AS GRANDES COSMOGONIAS INDÍGENAS BRASILEIRAS:

 



AS GRANDES COSMOGONIAS INDÍGENAS BRASILEIRAS: AS ORIGENS DO UNIVERSO, OS DEUSES CRIADORES E OS ARQUÉTIPOS UNIVERSAIS NAS TRADIÇÕES ANCESTRAIS DA HUMANIDADE

Introdução

Muito antes da chegada dos europeus ao continente americano, centenas de povos indígenas já habitavam o território que hoje conhecemos como Brasil. Esses povos desenvolveram complexos sistemas filosóficos, cosmológicos e espirituais que procuravam responder às mesmas perguntas fundamentais que inquietaram egípcios, sumérios, gregos, hindus, chineses, persas, hebreus e inúmeros outros povos da Antiguidade: Como surgiu o universo? Quem criou os seres humanos? De onde vieram o Sol, a Lua e as estrelas? Existe vida após a morte? Qual é o papel do ser humano dentro da ordem cósmica?

Durante muito tempo, a historiografia ocidental classificou as narrativas indígenas apenas como "lendas", "superstições" ou "folclore". Entretanto, os estudos modernos de antropologia, etnologia, história das religiões, mitologia comparada e filosofia das religiões demonstraram que essas tradições constituem verdadeiros sistemas cosmológicos, tão sofisticados quanto aqueles encontrados nas grandes civilizações da África, Ásia, Europa e Oriente Médio.

As cosmogonias indígenas brasileiras representam uma das mais extraordinárias heranças intelectuais do continente americano. Elas preservam memórias ancestrais transmitidas oralmente durante séculos ou milênios e revelam uma compreensão profundamente integrada entre natureza, espiritualidade, sociedade e cosmos.

Ao examinarmos os mitos dos Guarani, Tukano, Desana, Baniwa, Yanomami, Kamayurá, Bororo, Kaingang, Karajá, Xavante e dezenas de outros povos, encontramos temas surpreendentemente semelhantes aos presentes nas narrativas do Gênesis bíblico, nas tradições védicas da Índia, nos mitos egípcios, na cosmologia nórdica, nas lendas celtas, nas tradições africanas e nas cosmologias da Oceania.

Seria mera coincidência? Herança cultural compartilhada? Resultado de estruturas universais da mente humana? Ou estariam essas narrativas preservando antigas percepções da realidade que transcendem fronteiras geográficas e temporais?

Este estudo propõe uma ampla investigação das grandes cosmogonias indígenas brasileiras, analisando seus principais mitos de criação, seus deuses criadores, seus heróis civilizadores e suas relações simbólicas com as tradições religiosas e mitológicas dos cinco continentes.


Capítulo I – O Que é uma Cosmogonia?

A palavra cosmogonia deriva do grego kosmos (universo) e gonia (origem, nascimento).

Uma cosmogonia é uma narrativa ou sistema de pensamento destinado a explicar:

  • a origem do universo;
  • a criação da Terra;
  • o surgimento da humanidade;
  • a organização do cosmos;
  • a origem da morte;
  • a existência do bem e do mal;
  • a relação entre o mundo material e o espiritual.

Toda civilização conhecida produziu algum tipo de cosmogonia.

Os sumérios desenvolveram o Enuma Elish.

Os egípcios possuíam as cosmogonias de Heliópolis, Hermópolis e Mênfis.

Os gregos registraram a Teogonia de Hesíodo.

Os hindus preservaram as narrativas dos Vedas e dos Puranas.

Os hebreus produziram o relato do Gênesis.

Da mesma forma, os povos indígenas brasileiros desenvolveram suas próprias explicações para a origem do universo e da humanidade.

Esses relatos não devem ser compreendidos apenas como histórias literárias. Para seus povos, representam conhecimentos sagrados que organizam a vida social, a moral, os rituais e a relação com a natureza.


Capítulo II – As Grandes Cosmogonias do Brasil Indígena

A Cosmogonia Guarani

Entre os povos Guarani encontra-se uma das mais profundas concepções metafísicas das Américas.

No princípio existia apenas Nhanderu Tenondé, o Primeiro Pai.

Antes da existência da Terra, do Sol ou das estrelas, Nhanderu já existia em uma dimensão espiritual perfeita.

A criação não ocorre por combate ou violência, como em muitas mitologias antigas. Ela surge por pensamento, palavra e intenção.

O mundo material é considerado apenas uma manifestação imperfeita de uma realidade superior.

O objetivo espiritual da humanidade consiste em reencontrar essa condição primordial.

Daí surge o conceito da Terra sem Mal, talvez uma das ideias religiosas mais fascinantes do continente americano.

