MUL.APIN e as Tabuletas de Uruk: A Constelação de Lira, a Estrela Vega e os Caminhos de Anu e Ea na Mais Antiga Enciclopédia Astronômica da Humanidade
O COMPÊNDIO MUL.APIN E AS TABULETAS DE URUK
A Ciência Astronômica da Antiga Mesopotâmia e a Importância da Estrela Vega
Introdução
Muito antes do surgimento dos telescópios, dos observatórios modernos e da astronomia contemporânea, os sacerdotes-escribas da antiga Mesopotâmia já observavam sistematicamente o céu. Ao longo de séculos, registraram o movimento do Sol, da Lua, dos planetas e das estrelas em milhares de tabuletas de argila escritas em caracteres cuneiformes.
Entre todos esses documentos, destaca-se o MUL.APIN, considerado pelos historiadores da ciência o mais completo tratado astronômico preservado da Antiguidade. Embora as cópias atualmente conhecidas pertençam principalmente ao primeiro milênio a.C., seu conteúdo reúne tradições muito mais antigas, originadas entre os sumérios e posteriormente desenvolvidas pelos astrônomos da Babilônia e de Uruk.
Mais do que um catálogo de estrelas, o MUL.APIN representa uma verdadeira síntese da ciência mesopotâmica, demonstrando que seus autores possuíam um extraordinário conhecimento dos ciclos celestes, das estações do ano, dos solstícios, dos equinócios e da regularidade dos fenômenos astronômicos.
CAPÍTULO I
O MUL.APIN: A Grande Enciclopédia Astronômica da Mesopotâmia
O nome MUL.APIN significa literalmente "A Estrela Arado", referência à primeira constelação descrita no texto. O tratado reúne séculos de observações acumuladas desde o final do terceiro milênio a.C., sendo posteriormente copiado e preservado pelos escribas da Babilônia, Assur e Uruk.
As tabuletas descrevem aproximadamente setenta estrelas e constelações distribuídas segundo três grandes regiões celestes, conhecidas como:
- Caminho de Anu;
- Caminho de Enlil;
- Caminho de Ea.
Essas três faixas correspondiam a diferentes porções do céu observadas ao longo do ano e permitiam prever mudanças climáticas, épocas agrícolas e festividades religiosas.
Além disso, o MUL.APIN apresenta:
- calendários agrícolas;
- datas dos nascimentos helíacos das estrelas;
- duração do dia e da noite;
- ciclos lunares;
- observações planetárias;
- posição dos solstícios e equinócios;
- métodos para medir o tempo.
Para muitos historiadores da ciência, trata-se do primeiro grande manual astronômico da humanidade.
As cópias conhecidas foram encontradas principalmente nas bibliotecas de Nínive e em escavações realizadas em Uruk, hoje preservadas em instituições como o Museu Britânico, o Vorderasiatisches Museum de Berlim e outras coleções especializadas em escrita cuneiforme.
O rigor dessas observações impressiona os astrônomos modernos. Diversos cálculos presentes nas tabuletas coincidem com reconstruções astronômicas realizadas por computadores, demonstrando a precisão alcançada pelos antigos observadores do céu.
CAPÍTULO II
Vega: A Estrela de Enzu e seu Papel na Astronomia de Uruk
Entre todas as estrelas catalogadas pelos escribas, uma ocupava posição privilegiada: Vega, atualmente a estrela mais brilhante da constelação da Lira.
Nos textos acádios e babilônicos ela aparece com nomes como Enzu ou Uza, frequentemente associada simbolicamente ao bode ou à cabra e, em algumas tradições, relacionada à deusa Gula, divindade da cura.
Por apresentar brilho intenso e ser facilmente identificável, Vega funcionava como uma verdadeira referência celeste para os astrônomos da antiga Mesopotâmia.
Seu nascimento helíaco — o primeiro reaparecimento da estrela antes do nascer do Sol após um período de invisibilidade — era utilizado para marcar importantes transições do calendário anual.
Essas observações auxiliavam na determinação:
- do início das estações;
- dos períodos de plantio;
- das grandes celebrações religiosas;
- da sincronização entre o calendário lunar e o ano solar.
Os registros do MUL.APIN revelam que os sacerdotes de Uruk compreendiam a regularidade dos movimentos celestes com notável precisão, transformando o céu em um gigantesco calendário natural.
Curiosamente, devido ao fenômeno conhecido atualmente como precessão dos equinócios, a posição aparente das estrelas modifica-se lentamente ao longo de milhares de anos. Assim, Vega ocupava uma posição diferente daquela observada atualmente, o que torna esses registros extremamente valiosos para a arqueoastronomia moderna.
Hoje, pesquisadores utilizam programas computacionais para reconstruir exatamente o céu observado pelos antigos sumérios, confirmando que muitas das descrições presentes nas tabuletas correspondem com surpreendente fidelidade às configurações celestes da época.
Reflexão
O MUL.APIN demonstra que a observação sistemática da natureza antecede em muitos séculos o nascimento da ciência grega. As tabuletas de Uruk revelam uma civilização que transformou a contemplação do céu em conhecimento organizado, integrando astronomia, agricultura, religião e administração do tempo.
Embora alguns autores contemporâneos proponham interpretações não acadêmicas envolvendo civilizações perdidas ou conhecimentos de origem extraordinária, as evidências arqueológicas disponíveis indicam que o MUL.APIN é resultado de um longo processo de observação acumulada por gerações de astrônomos-escribas. Sua importância reside justamente em mostrar a capacidade humana de construir conhecimento científico de forma gradual e sistemática.
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