moral;
- representação da vitória da Verdade sobre a violência.
As interpretações filosóficas variam conforme o rito praticado e a tradição seguida por cada obediência maçônica.
3.10 O consenso entre todas as versões
Apesar das diferenças, existe um conjunto de elementos presentes na maioria das tradições.
Entre eles destacam-se:
- Hiram é mestre construtor do Templo.
- Recusa revelar um segredo antes do tempo devido.
- Sofre violência por permanecer fiel ao seu compromisso.
- Morre sem trair sua palavra.
- Seu corpo é encontrado.
- Sua memória é preservada.
- Sua morte torna-se símbolo da vitória da fidelidade sobre a força.
Esses elementos formam o núcleo comum da tradição hirâmica.
Conclusão do capítulo
O exame comparativo demonstra que a lenda de Hiram Abiff nunca permaneceu estática. Desde seu surgimento no século XVIII, ela foi reinterpretada à luz de diferentes correntes filosóficas, religiosas e esotéricas. A tradição inglesa privilegiou o drama iniciático; a francesa ampliou sua dimensão simbólica; autores como Éliphas Lévi, Albert G. Mackey, Albert Pike e Gérard de Nerval atribuíram novos significados à narrativa, transformando Hiram em um arquétipo universal da busca pela verdade e da fidelidade aos princípios.
No capítulo seguinte, aprofundaremos as influências externas que moldaram essa evolução, investigando possíveis relações com a Cabala, o Hermetismo, os Mistérios do Egito, os cultos de morte e renascimento do Oriente Próximo, o Gnosticismo e outras tradições iniciáticas. Esse exame permitirá compreender em que medida a lenda de Hiram Abiff dialoga com um patrimônio simbólico muito mais amplo do que o contexto bíblico e maçônico em que se consolidou.
CAPÍTULO IV
As Influências Religiosas, Filosóficas e Iniciáticas da Lenda de Hiram Abiff
4.1 Introdução
Poucos mitos iniciáticos foram objeto de tantas interpretações quanto a lenda de Hiram Abiff. Desde o século XVIII, estudiosos, historiadores das religiões, ocultistas e pesquisadores da Maçonaria procuraram identificar as tradições que podem ter influenciado sua elaboração. A questão permanece aberta: a lenda é uma criação inteiramente original da Maçonaria especulativa ou incorpora elementos de narrativas muito mais antigas?
Não há consenso. A maioria dos historiadores entende que a estrutura ritualística da lenda foi desenvolvida no contexto da Maçonaria inglesa do século XVIII. No entanto, muitos reconhecem que seus autores recorreram a um repertório simbólico já presente em diversas tradições religiosas e filosóficas. Isso não significa que exista uma continuidade histórica direta entre essas tradições e a Maçonaria, mas sim que certos temas universais — como a morte do justo, a perda do conhecimento e a regeneração espiritual — aparecem em diferentes culturas.
Este capítulo examina essas possíveis influências, distinguindo cuidadosamente entre evidências documentais e interpretações posteriores.
4.2 A influência da tradição bíblica
A influência mais evidente é a Bíblia.
Os elementos diretamente relacionados ao Primeiro Templo de Jerusalém incluem:
- Salomão;
- Hiram, rei de Tiro;
- Huram-Abi, o mestre artesão;
- os trabalhos de construção do Templo;
- a cooperação entre israelitas e fenícios.
Entretanto, a Bíblia não menciona:
- três assassinos;
- uma palavra secreta;
- uma cerimônia de exaltação;
- um ramo de acácia marcando a sepultura;
- a ressurreição simbólica de Hiram.
Esses elementos surgem apenas nos rituais maçônicos dos séculos XVIII e posteriores. Assim, o texto bíblico forneceu o cenário e alguns personagens, mas não a narrativa ritualística tal como hoje é conhecida.
4.3 A tradição fenícia
Os fenícios eram reconhecidos na Antiguidade por seu domínio da navegação, da metalurgia e da arquitetura monumental. Hiram de Tiro, aliado de Salomão, representa essa tradição técnica e artística.
Alguns autores sugerem que a escolha de um mestre fenício como protagonista do drama iniciático pode refletir o prestígio que os artesãos de Tiro possuíam no mundo antigo. Contudo, não existem registros fenícios conhecidos que descrevam uma lenda semelhante à de Hiram Abiff.
Assim, qualquer tentativa de reconstruir um "mito fenício de Hiram" permanece especulativa.
4.4 Os Mistérios do Egito
Uma das comparações mais frequentes aproxima Hiram do deus egípcio Osíris.
Na tradição egípcia, Osíris é morto, seu corpo é desmembrado e posteriormente recomposto por Ísis, tornando-se senhor do mundo dos mortos e símbolo da renovação da vida.
As semelhanças frequentemente apontadas incluem:
- morte do protagonista;
- busca pelo corpo;
- restauração simbólica;
- triunfo sobre a morte;
- transmissão de ensinamentos aos iniciados.
Esses paralelos são sugestivos, mas não demonstram uma ligação histórica direta entre o culto de Osíris e a lenda de Hiram. A maioria dos especialistas considera que se trata de uma analogia temática, e não de uma prova de dependência textual.
4.5 Adônis e Tamuz
Na antiga Fenícia, Adônis era associado ao ciclo da vegetação, da morte e do renascimento. Na Mesopotâmia, Tamuz desempenhava papel semelhante.