A Terra sem Mal é um lugar onde não existe sofrimento, doença, fome ou morte.

Comparações inevitáveis surgem com:

  • o Jardim do Éden;
  • os Campos Elísios gregos;
  • Shambhala tibetana;
  • Avalon celta;
  • o Paraíso islâmico;
  • o Reino dos Céus cristão.

A Cosmogonia Kamayurá

No Alto Xingu, os Kamayurá preservaram uma narrativa singular sobre a origem da humanidade.

No início existia apenas Mavutsinim.

Sozinho no mundo primordial, ele cria uma mulher a partir de uma concha.

Dessa união surgem os ancestrais da humanidade.

Posteriormente aparecem os heróis culturais ligados à criação do Sol e da Lua.

A figura de Mavutsinim apresenta semelhanças com:

  • Atum, do Egito;
  • Brahma, da Índia;
  • Odin, da Escandinávia;
  • o Deus criador do Gênesis.

Em todos os casos encontramos um ser primordial atuando como organizador do cosmos.


A Cosmogonia Tukano e a Cobra-Canoa

Entre os Tukano, Desana e outros povos do Alto Rio Negro, a criação está associada à Cobra-Canoa.

Esse gigantesco ser ancestral transporta os primeiros humanos ao longo dos rios amazônicos.

À medida que avança, distribui:

  • povos;
  • idiomas;
  • conhecimentos;
  • costumes;
  • territórios.

A serpente criadora aparece em praticamente todos os continentes.

Ela surge como:

  • Naga, na Índia;
  • Quetzalcóatl, no México;
  • Kukulkán, entre os maias;
  • Jörmungandr, na mitologia nórdica;
  • Serpente Arco-Íris, na Austrália.

A recorrência desse símbolo constitui um dos maiores enigmas da mitologia comparada.


A Cosmogonia Yanomami

A cosmologia Yanomami apresenta uma das visões mais sofisticadas já registradas sobre a estrutura do universo.

Segundo essa tradição, o mundo atual não é o primeiro.

Mundos anteriores existiram e desapareceram.

O céu pode cair.

O universo possui múltiplas camadas superpostas.

Os xapiri, espíritos ancestrais, sustentam a ordem cósmica.

Essa visão aproxima-se de:

  • tradições hindus dos ciclos cósmicos;
  • cosmologia budista;
  • Cinco Sóis da tradição asteca;
  • narrativas maias sobre mundos anteriores.

Capítulo III – Os Arquétipos Universais

Ao comparar as cosmologias indígenas brasileiras com centenas de tradições religiosas e mitológicas dos cinco continentes, observamos a presença recorrente de dez grandes arquétipos universais:

  1. O vazio primordial.
  2. O criador original.
  3. A árvore cósmica.
  4. A serpente primordial.
  5. Os mundos superiores e inferiores.
  6. O dilúvio universal.
  7. Os gêmeos divinos.
  8. O roubo do fogo ou do conhecimento.
  9. O mediador entre os mundos.
  10. O paraíso perdido.

Esses arquétipos aparecem repetidamente entre povos separados por oceanos, desertos e milhares de anos de história.

Tal fenômeno levou estudiosos como Mircea Eliade, Joseph Campbell, Carl Gustav Jung e Claude Lévi-Strauss a defenderem que os mitos expressam estruturas profundas da experiência humana.


Excelente proposta de pesquisa. Quando estudamos as cosmogonias indígenas brasileiras documentadas, percebemos que não existe uma única "mitologia indígena brasileira", mas centenas de sistemas cosmológicos distintos, comparáveis em complexidade às mitologias grega, egípcia, nórdica ou hindu. Grande parte dessas narrativas foi registrada por etnólogos, missionários, viajantes, linguistas e, mais recentemente, pelos próprios autores indígenas.

As Grandes Cosmogonias Indígenas do Brasil

1. Cosmogonia Tupi-Guarani

Talvez seja a mais conhecida devido aos relatos dos primeiros cronistas portugueses.

Principais personagens

  • Sumé
  • Tupã
  • Nhanderu (Grande Pai)
  • Jaci (Lua)
  • Guaraci (Sol)
  • Anhangá
  • Jurupari (em algumas tradições)

Criação do mundo

Entre diversos grupos guaranis, o universo teria sido criado por Nhanderu, que emergiu sozinho do vazio primordial. O mundo material é visto como uma cópia imperfeita de uma realidade espiritual superior. O ideal religioso guarani é a busca da "Terra sem Mal", um paraíso terreno onde não existe sofrimento nem morte.

Essa concepção foi registrada por pesquisadores como Curt Nimuendajú e posteriormente analisada por Claude Lévi-Strauss.


