A Figura Transcendente de Melquisedeque (Marquisedeck)
1. Introdução: O Enigma da Eternidade
Melquisedeque surge na narrativa bíblica de forma abrupta e desaparece com a mesma rapidez. Sua importância, contudo, é inversamente proporcional à sua presença textual no cânone. Ele é o protótipo do "Rei-Sacerdote" (Melek-Tsedek), uma figura que detém a autoridade temporal e espiritual simultaneamente, operando fora da linhagem levítica e da lei mosaica.
2. Perspectivas Judaicas: O Mistério de Sem e o Zohar
Na tradição rabínica e nos comentários clássicos (Midrash), a identificação de Melquisedeque é frequentemente associada a Sem, filho de Noé.
A Transmissão do Sacerdócio: Segundo o Targum Jonathan e o Pirke De-Rabbi Eliezer, Sem teria sobrevivido até os dias de Abraão, transmitindo-lhe a bênção e o sacerdócio que vinham desde Adão.
O Zohar (Mística Judaica): No pensamento cabalístico, Melquisedeque é visto como uma personificação da Shekhinah (presença divina) ou um aspecto de Binah. Ele representa a "Justiça" que se une à "Misericórdia" (Abraão).
Qumran (Manuscritos do Mar Morto): O documento 11Q13 (ou 11QMelch) o retrata como um ser celestial, um juiz escatológico que executará o julgamento divino contra Belial e seus espíritos no final dos tempos, sendo identificado quase como um Arcanjo Miguel.
3. Tradições Árabes e Islâmicas: Malek al-Salam
Embora não seja citado nominalmente no Alcorão de forma explícita, a tradição islâmica e o esoterismo sufi encontram paralelos profundos.
Al-Khidr: Muitos comentadores esotéricos associam a função de Melquisedeque à figura de Al-Khidr (O Verdejante), o mestre imortal que instrui Moisés. Ambos representam a Religio Perennis — a religião primordial que existe independentemente das revelações formais.
Fontes Árabes Cristãs: Em textos como o Livro da Caverna dos Tesouros (escrito originalmente em siríaco, mas influente no mundo árabe), Melquisedeque é o guardião dos restos mortais de Adão, servindo no "Centro da Terra" (Gólgota) antes mesmo da fundação de Jerusalém.
4. Tradições de Língua Francesa e Inglesa: Esoterismo e Academia
A Europa, especialmente nos séculos XVIII e XIX, redescobriu Melquisedeque através de ordens iniciáticas e estudos críticos.
Tradição Francesa (Martinismo e Guénon): René Guénon, em sua obra O Rei do Mundo, discute Melquisedeque como o título da função suprema do centro espiritual da humanidade. Para o esoterismo francês, ele é o "Mestre da Justiça" e o "Mestre da Paz".
Tradição Inglesa (Escola de Cambridge e Sacerdócio Eterno): Teólogos ingleses do século XVII, como os Platonistas de Cambridge, exploraram Melquisedeque como a prova de que Deus se revelou aos gentios (os "Santos Pagãos") antes da Aliança com Israel. Na literatura contemporânea de língua inglesa, destaca-se a análise da Epístola aos Hebreus como um tratado sobre a superioridade do modelo de Melquisedeque sobre o modelo de Aarão.
5. Tradições Antigas e Apócrifas: O Nascimento Milagroso
No Livro de Enoque Eslavônico (2 Enoque), há um relato fantástico sobre o nascimento de Melquisedeque:
Ele teria nascido do cadáver de Sopfanim (esposa de Nir, irmão de Noé).
Já nasceu completamente formado, falando e louvando a Deus.
Foi levado pelo Arcanjo Gabriel para o Jardim do Éden para ser preservado do Dilúvio, explicando sua "imortalidade" e falta de genealogia.
6. Análise Criteriosa: A Função do "Não-Dito"
O silêncio bíblico sobre sua origem não é uma falha, mas um recurso teológico. Ao não possuir pai, mãe ou genealogia (Hebreus 7:3), ele se torna o símbolo perfeito para:
A Universalidade do Divino: Ele prova que o "Deus Altíssimo" (El Elyon) era adorado fora de Israel.
O Sacrifício Superior: A oferta de Pão e Vinho antecipa a Eucaristia cristã, sendo uma alternativa ao sacrifício de sangue dos levitas.
A Autoridade Espiritual sobre a Temporal: O fato de Abraão (o pai da nação) pagar dízimo a Melquisedeque estabelece uma hierarquia onde a inspiração espiritual precede a organização política.