Em ambos os casos, o desaparecimento da divindade era seguido por rituais de lamento e expectativa de renovação.
Autores do século XIX, especialmente ligados ao esoterismo, identificaram nesses mitos uma estrutura comparável à narrativa de Hiram. No entanto, as fontes históricas disponíveis não permitem afirmar que os criadores do Terceiro Grau tenham utilizado diretamente esses cultos como modelo.
4.6 O Orfismo e os Mistérios Gregos
Outro paralelo frequentemente citado envolve Orfeu.
Na tradição órfica, Orfeu é despedaçado pelas bacantes após permanecer fiel à sua missão espiritual. Sua morte torna-se símbolo da superioridade da sabedoria sobre a violência.
A comparação entre Orfeu e Hiram foi desenvolvida sobretudo por escritores franceses do século XIX, que viam ambos como arquétipos do iniciado perseguido.
Novamente, trata-se de uma interpretação filosófica posterior, e não de uma conexão historicamente demonstrada.
4.7 A Cabala Judaica
A Cabala exerceu profunda influência sobre diversos autores maçônicos a partir do século XVIII.
Segundo interpretações cabalísticas:
- Salomão simboliza a Sabedoria;
- Hiram representa a Inteligência aplicada à construção;
- o Templo corresponde ao cosmos ordenado;
- a Palavra Perdida remete ao Nome Inefável de Deus.
Essas leituras são particularmente visíveis nas obras de Éliphas Lévi e Albert Pike. Entretanto, elas refletem uma releitura esotérica da tradição maçônica, e não uma continuação direta da Cabala medieval.
4.8 O Hermetismo
Os escritos atribuídos a Hermes Trismegisto influenciaram profundamente o pensamento esotérico europeu.
No Hermetismo, o iniciado busca reconstruir interiormente o ser humano por meio do conhecimento e da disciplina espiritual.
Alguns intérpretes consideram que o Templo de Salomão simboliza precisamente essa construção interior, enquanto Hiram representa o mestre capaz de orientar esse processo.
Essa interpretação tornou-se particularmente influente entre autores ocultistas do século XIX.
4.9 O Gnosticismo
Diversos pesquisadores observaram afinidades entre certos temas da lenda e conceitos presentes em correntes gnósticas.
Entre essas afinidades estão:
- a busca pelo conhecimento salvador;
- a distinção entre conhecimento exterior e interior;
- a necessidade de uma iniciação;
- a regeneração espiritual do iniciado.
Contudo, não existe documentação que demonstre uma transmissão direta entre os antigos grupos gnósticos e a Maçonaria especulativa. A relação é, portanto, interpretativa.
4.10 Rosacrucianismo e Templários
Desde o século XVIII, alguns autores propuseram que a Maçonaria teria herdado elementos simbólicos dos manifestos rosacruzes ou das tradições atribuídas aos Cavaleiros Templários.
Nessa perspectiva:
- Hiram simbolizaria o iniciado perfeito;
- o Templo representaria a reconstrução espiritual da humanidade;
- a Palavra Perdida corresponderia ao conhecimento primordial.
Essas hipóteses influenciaram fortemente a literatura maçônica dos séculos XVIII e XIX. Entretanto, a documentação histórica atualmente conhecida não confirma uma continuidade institucional direta entre essas ordens e a Maçonaria moderna.
4.11 A interpretação da história das religiões
Sob a ótica comparativa da história das religiões, a lenda de Hiram pode ser compreendida como uma expressão de um tema recorrente: o do mestre justo que sofre violência, cuja fidelidade gera transformação espiritual e cuja memória se torna fundamento de uma comunidade.
Esse motivo aparece em diferentes culturas e épocas, mas assume formas distintas conforme o contexto histórico e religioso. A semelhança estrutural entre esses relatos não implica, por si só, que um tenha sido copiado do outro.
Conclusão geral
A investigação das possíveis influências da lenda de Hiram Abiff revela um quadro complexo. A base histórica da narrativa encontra-se na Bíblia, especialmente nas referências a Huram-Abi e à construção do Primeiro Templo. A forma ritualística, porém, consolidou-se apenas na Maçonaria especulativa do século XVIII. Ao longo dos séculos seguintes, autores de diferentes correntes ampliaram seu significado por meio de interpretações inspiradas na Cabala, no Hermetismo, no Gnosticismo, nos Mistérios do Egito e em outras tradições iniciáticas.
Do ponto de vista historiográfico, é importante distinguir entre influências documentadas e analogias simbólicas. A documentação disponível permite afirmar com segurança a origem bíblica do personagem e o desenvolvimento ritual da lenda na Maçonaria moderna. Já as conexões com tradições mais antigas pertencem, em grande medida, ao campo da interpretação comparativa. Ainda assim, essas leituras contribuíram decisivamente para transformar Hiram Abiff em um dos mais ricos e duradouros arquétipos da tradição esotérica ocidental, cuja força simbólica continua a inspirar estudos históricos, filosóficos e iniciáticos.
A seguir está uma bibliografia em formato ABNT (NBR 6023:2018) organizada por categorias de fontes. Ela reúne obras fundamentais para um estudo aprofundado sobre a lenda de Hiram Abiff, a construção do Templo de Salomão, a Maçonaria, o Hermetismo, a Cabala, o simbolismo comparado e estudos acadêmicos. Algumas obras antigas possuem diversas edições; quando a edição consultada variar, recomenda-se adaptar os dados bibliográficos à edição efetivamente utilizada.
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