2. Cosmogonia Kamayurá (Xingu)

A tradição Kamayurá preserva uma das narrativas de criação mais completas do Brasil.

Mito central

O criador é Mavutsinim.

Segundo a tradição:

  • inicialmente existia apenas Mavutsinim;
  • ele criou uma mulher a partir de uma concha;
  • seus descendentes deram origem à humanidade;
  • Sol e Lua surgiram como heróis civilizadores.

Os irmãos Orlando Villas-Bôas e Cláudio Villas-Bôas registraram diversas versões dessa narrativa.


3. Cosmogonia Yanomami

Uma das cosmologias mais sofisticadas já registradas na Amazônia.

Segundo os Yanomami:

  • o mundo atual não é o primeiro;
  • diversos mundos anteriores desabaram;
  • o universo possui múltiplos níveis superpostos;
  • seres espirituais chamados xapiri sustentam a ordem cósmica.

A narrativa foi amplamente registrada por Davi Kopenawa e Bruce Albert em A Queda do Céu. A literatura acadêmica também registra mitos de origem dos grupos Parahiteri Yanomami.

Conceito fundamental

A floresta é considerada um ser vivo.

Os espíritos xapiri habitam uma dimensão invisível e interagem continuamente com os xamãs.


4. Cosmogonia Tukano

Os Tukano do Alto Rio Negro possuem uma cosmologia extremamente elaborada.

Estrutura do universo

O cosmos é composto por:

  • Céu
  • Terra
  • Mundo Inferior

Cada um desses níveis contém seres próprios e corresponde simultaneamente a dimensões físicas e espirituais.

Mito da Cobra-Canoa

Um dos mitos centrais narra que os ancestrais viajaram dentro de uma enorme cobra-canoa que subiu os rios amazônicos distribuindo povos, línguas e conhecimentos.

A Cobra-Canoa é para os Tukano o equivalente ao que a Arca de Noé representa para tradições abraâmicas.

A astronomia também possui papel central na cosmologia Tukano. As constelações são vistas como personagens míticos e regulam o calendário ritual e agrícola.


5. Cosmogonia Karib (Ye'kwana)

Os Ye'kwana de Roraima possuem uma cosmologia baseada na relação entre música, arquitetura e universo.

A casa circular tradicional representa o cosmos.

Os rituais de construção reproduzem simbolicamente a criação do mundo.

O universo é organizado por forças criadoras e destruidoras que precisam permanecer em equilíbrio.


6. Cosmogonia Karipuna do Oiapoque

Entre os Karipuna do Amapá:

  • o pajé atua como mediador entre os mundos;
  • existem seres sobrenaturais chamados Karuãna;
  • estrelas e constelações possuem papel espiritual importante.

Os rituais do Turé reproduzem a comunicação entre o mundo humano e o mundo invisível.


Temas Universais Encontrados nas Cosmogonias Brasileiras

Ao comparar centenas de narrativas registradas por etnólogos como Curt Nimuendajú, Claude Lévi-Strauss, Darcy Ribeiro, Egon Schaden e Câmara Cascudo, surgem padrões recorrentes:

O Criador Solitário

  • Mavutsinim (Kamayurá)
  • Nhanderu (Guarani)
  • Tamusi (Galibi)
  • Monan (Tupi)

O Dilúvio

Presente em:

  • Tupi
  • Guarani
  • Tukano
  • Karib
  • Pano

Os Gêmeos Divinos

Muito comuns entre:

  • Tupi
  • Guarani
  • Karib
  • Galibi

A Árvore Cósmica

Equivalente à Yggdrasil nórdica.

Surge entre:

  • Tukano
  • Desana
  • Baniwa
  • Yanomami

A Cobra Primordial

Encontrada entre:

  • Tukano
  • Baniwa
  • Desana
  • povos do Xingu

A Terra sem Mal

Tema central dos Guarani.

Representa uma busca espiritual semelhante ao Paraíso, ao Éden ou à Ilha dos Bem-Aventurados.


Povos com Mitologias Mais Bem Documentadas

As cosmogonias mais extensamente registradas em livros e pesquisas acadêmicas são:

  1. Povo Guarani
  2. Povo Tukano
  3. Povo Desana
  4. Povo Yanomami
  5. Povo Kamayurá
  6. Povo Kuikuro
  7. Povo Baniwa
  8. Povo Bororo
  9. Povo Kadiwéu
  10. Povo Kaingang

Bibliografia Fundamental

Para uma investigação aprofundada das cosmogonias indígenas brasileiras, as obras mais importantes são:

  • A Queda do Céu
  • As Mitológicas
  • Lendas Brasileiras
  • Dicionário do Folclore Brasileiro
  • Religião dos Tupi-Guarani
  • Os Índios e a Civilização
  • A Terra dos Mil Povos
  • The Falling Sky
  • Mito e Linguagem Social

O resultado dessa comparação é impressionante: apesar de separados por milhares de quilômetros, muitos povos indígenas brasileiros preservaram temas cosmológicos universais — o criador primordial, o dilúvio, a serpente cósmica, os gêmeos divinos, a árvore do mundo e a comunicação entre os planos espiritual e material — sugerindo uma das mais ricas tradições mitológicas das Américas. 