7. Conclusão
Melquisedeque é o ponto de convergência de todas as grandes tradições espirituais. Seja como o Sem bíblico, o Al-Khidr islâmico, o Arcanjo de Qumran ou o Rei do Mundo do esoterismo francês, ele permanece como o lembrete de que existe uma fonte de sabedoria e autoridade que precede a história e as religiões organizadas. Ele é a ponte entre o tempo e a eternidade.
Bibliografia Comentada sobre Melquisedeque
Esta lista reúne as principais fontes primárias e secundárias necessárias para um estudo aprofundado sobre a figura de Melquisedeque (Marquisedeck) em múltiplas tradições.
1. Fontes Primárias e Textos Antigos
Tradição Judaica e Manuscritos do Mar Morto
11Q13 (11QMelch): Manuscrito de Qumran que descreve Melquisedeque como uma figura celestial/divina.
Gênesis Apócrifo (1QapGen): Colunas XXII, onde a narrativa de Gênesis 14 é expandida.
O Zohar (Edição de Mantua): Especialmente os comentários sobre a Parashá Lech Lecha.
Targum Neofiti e Targum Pseudo-Jonathan: Traduções aramaicas do Pentateuco que identificam Melquisedeque como Sem.
Midrash Rabbah e Pirke De-Rabbi Eliezer: Textos fundamentais da exegese rabínica clássica.
Tradição Cristã e Gnóstica
Bíblia Sagrada: Gênesis 14:18-20; Salmo 110:4; Epístola aos Hebreus (capítulos 5, 6 e 7).
Códice IX de Nag Hammadi (Tratado de Melquisedeque): Texto gnóstico que o retrata como um redentor escatológico.
2 Enoque (Enoque Eslavônico): Capítulos 71 e 72, detalhando o nascimento milagroso.
A Caverna dos Tesouros (M'arrath Gazzé): Texto siríaco (traduzido para o árabe) que conecta Melquisedeque ao corpo de Adão.
2. Literatura Acadêmica e Crítica (Inglês e Francês)
DAVILA, James R. Liturgical Works (Eerdmans commentary on the Dead Sea Scrolls). Estudo profundo sobre o papel litúrgico de Melquisedeque em Qumran.
FITZMYER, Joseph A. The Genesis Apocryphon of Qumran Cave 1: A Commentary. Roma: Pontifical Biblical Institute.
HORTON, Fred L. The Melchizedek Tradition: A Critical Examination of the Sources to the Fifth Century A.D. Cambridge University Press. (A obra definitiva sobre a evolução histórica do mito).
MARCUS, Joel. Melchizedek and Jesus. Estudo comparativo sobre a tipologia sacerdotal.
PEARSON, Birger A. Gnosticism, Judaism, and Egyptian Christianity. Fortress Press. (Analisa a visão gnóstica de Melquisedeque).
VAJDA, Georges. Études de théologie et de philosophie arabo-juives. (Fundamental para entender a intersecção entre fontes judaicas e árabes).
3. Tradições Árabes e Esoterismo
GUÉNON, René. Le Roi du Monde (O Rei do Mundo). Gallimard, 1927. (Obra fundamental do tradicionalismo francês que analisa Melquisedeque como o cargo supremo do centro espiritual).
CORBIN, Henry. En Islam Iranien e L'Homme de Lumière dans le soufisme iranien. (Analisa a figura de Al-Khidr e sua conexão com o arquétipo de Melquisedeque).
MASSON, Denise. Le Coran et la révélation judéo-chrétienne. (Estudo comparativo das figuras bíblicas nas tradições árabes).
SCHUON, Frithjof. The Transfiguration of Man. (Reflexões sobre a Religio Perennis e o sacerdócio melquisedequiano).
4. Estudos Teológicos Contemporâneos
BARKER, Margaret. The Older Testament e The Great High Priest. (Explora o sacerdócio de Melquisedeque como parte da teologia do Primeiro Templo).
SWETNAM, James. Jesus and Isaac: A Study of the Epistle to the Hebrews in the Light of the Aqedah. Analisa a relação entre o sacrifício de Isaac e a ordem sacerdotal.
WOODS, Michael. The Melchizedek Connection. (Uma exploração das ramificações históricas e lendárias).
5. Dicionários e Enciclopédias Especializadas
Encyclopedia Judaica: Ver verbete "Melchizedek".
Dictionary of Deities and Demons in the Bible (DDD): Editado por Karel van der Toorn, Bob Becking, e Pieter W. van der Horst.
Anchor Bible Dictionary: Ver seção sobre sacerdócio e figuras do período intertestamentário.

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