A guerra como técnica de poder: conflito fabricado e dominação pela dissensão
Introdução
A guerra costuma ser explicada como herança inevitável da natureza humana: luta por recursos escassos, disputa territorial ou expressão de impulsos agressivos. Essa interpretação, embora recorrente, é filosoficamente insuficiente. O ser humano não é apenas um organismo instintivo; é um agente dotado de razão, consciência moral e capacidade de organização simbólica. Se a guerra persiste, apesar dessas faculdades, ela não pode ser compreendida como simples fatalidade biológica, mas como resultado de escolhas racionais inscritas em estruturas de poder.
Este ensaio sustenta que, na modernidade, a guerra e a polarização política não são falhas ocasionais do sistema social, mas instrumentos deliberados de dominação, mantidos por interesses econômicos, geopolíticos e simbólicos que se beneficiam da instabilidade permanente.
1. Violência natural e violência organizada
Na natureza, o conflito é limitado pela necessidade. O predador ataca para sobreviver e cessa quando o objetivo é alcançado. Não há projeto de perpetuação do caos. Na sociedade humana, ao contrário, a violência pode ser planejada, financiada e reproduzida independentemente de necessidades imediatas. A guerra deixa de ser reação e torna-se estratégia.
A existência de complexos militares-industriais, corporações armamentistas e sistemas financeiros associados à destruição revela uma ruptura decisiva: a violência deixa de ser um meio excepcional e passa a integrar a normalidade do funcionamento político-econômico. A guerra transforma-se em negócio; a crise, em oportunidade; a instabilidade, em condição desejável.
2. A dissensão como método de governo
O experimento mental do soberano que cria artificialmente partidos de esquerda e direita revela um princípio fundamental da política moderna: controlar a oposição é mais eficaz do que suprimi-la. Ao financiar, orientar e conhecer antecipadamente as ações de forças supostamente antagônicas, o poder central mantém-se acima do conflito, sem jamais se apresentar como sua origem.
A população acredita participar de uma disputa real, mas permanece confinada a alternativas previamente autorizadas. O conflito é intenso, as paixões são genuínas, porém o horizonte político está rigidamente delimitado. O poder verdadeiro não disputa eleições: ele organiza o campo no qual as disputas ocorrem.
3. Polarização e poder invisível
A polarização contínua fragmenta a sociedade, impede a formação de consensos autônomos e dissolve a possibilidade de ação coletiva dirigida ao núcleo real do poder. Nesse contexto, o soberano — ou a estrutura que o substitui — surge como árbitro indispensável, mediador racional de um conflito que ele próprio engendrou.
O povo, incapaz de identificar a origem estrutural da dissensão, passa a solicitar proteção, orientação e estabilidade exatamente à instância responsável pela crise. O domínio torna-se tanto mais eficaz quanto menos visível ele é.
Conclusão
A guerra moderna não é produto da natureza humana, mas de uma racionalidade política que transforma o conflito em técnica de governo. Enquanto a sociedade permanecer aprisionada em antagonismos artificiais, continuará incapaz de questionar as estruturas que lucram com a dissensão permanente. Superar a guerra exige, antes de tudo, desvelar o poder que se oculta atrás da polarização.
2) ARTIGO ACADÊMICO
Guerra e polarização política: o conflito como instrumento estrutural de poder
Resumo
Este artigo analisa a guerra e a polarização política como produtos de engenharia social, e não como consequências inevitáveis da agressividade humana ou da escassez de recursos. Argumenta-se que o conflito permanente cumpre função estrutural em sistemas de poder contemporâneos, ao servir simultaneamente a interesses econômicos, geopolíticos e de controle social. A dissensão controlada emerge como técnica central de dominação.
Palavras-chave: guerra; polarização política; poder; hegemonia; conflito.
1. Introdução
As abordagens tradicionais sobre a guerra tendem a privilegiar explicações biológicas ou econômicas. Contudo, tais perspectivas negligenciam o papel ativo das elites políticas e econômicas na produção deliberada do conflito. Este artigo propõe uma leitura crítica da guerra como instrumento racional de poder, funcional à manutenção de estruturas dominantes.
2. A guerra como normalidade sistêmica
No capitalismo avançado, a guerra deixa de ser exceção e passa a integrar a lógica ordinária do sistema. A indústria armamentista, os contratos militares e os interesses geopolíticos dependem da continuidade das crises. A paz duradoura, nesse contexto, representa uma ameaça econômica e estratégica.
3. Polarização política e controle da oposição
A criação e o financiamento de polos políticos antagônicos por uma mesma estrutura de poder revelam os limites da oposição formal. A polarização canaliza o descontentamento social para disputas simbólicas, desviando a atenção das decisões estruturais que permanecem fora do alcance democrático.
4. Discussão
A polarização política opera como tecnologia de governo. Ao dividir a sociedade, enfraquece-se a capacidade de organização autônoma e reforça-se a dependência em relação às instituições que se apresentam como mediadoras do conflito. O poder consolida-se não pela imposição direta, mas pela gestão da dissensão.
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