Essa comparação exige um cuidado metodológico importante: semelhança não significa necessariamente origem comum. A moderna área da Mitologia Comparada mostra que determinados temas aparecem repetidamente em culturas sem contato histórico conhecido, podendo resultar de heranças culturais antigas, experiências humanas universais ou convergências simbólicas.

Dito isso, quando colocamos lado a lado as cosmogonias dos povos indígenas brasileiros (Tupi-Guarani, Tukano, Desana, Baniwa, Yanomami, Kamayurá, Bororo, Kaingang, entre outros) e as grandes religiões e mitologias dos cinco continentes, surgem padrões impressionantes.

O Grande Vazio Primordial

Povos indígenas brasileiros

Entre diversos grupos Tupi-Guarani, Kamayurá e Yanomami, o universo surge a partir de um estado primordial anterior à existência do mundo material. Nhanderu, Mavutsinim ou Omama aparecem como organizadores do cosmos.

Paralelos mundiais

  • Gênesis: "a terra era sem forma e vazia"
  • Hinduísmo: Brahman precede toda manifestação
  • Mitologia egípcia: Nun, o oceano primordial
  • Mitologia grega: Caos primordial
  • Mitologia nórdica: Ginnungagap, o vazio cósmico

Padrão universal

Antes da criação existe:

  • vazio;
  • escuridão;
  • oceano primordial;
  • potencialidade infinita.

O Criador Solitário

Brasil indígena

  • Nhanderu (Guarani)
  • Mavutsinim (Kamayurá)
  • Omama (Yanomami)
  • Monan (Tupi)

Mundo

  • Moisés descreve Deus criando sozinho
  • Islamismo apresenta Allah como criador único
  • Sikhismo apresenta Ik Onkar, o Uno primordial

Padrão

Um ser anterior ao cosmos organiza a realidade.


A Árvore Cósmica

Brasil

Encontrada entre:

  • Tukano
  • Desana
  • Baniwa
  • diversos povos amazônicos

A árvore conecta céu, terra e mundo subterrâneo.

Mundo

  • Yggdrasil
  • Árvore da Vida da Cabala judaica
  • Ashvattha do Hinduísmo
  • árvores cósmicas siberianas
  • árvores sagradas africanas

Padrão

O universo é representado como um organismo vivo.


Os Três Mundos

Povos amazônicos

Os Tukano descrevem:

  • Céu
  • Terra
  • Mundo Inferior

Correspondentes

Cristianismo

  • Céu
  • Terra
  • Inferno

Nórdicos

  • Asgard
  • Midgard
  • Hel

Xamanismo siberiano

  • Mundo Superior
  • Mundo Médio
  • Mundo Inferior

Egípcios

  • Mundo dos vivos
  • Duat
  • Reino solar

Padrão

A realidade é estratificada.


A Serpente Primordial

Brasil

Entre Tukano, Desana e Baniwa surge a Cobra-Canoa ancestral que transporta os primeiros seres humanos.

Mundo

  • Quetzalcóatl (Mesoamérica)
  • Kukulkán (Maias)
  • Serpente Arco-Íris australiana
  • Jörmungandr (Nórdicos)
  • Naga (Índia)
  • Apófis (Egito)

Padrão

A serpente representa:

  • criação;
  • sabedoria;
  • caos;
  • transformação.

O Dilúvio

Brasil

Relatos de grandes inundações aparecem em narrativas Tupi, Guarani e Amazônicas.

Mundo

  • Dilúvio de Noé
  • Epopeia de Gilgamesh
  • Manu (Índia)
  • Deucalião (Grécia)
  • lendas chinesas
  • tradições africanas

Padrão

A humanidade passa por uma destruição hídrica seguida de renovação.


Os Gêmeos Divinos

Brasil

Muito frequentes entre:

  • Tupi
  • Guarani
  • Galibi
  • Karib

Mundo

  • Castor e Pólux (Grécia)
  • Hunahpú e Xbalanqué (Maias)
  • Rômulo e Remo (Roma)
  • Ashvins (Índia)

Padrão

Dualidade complementar:

  • luz e sombra;
  • ordem e caos;
  • vida e morte.

O Roubo do Fogo

Brasil

Diversos povos amazônicos contam que o fogo pertencia originalmente aos animais ou espíritos.

Mundo

  • Prometeu
  • Maui (Polinésia)
  • Corvo (nativos da América do Norte)

Padrão

O conhecimento civilizador é obtido por transgressão.


Animais como Pessoas

Brasil

Uma característica marcante das cosmologias amazônicas.

Animais:

  • falam;
  • possuem aldeias;
  • possuem cultura;
  • possuem perspectiva humana.

Esse aspecto aparece fortemente entre Yanomami, Tukano e diversos povos amazônicos.

Paralelos

  • xamanismo siberiano
  • povos inuítes
  • povos aborígenes australianos
  • povos africanos tradicionais

Diferença importante

Os povos amazônicos desenvolveram essa ideia de forma muito mais sistemática.

O antropólogo Eduardo Viveiros de Castro chamou isso de "perspectivismo ameríndio".


A Queda do Céu

Brasil

Entre Yanomami, Tukano e outros povos amazônicos existem narrativas de céus anteriores que desabaram.

Mundo

  • mitologias maias falam de mundos anteriores destruídos;
  • tradições hindus falam de ciclos cósmicos;
  • mitologia asteca fala dos Cinco Sóis;
  • budismo apresenta universos sucessivos.

Padrão

O mundo atual não é o primeiro.


A Terra Sem Mal

Guarani

A Terra sem Mal é uma realidade perfeita, livre de sofrimento e corrupção.

Equivalentes

  • Jardim do Éden
  • Paraíso Islâmico
  • Campos Elísios gregos
  • Tír na nÓg celta
  • Shambhala tibetana
  • Avalon arturiana

Padrão

Existe um estado ideal perdido ou futuro.


O Xamã e o Profeta

Brasil

O pajé:

  • comunica-se com espíritos;
  • viaja entre mundos;
  • cura;
  • interpreta sonhos.

Mundo

Paralelos:

  • profetas hebreus;
  • druidas celtas;
  • lamas tibetanos;
  • xamãs siberianos;
  • sacerdotes egípcios.

Padrão

Existe um mediador entre o mundo visível e o invisível.


A Conclusão Mais Interessante

Após comparar centenas de narrativas indígenas brasileiras com as cosmogonias do:

  • Cristianismo
  • Judaísmo
  • Islamismo
  • Hinduísmo
  • Budismo
  • Taoismo
  • Mitologia Grega
  • Mitologia Egípcia
  • Mitologia Nórdica
  • Mitologia Celta
  • Mitologia Eslava
  • Mitologia Suméria
  • Mitologia Babilônica
  • Mitologia Asteca
  • Mitologia Maia
  • Mitologia Inca
  • Tradições Africanas
  • Tradições Australianas Aborígenes
  • Xamanismo Siberiano

observamos a recorrência de aproximadamente dez grandes arquétipos universais:

  1. O vazio primordial.
  2. O criador original.
  3. A árvore cósmica.
  4. Os três níveis do universo.
  5. A serpente primordial.
  6. O dilúvio.
  7. Os gêmeos divinos.
  8. O roubo do fogo ou do conhecimento.
  9. O mediador entre mundos.
  10. O paraíso perdido ou futuro.

Essas semelhanças não provam uma origem única das religiões ou mitologias. Entretanto, elas sugerem que povos separados por oceanos e milênios desenvolveram respostas simbólicas surpreendentemente parecidas para as mesmas perguntas fundamentais: de onde viemos, por que existe o mundo, o que acontece após a morte e qual é o lugar do ser humano dentro do cosmos.



Lenda que faz parte da cosmologia Kamayurá ou Kamaiurá e fala da criação do homem, do Sol e da Lua

Para os Kamayurá, Mavutsinim foi o primeiro homem; antes dele não existia ninguém. Como escrevem os irmãos Villas-Boas:

"No começo só havia Mavutsinim. Ninguém vivia com ele. Não tinha mulher. Não tinha filho. Nenhum parente ele tinha. Era só."¹

Para acabar com sua solidão, Mavutsinim transformou uma concha em mulher e, com ela, teve um filho. Os Kamayurá acreditam ser descendentes desse filho:

"Somos netos do filho de Mavutsinim", dizem eles.

Já entre os índios Kaiapó, ele aparece como Mavotsinin, um ser "alto e brilhante" que saiu de uma gruta. Para Thor, ele seria um astronauta, ou melhor, um "UFOnauta".

Curu-Sacaebe aparece na obra de José Coutinho de Oliveira²³ e, tal como os anteriores, também fez o homem e os animais a partir de toras de madeira.

Sumé, por sua vez, é citado pelo padre Manuel da Nóbrega em suas Cartas do Brasil (1549). Trata-se de uma figura misteriosa que surgiu "antes do Descobrimento" e que, segundo Câmara Cascudo, "ensinou aos índios o cultivo da terra e as regras morais".²⁴

Uma curiosidade específica sobre Sumé é o fato de ser descrito como um homem branco que desapareceu "caminhando sobre as águas do mar", em direção à Índia. Essas características apontariam para um pajé de raça branca. A tradição tupi-guarani fala de um homem sábio e milagreiro que esteve entre eles há muito tempo: um provável precursor dos missionários, chamado Sumé (entre os tupis) ou Pay Zumé (entre os guaranis).

Bep-Kororoti é um herói mítico da tribo Kaiapó que transmitiu muitos conhecimentos aos indígenas, disciplinando-os, ensinando-os a construir casas, organizar-se socialmente e cultivar frutas, verduras e legumes. Foi ele quem organizou as famílias, ensinando-as a se identificar por meio da pintura corporal. Também aperfeiçoou as técnicas de plantio, caça e pesca, ensinou a obtenção do fogo e instituiu medidas profiláticas, como a proibição do incesto.

Bep-Kororoti também teria tentado instituir um sistema educacional. É digno de nota o fato de que esse deus-herói, quando apareceu na aldeia, utilizava uma roupa semelhante a um escafandro e portava uma "borduna trovejante".²⁵

Percebe-se claramente o que há de comum entre essa personagem e as anteriores. Um trabalho de pesquisa mais aprofundado sobre essas similitudes poderia revelar aspectos interessantes, como a possibilidade — implícita nos relatos — de que os povos nativos tenham mantido contato com indivíduos pertencentes a uma cultura mais avançada e desenvolvida, ou mesmo alienígena.

Um estudo de maior fôlego nesse sentido foi realizado pelo professor Jacques de Mahieu, em sua obra Os Vikings no Brasil, na qual procura demonstrar, com base em diversos vestígios, que guerreiros nórdicos teriam transitado pelo Brasil, vindos do México, passando pela Venezuela e instalando-se às margens do lago Titicaca. Naquele local, em virtude das condições climáticas semelhantes às de sua terra natal, os vikings teriam construído sua capital, Tiahuanaco, de onde partiriam em diversas incursões pela Amazônia e até Valparaíso, no Pacífico.

O MITO DE DEUS E DO DIABO INDÍGENAS

Era necessário aos missionários dos primeiros tempos encontrar, no panteão nativo, uma divindade que encarnasse os atributos do Deus que desejavam apresentar e, ao mesmo tempo, outra que personificasse os atributos contrários.

Como o primeiro trabalho dos missionários consistia em identificar os focos de adoração indígena e combatê-los em nome de sua fé, não foi muito difícil reconhecer em Jurupari o alvo desse primeiro movimento.

Jurupari, uma divindade dotada de grande prestígio e investida de muitos privilégios, recebeu a primeira investida da brigada eclesiástica: todo culto pagão seria obra de Satanás.

Por força desse argumento — que tantos prejuízos trouxe às culturas de inúmeros povos —, esse deus autóctone foi transformado em Diabo, na encarnação do Mal. Para combatê-lo e proteger os indígenas de sua suposta influência nefasta, surgiu Tupã, um ser tão distante da compreensão dos nativos quanto Jurupari o era da compreensão dos missionários.

Câmara Cascudo afirma que Tupã "é um trabalho de adaptação da catequese" (1972, p. 85). Na verdade, Tupã já existia, não como divindade, mas apenas como uma referência ao som do trovão (Tu-pá, Tu-pã ou Tu-pana, golpe ou baque estrondante). Portanto, não passava de um efeito cuja causa o indígena desconhecia e, por isso mesmo, temia.

Osvaldo Orico, entretanto, sustenta que os indígenas possuíam a noção da existência de uma força superior, um ente supremo acima de todos.

Segundo ele:

"A despeito da singela ideia religiosa que os caracterizava, tinham noção de um Ente Supremo, cuja voz se fazia ouvir nas tempestades — Tupã-Cinunga, ou o trovão — e cujo reflexo luminoso era Tupã-Beraba, ou o relâmpago."²³

Voltando a Câmara Cascudo (1972, p. 85), lemos que foi a partir de 1613 que Jurupari "assumira o posto de Diabo com todas as honras e prerrogativas intrínsecas".

Evidentemente, as "honras e prerrogativas" mencionadas por Cascudo não correspondem à visão indígena, para a qual não fazia sentido a ideia de um diabo tentador ou da alma aprisionada pelas armadilhas de Satã.

É provável, contudo, que já existisse a concepção de um inimigo indistinto, oculto e obscuro, responsável pelos infortúnios, vicissitudes e acontecimentos negativos da vida. Esse comportamento representa uma tendência humana bastante comum: a criação de um inimigo imaginário para explicar problemas aparentemente insolúveis.²⁴

Os indígenas não possuíam conceitos religiosos estruturados nos moldes ocidentais, mas tinham bem definidos os conceitos de sobrenatural e de dualidade presente na natureza.

Expedito Arnaud²⁵, pesquisando os índios Galibi, da Guiana Francesa, registrou que eles acreditavam no Sol e na Lua como seres vivos, mas não os encaravam como deuses dignos de adoração ou sacrifício.

Arnaud afirma ainda que acreditavam em Deus e no Diabo, identificados respectivamente como Tamoussi Cabou ("o velho homem do céu") e Iroucan.

Curiosamente, segundo os Galibi, essas duas entidades eram filhos de Amana. Nesse contexto, Arnaud registra o antigo mito da "Virgem Mãe":

"Amana originou os irmãos gêmeos Tamusi, criador de tudo o que é justo e bom, e Yolokan-Tamulu, avô dos espíritos da natureza, criador das trevas e da miséria, sendo o primeiro inconcebível sem o segundo, tanto quanto a luz sem as trevas."

Se a noção de dualidade e polaridade das forças da natureza e das leis cósmicas era compreendida de forma tão complexa pelos Galibi, então eles demonstravam uma percepção filosófica bastante sofisticada.

Arnaud registrou, há mais de duas décadas, que quase todos os Galibi haviam sido convertidos ao catolicismo. Hoje, é razoável supor que essa tradição espiritual ancestral tenha sido amplamente substituída pelas práticas religiosas introduzidas pelos missionários.

Nota: Em muitas religiões primitivas, a divindade suprema era concebida sob forma feminina, associada ao princípio criador e à capacidade geradora da mulher.

O MITO, OS ELEMENTAIS E OS EXTRATERRESTRES

Este capítulo pretende apenas apresentar uma abordagem introdutória sobre os seres elementais, ou "espíritos da natureza", e alguns mitos que podem ter surgido a partir deles.

Acreditamos que parte significativa do folclore mítico tenha origem nas visões e contatos dos povos antigos com esses seres, considerados guardiões dos reinos animal, vegetal e mineral.

Os indícios apresentados pelos estudiosos são variados e, para alguns autores, convincentes. O mesmo ocorre em relação a outro tema controverso: a Ufologia e a hipótese da existência de seres extraterrestres.¹

Alguns estudiosos, místicos e ocultistas distinguem "elementais" de "elementares". Nesta última categoria estariam personagens como Curupira, Caapora, Saci e Iara. Já os elementais seriam as energias sutis associadas aos quatro elementos clássicos: terra, água, fogo e ar.

Segundo essa visão, sem a presença dos elementais os quatro elementos não existiriam nem suas manifestações ocorreriam de forma ordenada.

Assim, argumenta-se que sem as Salamandras, ligadas ao elemento fogo, queimadas poderiam fugir ao controle; sem os Floros, protetores da flora, e os Elfos, associados ao solo, a floresta estaria desprotegida.

Para os materialistas, contudo, tais ideias não passam de construções imaginárias criadas pelos antigos.

Entretanto, a impossibilidade de observar algo diretamente não significa, necessariamente, sua inexistência.

Os cientistas modernos, especialmente os físicos que estudam o mundo subatômico e os astrônomos que investigam o universo profundo, frequentemente inferem a existência de partículas ou corpos celestes invisíveis por meio de cálculos matemáticos.

Le Verrier, por exemplo, não precisou observar diretamente o planeta Netuno para prever sua existência e localização. Bastou analisar as perturbações na órbita de Urano e aplicar as leis da mecânica celeste.

Da mesma forma, alguns autores consideram que existiriam evidências da passagem de seres humanoides atribuídos a outros mundos.

Retoma-se aqui a hipótese apresentada anteriormente: a possibilidade de que certas divindades da natureza ou da teogonia antiga sejam interpretações míticas de visitantes desconhecidos.

Alguns autores observam semelhanças entre os seres descritos pela Ufologia e os elementais descritos por Paracelso, o que, segundo eles, justificaria investigações mais aprofundadas.

Também há relatos que apontam semelhanças entre os efeitos experimentados por pessoas que afirmam ter tido contato com entidades da natureza ou com supostos extraterrestres.

Diversos relatos ufológicos descrevem sintomas posteriores ao contato, como tonturas, astenia, cefaleias, náuseas e febres sem causa aparente.

O depoimento do Sr. Eufrásio, que teria encontrado um estranho ser durante uma caçada, apresenta características que alguns pesquisadores associariam a contatos de terceiro ou quarto grau.

Outro caso citado é o do fazendeiro João Batista Souza², do Maranhão, que relatou um encontro com um UFOnauta de "corpo totalmente peludo". Segundo o relato, foi encontrado desacordado pelos filhos e permaneceu acamado por vários dias.

Eufrásio acreditava ter encontrado uma entidade protetora da fauna, talvez um duende feminino ou algum ser pertencente ao universo mítico amazônico. Contudo, a intensa luminosidade observada durante a experiência é interpretada por alguns autores como um indício mais compatível com fenômenos associados à Ufologia.

Experiências semelhantes poderiam, hipoteticamente, ter ocorrido entre os povos indígenas do passado, contribuindo para a formação de alguns dos mitos e lendas que chegaram até nós.

A MITOLOGIA

É evidente que os mitos são símbolos e, como todo símbolo, encerram mensagens ou informações codificadas, inteligíveis apenas para aqueles que conhecem os códigos de interpretação.

Alguns mitos possuem caráter universal; outros restringem-se a determinadas regiões. Todos, porém, expressam a necessidade humana de registrar e transmitir descobertas, conhecimentos e ensinamentos.

Como afirma Ralph M. Lewis:

"Os mitos são criados espontaneamente ou assimilados. Nascem para suprir uma necessidade criativa individual ou coletiva."

Os mitos contribuem para a construção e consolidação da cosmovisão de indivíduos e sociedades.

A função social do mito aparece claramente descrita na obra Mitos y Sociedad:

"Cada sociedad, según su modo de ser, concibe de una manera peculiar su unidad y, al expresarla, toma conciencia de su existencia."

O autor acrescenta, citando Nicholas Corte:

"El mito fue el símbolo unificador del grupo social en cuyo seno fue elaborado. Satisfacía en ese grupo la necesidad intelectual de saber y comprender, y servía de base a la religión. El mito mantenía de esta manera una especie de disciplina social."

Victor Jabouille (1986, p. 32) observa:

"Se o logos é a linguagem da demonstração, o mythos é a linguagem da imaginação, a linguagem da criação."

E complementa:

"O mito conta como, graças aos atos dos seres sobrenaturais, uma realidade passou a existir. Seja o Cosmo, uma ilha, uma espécie vegetal, um comportamento humano ou uma instituição, o mito é sempre uma narrativa de criação."

Erich Fromm (1966, p. 174) afirma:

"O mito, como o sonho, apresenta uma história que se desenrola no tempo e no espaço, exprimindo em linguagem simbólica ideias religiosas, filosóficas e experiências da alma, onde reside seu verdadeiro significado."

Segundo Fromm, quando não compreendemos o significado simbólico do mito, tendemos a vê-lo apenas como uma narrativa ingênua ou pré-científica, deixando de perceber sua profundidade psicológica, filosófica e cultural.


Reflexão

As cosmogonias indígenas brasileiras revelam uma característica frequentemente ausente nas civilizações modernas: a percepção de que a humanidade não ocupa uma posição isolada acima da natureza, mas integra uma vasta comunidade cósmica composta por animais, plantas, rios, montanhas, espíritos e ancestrais.

Enquanto grande parte da modernidade construiu uma visão mecanicista do universo, os povos indígenas preservaram uma visão relacional, na qual tudo está conectado.

Talvez seja justamente essa perspectiva que explique por que tantas dessas tradições sobreviveram apesar de séculos de perseguições, epidemias, guerras e tentativas de apagamento cultural.

Elas não representam apenas histórias do passado.

Representam formas alternativas de compreender a existência.


Conclusão

O estudo das grandes cosmogonias indígenas brasileiras revela um patrimônio intelectual, espiritual e filosófico de valor inestimável para a humanidade.

Longe de constituírem simples lendas ou superstições, essas narrativas apresentam sistemas complexos de interpretação do universo que dialogam com as maiores tradições religiosas e mitológicas do planeta.

Os paralelos observados entre as cosmologias indígenas e as tradições do Egito, Mesopotâmia, Índia, China, Europa, África e Oceania demonstram que diferentes civilizações buscaram responder às mesmas questões fundamentais da existência.

Embora não seja possível afirmar uma origem comum para todas essas tradições, é evidente que compartilham símbolos, estruturas narrativas e arquétipos que atravessam culturas, continentes e milênios.

As cosmogonias indígenas brasileiras não pertencem apenas aos povos que as criaram.

Elas fazem parte da herança cultural da humanidade e constituem uma das mais extraordinárias janelas para compreendermos a relação entre o ser humano, a natureza e o mistério do cosmos.

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